IMPERIALISMO NA ERA DIGITAL E TRANSIÇÃO ENERGÉTICA: MECANISMOS RENOVADOS DE TRANSFERÊNCIA DE VALOR DO SUL GLOBAL

Daniela Doms – Doutoranda em Economia Política, UFABC

“O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?” 

Eduardo Galeano

INTRODUÇÃO

No século XXI, as narrativas hegemônicas da Quarta Revolução Industrial e da transição energética apresentam-se como vetores do progresso técnico e universalmente benéfico. No entanto, estes projetos estão profundamente entrelaçados com dinâmicas geopolíticas de poder e acumulação que reconfiguram os padrões seculares de dominação. Diante dessa contradição, este artigo pretende refletir de que modo os pilares materiais deste paradigma tecno-ecológico: a extração de minerais críticos e a operação da infraestrutura digital, intensificam os mecanismos históricos de transferência de valor e dependência do Sul Global, reeditando, sob o véu ideológico da neutralidade tecnológica e da urgência climática, as estruturas clássicas do imperialismo no século XXI. A hipótese central que orienta esta análise é a de que a extração de minerais críticos e a operação da infraestrutura digital atuam como os principais vetores materiais e discursivos da reconfiguração dos padrões históricos do imperialismo no século XXI. Esta renovação opera através da institucionalização de um duplo circuito extrativo, material e imaterial, que intensifica e sofistica os mecanismos de transferência de valor e dependência do Sul Global. A extração mineral contemporânea reativa e moderniza o extrativismo colonial, criando uma dependência estratégica renovada. A demanda por minerais críticos, definidos pelas necessidades securitárias e industriais do centro do sistema, converte territórios do Sul Global em novas fronteiras essenciais de recursos. Este processo não apenas reproduz os danos socioambientais históricos, mas, cristaliza uma divisão internacional do trabalho que captura valor nas etapas de maior complexidade tecnológica (refino, fabricação de componentes, produção de bens finais), situadas no Norte Global e em polos industriais asiáticos. O Sul, por sua vez, permanece fornecedor de commodities de baixo valor agregado, preso a uma vulnerabilidade cíclica e impedido de construir cadeias industriais autônomas. A retórica da “transição verde” serve aqui para legitimar essa pressão extrativa como um imperativo planetário, obscurecendo seus fundamentos geopolíticos. Paralelamente, o controle sobre a infraestrutura concede poder de vigilância, estrangulamento e governança sobre as economias periféricas, criando uma dependência profunda que mina a soberania nacional. A infraestrutura digital, portanto, racionaliza, acelera e protege juridicamente todo o complexo extrativo global. A narrativa dupla, “verde” e “digital”, fornece a camada de legitimação ideológica. Dessa forma, o imperialismo contemporâneo aprisiona o Sul Global em uma função renovada de fornecedor de commodities, perpetuando sua condição periférica e financiando a acumulação no centro do sistema.

  1. IMPERIALISMO E A RELAÇÃO CENTRO-PERIFERIA 

A análise da mineração no Brasil colonial escravista, na obra de Jacob Gorender (2016), constitui a genealogia histórica concreta dos processos estruturais que conformaram a sociedade brasileira: a especialização primário-exportadora, a superexploração do trabalho, a transferência de valor para o centro e a constituição de um Estado funcional à espoliação. Movidos pela lógica predatória, essa dinâmica estabeleceu uma relação puramente instrumental, de esgotamento, tanto da Natureza, como do trabalho. O escravo minerador, submetido a condições brutais em galerias e bateias, era tratado como um recurso descartável para a extração de um recurso finito. A análise evidencia tanto a noção de superexploração ampliada, quanto o desgaste ecossistêmico produzido pela mineração, demonstrando que a atividade operou como um mecanismo eficientíssimo de transferência de valor. Gorender demonstra o elo direto entre a superexploração colonial e a acumulação de capital no centro dinâmico do capitalismo nascente. O processo descrito pelo autor subsidia o que Ruy Mauro Marini (1979) definiu como o padrão de reprodução do capital dependente, fundado na superexploração do trabalho como mecanismo compensatório da transferência sistemática de valor, e o que Samir Amin (2011) chamou de mundialização do mais-valor: a periferia fornecendo commodities sob relações de produção arcaicas e superexploradoras para financiar o desenvolvimento industrial alheio. Neste sentido, Amin (2005) afirma que o capitalismo nasce imperialista. Para o autor, o imperialismo não é um estágio, tão pouco um estágio superior, está inseparavelmente contido na natureza do capitalismo desde sua origem. E é no saque às Américas que ele desenvolve seu primeiro momento devastador. O segundo momento de sua devastação se expressa na Revolução Industrial e na submissão colonial da Ásia e da África, novamente motivado pela apropriação dos recursos naturais dessas regiões, mas também na busca de novos mercados para a sua expansão. Como observado por Marx e Engels no Manifesto Comunista, em  1848, a necessidade de um mercado em constante expansão persegue a burguesia por toda a superfície do globo e ela deve criar conexões em toda parte.  No entanto, até o início do século XIX criar essas conexões levava tempo, a velocidade da comunicação estava intrinsecamente limitada pela distância física. O capital necessitava de informações em tempo hábil para circular com eficiência, e essa circulação era estruturalmente impedida pela desconexão entre a velocidade da produção industrial e a lentidão das comunicações intercontinentais. Isso impedia a integração plena dos mercados globais e também constituía-se num desafio para a dominação imperial. Foi precisamente este gargalo tecnológico que tornou o telégrafo elétrico não apenas uma inovação, mas uma condição para a consolidação do capitalismo industrial em escala verdadeiramente global. Neste sentido, muito antes da internet, a invenção do telégrafo no século XIX revolucionou a comunicação mundial, “um salto quântico que colocou a metrópole em comunicação quase direta e em “tempo real” com os confins do império” (Tully, 2009, p. 560). A invenção do telégrafo contribuiu enormemente para conectar e expandir mercados como para o controle imperial das colônias. A nova tecnologia atrelava-se profundamente ao colonialismo, tanto no uso que lhe foi dado quanto na própria matéria prima que a tornou possível: a guta-percha (Tully, 2009). 

Uma árvore específica do Sudeste Asiático ocupou lugar central na infraestrutura essencial da expansão da telegrafia através de cabos submarinos transatlânticos. Encontrada principalmente na Malásia e em Singapura, a Palaquium Gutta produz um látex natural denominado como gutta-percha, que revelou-se a solução para o isolamento dos cabos subaquáticos. Através do Canal da Mancha, em 1850, os cabos revestidos com gutta-percha começaram a conectar a Inglaterra à França e, em 1865, Karachi, na Índia, já estava ligada em comunicação quase instantânea com Londres “com os sinais de código Morse voando pelos fios (…). Malta foi conectada a Alexandria em 1868; a França à Terra Nova em 1869; Índia, Hong Kong, China e Japão até 1870; a Austrália em 1871; e a América do Sul até 1874” (Tully, 2009, p. 568). Inicialmente, a tecnologia passou a operar com investimentos provenientes de capital privado, com montantes astronômicos que, hoje, equivaleriam a 10 bilhões de libras esterlinas. Não tardou, porém, para que os governos passassem a subsidiar os investimentos, especialmente por seu valor estratégico e militar. Em 1879, após a Guerra Anglo-Zulu, o governo britânico passou a subsidiar a Eastern and Southern Africa Telegraph Company (Tully, 2009). 

Tully (2009, p. 560) afirma que: “se Londres era o cérebro do Império, os cabos telegráficos eram seus nervos. Os “nervos” foram um triunfo da engenharia vitoriana”. Para o autor, esse foi um grande passo para o que hoje chama-se de globalização e a gutta-percha foi a condição indispensável para o sucesso do telégrafo submarino. Para os padrões da época, a telegrafia elétrica tratava-se de uma indústria de alta tecnologia.  No entanto, enquanto o cobre para os fios e o revestimento externo de ferro era produzido industrialmente, em empreendimentos de grande escala com trabalho organizado de mineradores e operários nas fábricas, a gutta-percha provinha de uma indústria extrativa primitiva que dependia do trabalho duro e insalubre de lenhadores que arriscavam suas vidas através de métodos rudimentares e ineficientes, devastando as florestas pela pressão implacável do mercado. A exportação de gutta-percha para a Europa começou em 1844 e, entre 1845 e 1847, quase 70 mil árvores foram derrubadas em Singapura, aumentando cada vez mais. Em Bornéu, entre 1875 e 1885, cerca de 3 milhões de árvores foram exterminadas. Em aproximadamente 50 anos a árvore estava praticamente extinta da natureza, a indústria telegráfica destruiu as árvores das quais dependia sua existência. Tully (2009, p. 576) argumenta que: 

“(…) foi o colonialismo que remodelou a face do Sudeste Asiático, removendo as florestas e erguendo novas cidades como Singapura no processo. A cor das mãos que empunhavam o machado e o parang era irrelevante neste aspecto. Podemos ao menos ser gratos, no entanto, que não foi considerado necessário submeter os malaios ao tipo de escravidão e violência que acompanhou a exploração das árvores e cipós de borracha silvestres no chamado Estado Livre do Congo sob Leopoldo II dos Belgas e no rio Putumayo, no Peru”. 

Se o telégrafo foi o “sistema nervoso” do imperialismo vitoriano, a extração mineral nos primeiros ciclos de exploração colonial forneceu o sangue vital, o fluxo de metais preciosos que irrigou e alimentou o imperialismo nascente. A destruição material das fontes de riqueza é a expressão concreta da contradição fundamental do capitalismo desde sua origem, que se manifesta historicamente de forma contínua e escalonada, e tende a canibalizar sua própria base, levando a degradação ecológica, política e social (Fraser, 2024). Em O Capital (Livro I), Marx demonstra que o desenvolvimento histórico do capitalismo está intrinsecamente ligado ao aumento contínuo da produtividade, impulsionado, sobretudo, pelo avanço tecnológico. Contudo, não deixa de reconhecer que as fontes originais de toda a riqueza são o trabalho e a Natureza. Neste sentido, citando William Petty, Marx diz: “se o trabalho é o pai da riqueza material, a terra é a mãe” (Marx, 2013, p. 167). Ao submeter o trabalho a relações de exploração e alienação, esgota a vitalidade e a capacidade criativa dos trabalhadores. Paralelamente, ao tratar a Natureza como mero recurso a ser explorado, degrada os ecossistemas e rompe o metabolismo entre sociedade e meio ambiente. Dessa forma, o capital, movido pela lógica da valorização, acaba por corroer as bases que o originam: o trabalho vivo e a terra. Para Fanon (2022) o colonialismo é violência em Estado puro, violência estrutural que desumaniza, aliena, confisca e reduz a existência  do colonizado à coisificação. Mas, mesmo após os processos de descolonização política no século XX, isso não representou o fim da dominação imperial, e sim a sua transformação em um mecanismo mais sofisticado e eficaz: o neocolonialismo (N’Krumah, 1967). Se no modelo colonial, descrito por Gorender, o controle era direto (administração metropolitana, monopólios comerciais, escravidão), no neocolonialismo ele se torna indireto, porém mais abrangente. A economia e a política da ex-colônia são dirigidas de fora. A dominação não é mais imposta por um governo colonial, mas pela ação combinada de corporações transnacionais que controlam setores-chave (mineração, petróleo, plantações), por instituições financeiras internacionais (FMI, Banco Mundial) que condicionam políticas através da dívida e dos ajustes estruturais, pelo aparato de “assistência” técnica e militar que vincula as elites locais aos interesses do centro (N’Krumah, 1967). 

O capitalismo imperialista, em si, é violência em estado puro. O colonialismo ou o neocolonialismo são fases dessa violência que se manifesta ora direta, ora indiretamente, mas coexistem de forma permanente. O sistema centro-periferia é, portanto, estrutura perene do imperialismo. A periferia é moldada para se especializar na produção primária (commodities) e fornecer recursos a baixo custo, enquanto o centro monopoliza a tecnologia, a indústria de alto valor e o poder financeiro (Amin, 1976; Patnaik&Patnaik, 2024). Assim, na era do capitalismo monopolista globalizado, a lei do valor de Marx só pode ser plenamente compreendida em sua escala efetiva de operação: a escala mundial. A articulação entre a superexploração do trabalho e a gestão predatória dos recursos naturais da periferia são mecanismos que, combinados, permitem a extração sistemática de uma renda imperialista para o centro do sistema (Amin, 2011). A lei do valor mundializada constitui, portanto, uma forma de regulação do sistema capitalista, evidenciando as assimetrias estruturais da economia-mundo. A transferência de valor da periferia para o centro é um mecanismo constitutivo da reprodução do capital.

  1.  TECNO-OTIMISMO: O VÉU DA DEGRADAÇÃO

O avanço tecnológico transformou a vida cotidiana no século XXI sob o mesmo princípio predatório que estrutura o capitalismo desde sua origem, que persiste e se sofistica, agora de maneira ainda mais parasita, tal qual a Vespa de Darwin, capaz de manipular o comportamento de seu hospedeiro enquanto o consome até a morte. A dominação imperialista segue operando em um espectro que alterna entre o controle direto e indireto. E o horizonte temporal crítico aponta para um dos desafios mais complexos e existenciais da história humana, a crise ecológica e a degradação acelerada das condições sistêmicas que sustentam a vida, resultado direto do acúmulo histórico do padrão de exploração e esgotamento. Paradoxalmente, o mesmo setor de tecnologia que promoveu uma onda de inovações provocando transformações no mundo do trabalho (Figueiras e Cavalcante, 2020; Antunes, 2018), na produção e no padrão de acumulação no século XXI (Schincariol et al., 2024), propagandeia planos para o enfrentamento da crise climática através do uso das tecnologias como ferramentas de resolução de problemas (Crawford, 2025), ao mesmo tempo em que transforma também a experiência humana em matéria-prima gratuita, manipulada pelas Big Techs (Google, Meta, Amazon, Microsoft, Nvidia, Tesla, Apple). Essas empresas, majoritariamente localizadas em território norte-americano, personificam hoje o núcleo de comando de monopólios que controlam os fluxos globais de dados, a arquitetura das redes de comunicação, os sistemas operacionais da experiência social e os algoritmos que moldam a percepção da realidade (Zuboff, 2021). O valor de mercado dessas empresas supera o PIB de toda a América Latina (Feldmann, 2024). 

O tecno-otimismo tornou-se o evangelho do Vale do Silício, assim como exposto no Manifesto de Marc Andreesen (2023), bilionário que fez fortuna na década de 1990 no setor de tecnologia: “Acreditamos que não há nenhum problema material, seja ele criado pela natureza ou pela tecnologia, que não possa ser resolvido com mais tecnologia”, encapsulando, assim, o desejo público de um futuro melhor. Do mesmo modo, a narrativa da transição energética é vendida como uma evolução na maneira de gerenciar o futuro, substituindo o alarme do colapso ecológico iminente pela narrativa confortante da obtenção de energia renovável, proveniente do sol e do vento. Essa narrativa, no entanto, esconde mais do que revela. Mesmo após a descoberta do petróleo e da energia nuclear, a humanidade nunca abandonou completamente a lenha ou o carvão. Historicamente, o que observa-se, é uma sobreposição de fontes energéticas e não uma substituição pura e simples (Fressoz, 2024). O mesmo ocorre com a “desmaterialização” na Era Digital; a ideia de que progressos como a nuvem, o streaming, as inovações das Big Techs, nos libertam dos limites do mundo físico e nossa existência tecnológica flutua livre de lastro material. Para Crawford (2024) “tudo isso é parte da imagem pública cuidadosamente produzida de uma indústria de tecnologia sustentável e zero emissão de carbono”. Na realidade, segundo a autora, estima-se que até 2040 o setor de tecnologia contribuirá com 14% das emissões de gases do efeito estufa, e até 2030, a demanda de energia dos data centers aumentará até 15 vezes.  A pesquisa de Emma Strubell et. al. (2019) revelou que o treinamento de um único modelo de processamento de linguagem natural (PLN) de IA produz mais de 300 toneladas de emissões de dióxido de carbono, que Crawford (2025, p. 56) compara ao “equivalente a toda a vida útil de 5 carros movidos a gasolina, ou 125 voos ida e volta de Nova York a Pequim”. Na China, 73% da energia dos data centers é proveniente da queima de carvão que, apenas em 2018, emitiu 99 milhões de toneladas de CO². A estimativa é que haja um aumento de ⅔ dessas emissões até 2030 (Crawford, 2025). Além da demanda colossal de energia, a água é outro recurso indispensável para a indústria de data centers. Nos EUA, um dos maiores data centers pertence à NSA (National Security Agency), localizado no Estado de Utah, a estimativa de consumo diário de água é de 6,4 milhões de litros, a NSA não apenas não confirmou os dados públicos, como os censurou, alegando ser uma questão de segurança nacional (Crawford, 2025). 

O que se vende como imaterial e renovável é, na verdade, a manifestação do extrativismo que repete os mesmos padrões de exploração da natureza, mas agora “vestido de verde”. De 2013 a 2022, foram investidos, aproximadamente, 3,4 trilhões de dólares em energia renovável. Solar e eólica, fundamentais para a transição energética, representaram quase 90% do total dos investimentos, essas tecnologias renováveis dependem, de modo essencial, dos minerais críticos e estratégicos. Uma única turbina eólica terrestre demanda até 9 vezes mais recursos minerais que uma usina de gás natural de capacidade equivalente e os veículos elétricos até 6 vezes mais minerais que os convencionais (Stacciarini;Gonçalves, 2025). De 2015 até 2050, Watari et al. (2019) estimam que, no setor energético, o fluxo de minerais críticos aumente de 200-900%, e no setor de transportes de 350-700%. Segundo Stacciarini e Gonçalves (2025), a grande maioria da exploração desses minerais ocorre no Sul Global. Os autores reforçam que:

“Esses países, caracterizados por baixos níveis de renda, desenvolvimento limitado e condições de vida precárias, frequentemente flexibilizam suas regulamentações ambientais e sociais em troca de benefícios mínimos, como royalties e investimentos diretos. As corporações, por sua vez, aproveitam-se desse cenário para maximizar seus lucros, sem esforços significativos para mudar a realidade local. Além disso, grande parte da infraestrutura tecnológica e das principais empresas envolvidas em toda a cadeia de produção é originária de países ricos, que se beneficiam dos maiores lucros gerados pelo processamento mineral, pela manufatura de tecnologias de ponta e por sua comercialização. Enquanto isso, os trabalhadores e as comunidades nas áreas de extração enfrentam as consequências mais severas dessas atividade” (Stacciarini; Gonçalves, 2025, p. 2). 

A demanda por minerais críticos e estratégicos não se limita à transição energética, mas se estende para a Inteligência Artificial, a indústria militar, a indústria 4.0, entre outras que constituem a base tecnológica do nosso tempo, eles são a coluna vertebral que sustenta o novo padrão de acumulação; a energia, é o coração que mantém o sistema; e os dados, o sistema nervoso central que comanda e coordena a dominação social em escala global. Nas palavras de Amin (2005, p. 85), “os objetivos do capital dominante permanecem os mesmos, o controle da expansão dos mercados, a pilhagem dos recursos naturais do planeta, a superexploração das reservas de mão-de-obra da periferia, ainda que operando em novas condições e, em certos aspectos, muito diferentes daquelas que caracterizaram a fase precedente do imperialismo”. O contraste centro/periferia, agora, não aparece mais apenas no monopólio da indústria, como no século XX, mas sob outras formas, fundado em outros monopólios (tecnologia, acesso aos recursos naturais, comunicações e informação, controle do sistema financeiro mundial, armas de destruição em massa) articulados dos centros do sistema (Amin, 2005).   

Schincariol et al. (2024) argumentam que a economia norte-americana parece estar ingressando em um novo regime de acumulação e regulação, que conceituam provisoriamente como “Capitalismo 4.0”. Esse movimento seria uma reação à queda dos níveis de produtividade, especialmente após 2001. A partir de mutações no capitalismo pós-fordista, emerge no centro da economia mundial um modelo de organização global ainda mais flexível, que ganhou força com a pandemia de COVID-19. A crise sanitária acelerou processos de digitalização já em curso, tais como compras online, ensino à distância, consultas médicas virtuais e home office. Além disso, estimulou operações produtivas via nuvem e o uso de robôs nos setores de serviço e distribuição. Para os autores, o esgotamento da “produção flexível” pós-fordista tornou-se evidente ao longo dos anos 2000, processo agravado pelos efeitos da crise de 2008 e, posteriormente, pela pandemia, com impactos nos ganhos financeiros, nos investimentos e na demanda agregada global. Os efeitos acumulados dessas transformações constituíram os mecanismos básicos para desencadear uma nova onda de inovações tecnológicas, a Indústria 4.0, capaz de “poupar trabalho”, incrementar processos de gestão e ampliar a capacidade exportadora. Neste sentido, vale destacar o documento publicado pelo governo dos EUA, no dia 05 de dezembro de 2025, National Security Strategy of the United States of America (NSS), no qual reatualiza a Doutrina Monroe, de 1823, para a América Latina. Que agora inclui um “Corolário Trump” e determina expandir o acesso dos EUA em locais de importância estratégica para a economia norte-americana e impedir o controle estrangeiro sobre ativos-chaves e cadeias de suprimentos críticas (NSS, 2025), num claro recado à China, a fim de enfraquecer sua presença na região, evidenciando, de modo explícito, a sua política imperialista, reafirmada sem qualquer pudor. 

Poucos dias antes da publicação da Casa Branca, o Banco JP Morgan publicou em seu site um artigo intitulado “América Latina: fonte-chave de minerais para o futuro da Inteligência Artificial”, afirmando que – conforme já destacado em seu relatório Perspectivas 2026; “a região concentra muitos dos insumos dos quais a economia global depende cada vez mais”. Assim, o artigo do JP Morgan diz que “a incomparável base de recursos da América Latina tornou-se indispensável para o futuro”. Segundo o banco, a Agência Internacional de Energia (AIE) aponta que até 2035, o déficit na oferta de cobre pode ser de 20% a 40%, e de 30% a 60% na oferta do lítio. Ressalta, então, “a urgência de desenvolver novos projetos quanto à importância estratégica das reservas latino-americanas, em um cenário onde a demanda global continua superando amplamente a oferta”. No contexto atual da disputa sino-americana por influência global, os países do Sul reemergem como fontes vitais de recursos naturais imprescindíveis para materializar as possibilidades de crescimento econômico e as relações de poder de ambas as potências, assim, intensificam-se os mecanismos de extração da renda imperialista que flui da periferia para subsidiar a manutenção do poder no centro do sistema.

CONCLUSÃO

O futuro “tecno-ecológico” que, concretamente se torna cada vez mais hegemônico, é a mais recente e sofisticada camada sedimentada sobre as estruturas seculares do imperialismo. O duplo circuito extrativo – material, dos minerais; imaterial, dos dados – consolida-se como o mecanismo estruturante do imperialismo no século XXI, operando uma reengenharia do poder que intensifica a pilhagem sob o véu ideológico da neutralidade tecnológica e da urgência climática. A periferia global foi e continua a ser moldada como uma zona de sacrifício, especializada na provisão de matéria-prima e trabalho superexplorados. O que a era digital e da transição energética introduz é uma aceleração exponencial, uma racionalização algorítmica e uma capa discursiva verde para este antigo padrão. A infraestrutura digital otimiza a extração mineral, facilita a financeirização dos recursos e, simultaneamente, institui um novo regime de acumulação por vigilância e extração de dados. O Sul Global fornece, assim, os minerais para os chips e as baterias, e os dados para alimentar os algoritmos, recebendo em troca externalidades socioambientais, dependência tecnológica e a perpetuação de seu lugar na divisão internacional do trabalho. Este complexo tecno-extrativo contemporâneo realiza, em escala ampliada e com meios inéditos, a dinâmica teorizada por Samir Amin: a mundialização do mais-valor e a renda imperialista do século XXI, composta por este duplo fluxo: o fluxo material, da riqueza natural extraída como commodity de baixo valor; e o fluxo imaterial, da riqueza informacional e comportamental extraída como dado. Ambos convergem para subsidiar a acumulação, a inovação e o poder político-militar das potências hegemônicas. O “Corolário Trump” reatualizado na estratégia de segurança nacional dos EUA e a cobiça financeira explicitada pelo JP Morgan são a expressão franca desta lógica permanente. Respondendo à interrogação de Galeano, que abre este trabalho, digo que o passado não é mudo, ele grita hoje pelos fios de cobre que carregam dados, nas crateras abertas pela mineração, através das comunidades espoliadas e expropriadas pelo progresso tecnológico, na exaustão dos novos “lenhadores” da era digital. Somente o movimento da história é capaz de responder essa questão. O fato é que os desafios do Sul Global no século XXI se intensificam, romper com os mecanismos de espoliação e com a estrutura cognitiva que os apresenta como progresso inevitável passa, inevitavelmente, por forjar soberania sobre recursos estratégicos e sobre seu espaço digital, para construir um paradigma alternativo, descolonizado e pós-extrativista. O futuro anunciado será apenas a repetição do passado, renovado e intensificado, sob a continuidade da degradação das condições de vida? O movimento da história não admite determinismos. Cabe aos povos do Sul, cientes da armadilha renovada, escrever um capítulo diferente.

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Zuboff, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Ed. Intrínseca. Rio de Janeiro, 2020.

Alimentação como Campo de Batalha Política e Afetiva: Cuidado, Gênero e Soberania Alimentar

Coletivo Valente

O domínio do fogo para cozinhar alimentos não foi um mero avanço tecnológico na trajetória humana; foi um salto evolutivo que redefiniu nossa própria biologia e nos distanciou radicalmente de outros animais. Enquanto os demais seres consomem seu alimento cru, guiados pelo instinto imediato da fome, o ser humano iniciou uma revolução ao transformar o natural através do calor. Essa alquimia primordial liberou energias ocultas: amidos e proteínas complexas foram pré-digeridas, permitindo que nossos ancestrais absorvessem mais nutrientes com menos esforço digestivo. Essa eficiência energética teve um impacto colossal: reduziu o tamanho do intestino e liberou recursos para o desenvolvimento exponencial do cérebro, pavimentando o caminho para a linguagem, a cultura e a complexidade social que nos definem. O ato de cozinhar nos reconfigurou fisicamente e nos tornou humanos.

Esta capacidade transformadora elevou o ato de comer a uma dimensão única. Cozinhar deixou de ser apenas uma função biológica para se tornar o cerne da cultura, do ritual e do afeto. Criamos sabores e texturas inexistentes na natureza – o pão levedado, o queijo maturado, o complexo molho que demora horas para ficar pronto. Transformamos ingredientes brutos em símbolos de identidade e patrimônio transmitido por gerações, expressão de pertencimento a uma comunidade ou nação. O “comer junto”, fruto de um cozinhar intencional, se tornou linguagem universal de cuidado, celebração e construção de laços, transformando o alimento em pretexto para narrativas, rituais sagrados e demonstrações de amor.

A Comensalidade e o Trabalho (Invisibilizado) das Mulheres

A comensalidade – o ato de compartilhar refeições à mesma mesa – é um alicerce fundamental da vida social e familiar. Historicamente, e ainda predominantemente em muitas culturas, as mulheres desempenham um papel crucial, mas muitas vezes invisibilizado, na preservação e manutenção deste ritual. São elas as principais planejadoras, executoras e anfitriãs das refeições compartilhadas. E isso envolve funções de planejamento, tais como decidir o cardápio, considerar preferências e necessidades nutricionais, organizar compras. Envolve execução, preparar os alimentos, cozinhar, colocar a mesa. Envolve coordenação para garantir que todos estejam presentes no horário, criar o ambiente adequado (limpeza, organização), mediar interações. E envolve também a transmissão e manutenção da cultura, ensinando receitas familiares, passando adiante tradições culinárias e rituais associados às refeições (como a bênção, a ordem de servir).

Mais do que alimentar corpos, a mulher, ao garantir a comensalidade, nutre os vínculos afetivos, criando a atmosfera acolhedora, de conversa e escuta que transforma uma simples refeição em momento de conexão.

Atenta ao bem-estar dos presentes, acolhe desabafos e promove a harmonia à mesa. “Guardiãs da Memória”, repetem pratos tradicionais em datas especiais ou no dia a dia, mantendo viva a história e a identidade familiar.

A Desigualdade de Gênero e os Ultraprocessados

Contudo, este ato tão fundamental e nobre tornou-se historicamente enredado numa teia de desigualdades de gênero profundamente arraigadas. A divisão sexual do trabalho relegou, por séculos, a tarefa de cozinhar quase exclusivamente às mulheres, dentro da esfera privada e doméstica, frequentemente invisibilizada e não remunerada.

Enquanto o cozinhar profissional, especialmente em ambientes de prestígio, foi majoritariamente masculinizado, o cozinhar doméstico, essencial para a subsistência e bem-estar diário das famílias, foi sistematicamente desvalorizado social e economicamente.

A inserção massiva das mulheres no mercado de trabalho formal, sem uma contrapartida equitativa na divisão das tarefas domésticas e de cuidado, criou uma sobrecarga que tem efeitos profundos na vida cotidiana. Este desequilíbrio promoveu uma perversa dicotomia: uma atividade vital para a humanidade é transformada em fardo quando realizada por mulheres no âmbito privado.

Não por acaso, a explosão do consumo de alimentos ultraprocessados no mundo contemporâneo explora e reforça esta desigualdade. Vendidos como “solução prática” para a falta de tempo, eles prometem alívio justamente para quem está sobrecarregado com a tripla jornada – trabalho remunerado, trabalho doméstico e cuidados familiares -, papel que ainda recai desproporcionalmente sobre as mulheres. A publicidade destes produtos perpetua estereótipos, retratando mulheres exaustas, “salvas” pela praticidade industrial, enquanto ignora a necessidade de uma redistribuição equitativa das tarefas. Assim, o discurso simplista de “basta cozinhar mais em casa” ignora a complexidade social: exigir que mulheres sobrecarregadas retomem o fogão sem mudar a divisão do trabalho é injusto e ineficaz.

A Desumanização no Pacote

Paradoxalmente, a mesma espécie que alcançou tamanha sofisticação através do cozinhar, criou um sistema alimentar que ameaça reverter essa conquista: os alimentos ultraprocessados. Estes produtos, formulados em laboratório a partir de ingredientes fracionados (óleos hidrogenados, xaropes, amidos modificados, aditivos químicos) e encapsulados em plásticos brilhantes, representam uma profunda desumanização da alimentação. Eles são o antípoda do gesto transformador do cozinhar. Não exigem fogo, técnica, nem criatividade, apenas a abertura de uma embalagem. Sua existência nega a relação sensorial com os ingredientes frescos, o aroma que invade a casa, o tato que amassa a massa.

Reduzem o comer a um ato mecânico, solitário, desprovido de contexto social ou significado cultural. Sabores artificiais e intensificadores substituem a complexidade desenvolvida ao longo de milênios de prática culinária.

Reconhecer o valor profundo do ato de cozinhar para a humanidade exige, portanto, desvincular esta prática essencial das amarras de gênero que a aprisionam. Superar a lógica dos ultraprocessados e resgatar o prazer e a saúde da comida de verdade não será alcançado apenas com escolhas individuais, mas com uma transformação social radical.

É imperativo redistribuir equitativamente o trabalho doméstico, envolvendo homens ativamente nas tarefas da cozinha e nos cuidados. É crucial valorizar social e economicamente o trabalho de alimentar os outros, seja em casa ou profissionalmente. E são necessárias políticas públicas robustas: ampliação de creches, licenças parentais iguais, redução da jornada de trabalho e acesso universal a alimentos frescos.

Cozinhar é um ato que nos humanizou. Para que seu potencial pleno de nutrição, cultura, afeto e saúde seja acessível a todos, é urgente que seja também um ato de igualdade. Só quando o fogão for um território de corresponsabilidade e não de sobrecarga, e quando o valor social do cuidado for plenamente reconhecido, poderemos celebrar verdadeiramente a alquimia transformadora que é preparar uma refeição, livre das lógicas opressoras e dos substitutos industriais que desumanizam tanto quem cozinha quanto quem come.

Homens no Fogão: Da Omissão à Corresponsabilidade no Ato que nos Humaniza

O debate sobre cozinhar, gênero e alimentação saudável frequentemente centra-se nos impactos sobre as mulheres – e com razão, dada a histórica e desproporcional sobrecarga que carregam. Contudo, a transformação necessária para superar a lógica dos ultraprocessados e resgatar o valor humano do cozinhar exige a participação ativa e consciente dos homens. Seu papel não é de meros “ajudantes”, mas de agentes fundamentais na desconstrução de um sistema desigual e na construção de uma nova relação com a comida e o cuidado.

Durante séculos, a socialização masculina afastou os homens da cozinha doméstica, associando o ato de cozinhar à feminilidade e ao serviço “menor”. Essa construção cultural criou gerações de homens dependentes – seja da mãe, da esposa, da irmã ou, mais recentemente, da indústria de ultraprocessados – para se alimentarem. Essa omissão sustenta a divisão sexual do trabalho que sobrecarrega as mulheres e alimenta o mercado dos alimentos prontos, vendidos como solução para a falta de tempo de quem (socialmente designado) deveria cozinhar.

O resgate do ato de cozinhar como prática humanizadora, saudável e culturalmente rica depende diretamente de os homens abraçarem sua parte nesta tarefa coletiva. Assumir a corresponsabilidade na cozinha é mais que uma questão de justiça de gênero; é um passo essencial para construir famílias mais equilibradas, sociedades mais saudáveis e reconectar-se com uma das práticas mais fundamentais que nos definem como humanos. Quando homens e mulheres dividem igualmente o fogão, o fogo que nos humanizou volta a aquecer não só os alimentos, mas também as relações, a saúde e a própria noção de cuidado como valor universal.

Agricultura Familiar: Raiz da Reconexão

Conteúdo do artigo

No intricado debate sobre alimentação saudável, cozinhar e justiça de gênero, a agricultura familiar emerge não como mera fornecedora de alimentos, mas como um pilar estrutural e transformador. Enquanto o sistema agroindustrial massivo alimenta a lógica dos ultraprocessados, dependente de monoculturas extensivas e cadeias globais complexas, a agricultura familiar opera em outra escala e com outra lógica – uma lógica que pode nutrir comunidades, culturas alimentares e relações mais equitativas.

Esta forma de produção, caracterizada pelo trabalho familiar no campo, pela diversificação da produção e pela forte ligação com o território e os mercados locais, é a principal responsável por colocar na mesa dos brasileiros os alimentos frescos, in natura e minimamente processados que são a matéria-prima essencial para o ato de cozinhar. Hortaliças, frutas, legumes, tubérculos, ovos, leite e carnes de pequenos criadouros chegam aos consumidores, muitas vezes, por meio de circuitos curtos como feiras livres, vendas diretas e programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Sem esta produção descentralizada e diversa, o acesso a ingredientes de verdade, fundamentais para refeições preparadas em casa, seria drasticamente mais difícil e caro, especialmente para as populações mais vulneráveis.

Crucialmente, a agricultura familiar é também um espaço onde o trabalho das mulheres é intenso e visível, embora frequentemente subvalorizado. Mulheres rurais são produtoras, cuidadoras das sementes crioulas, gestoras dos quintais produtivos, processadoras de alimentos (fabricando queijos, doces, farinhas) e responsáveis pela segurança alimentar das suas próprias famílias. Elas são guardiãs de saberes tradicionais ligados ao plantio, colheita e transformação dos alimentos. No entanto, persistem desafios profundos: a desigualdade no acesso à terra (homens são a maioria nos títulos de propriedade), a sobrecarga de trabalho (que conjuga produção agrícola com trabalho doméstico e cuidados) e a falta de reconhecimento e valorização econômica justa para seu papel multifacetado. O trabalho da mulher na agricultura familiar reflete, assim, a mesma divisão sexual do trabalho que sobrecarrega as mulheres nas cozinhas urbanas.

É neste ponto que a agricultura familiar se conecta de forma potente, e necessária, ao debate sobre cozinhar, gênero e ultraprocessados. Fortalecer a agricultura familiar significa: garantir o abastecimento local, facilitando o acesso a alimentos frescos e diversos, reduzindo a barreira inicial para o cozinhar caseiro, que é a disponibilidade de ingredientes saudáveis e acessíveis. Significa valorizar os saberes e o trabalho das mulheres rurais, reconhecendo e apoiando economicamente o papel central das mulheres na produção de alimentos saudáveis, uma forma de combater a desvalorização estrutural do trabalho feminino, tanto no campo quanto na cozinha. Políticas de crédito, assistência técnica e acesso à terra voltadas especificamente para elas são fundamentais.

Ao aproximar quem produz de quem consome (como nas feiras agroecológicas), fortalece-se uma relação mais transparente e justa. Consumidores (muitas vezes mulheres urbanas) ganham acesso a alimentos de qualidade e informação sobre sua origem, enquanto agricultoras e agricultores recebem valorização justa. Isso desafia a lógica anônima e massificada da indústria de ultraprocessados, promovendo circuitos curtos de consumo consciente. A importância de construir sistemas alimentares resilientes e saudáveis, através da diversidade da agricultura familiar, é antídoto contra a uniformização dos paladares e a dependência de insumos industriais. Ela sustenta a biodiversidade e oferece alternativas concretas ao modelo que produz comida barata em termos monetários, mas cara em termos de saúde pública e impacto socioambiental.

Fortalecer a agricultura familiar é uma estratégia vital para reconectar as pessoas à origem de sua comida, para valorizar o trabalho invisibilizado das mulheres na cadeia alimentar e para criar as condições materiais que permitem resgatar o ato de cozinhar como prática saudável, prazerosa e culturalmente rica. Investir nela, com foco na equidade de gênero e na agroecologia, significa atacar as raízes da dependência dos ultraprocessados, apoiar quem produz comida de verdade e criar um ambiente onde cozinhar, como expressão de cuidado coletivo, possa ser um ato compartilhado e valorizado por todos, livres das amarras do tempo escasso e da desigual distribuição de tarefas. É na roça e no quintal diverso, tanto quanto no fogão, que se constrói a soberania alimentar e se planta a semente de um sistema alimentar verdadeiramente humano e justo.

NOTA DE REPÚDIO

Manifesto com veemência o meu repúdio aos ataques misóginos e a violência política de gênero sofridos pela ministra Marina Silva durante sua participação na 5º Conferência Nacional do Meio Ambiente (CNMA), em Audiência Pública da Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal, nesta terça feira, 27/05/2025.

De modo incompatível com o mandato de Senador da República, os senadores Marcos Rogério (PL-RO), presidente da Comissão, Plínio Valério (PSDB-AM) e Omar Aziz (PSD-AM) agiram com total desrespeito durante a sessão, reproduzindo práticas que deslegitimam não apenas a figura pública da ministra Marina Silva, mas todas as mulheres. Violando o princípio básico do diálogo democrático, reforçaram estereótipos misóginos que associam autoridade feminina a algo a ser “contido” ou “corrigido”.

O tratamento desrespeitoso e a tentativa de silenciar sua fala não são apenas um ataque a trajetória pública de Marina, mas também uma expressão da estrutura patriarcal que busca invalidar a voz das mulheres, desqualificando suas contribuições com ataques pessoais e interrupções intimidatórias, uma tática de deslegitimação comum contra mulheres, que têm sua expertise constantemente questionada e sua autoridade reduzida a estereótipos.

O machismo estrutural, como fenômeno, não se resume a ações individuais, mas à normalização de práticas que silenciam e marginalizam as mulheres, buscando restringi-las a “lugares” pré-determinados, negando-lhes autonomia e autoridade.

Quando uma liderança como Marina Silva, mulher, negra e de origem humilde, é confrontada com gestos ou discursos que buscam reduzi-la a estereótipos, evidencia-se não apenas um ataque individual, mas a perpetuação de um sistema que resiste à equidade. Sua expertise, trajetória e direito de ocupar espaços de decisão não podem ser subjugados por preconceitos enraizados.

É fundamental reafirmar que é inaceitável que alguém exija submissão, imponha silêncio, intimide ou defina arbitrariamente o papel que uma mulher deve ocupar. Seja em sua atuação pública, em suas escolhas pessoais ou em qualquer dimensão de sua existência, nenhuma mulher deve ter sua voz sufocada ou sua legitimidade questionada sob o pretexto de hierarquias abusivas ou normas sociais retrógradas.

Nenhum cargo, tradição ou posição de poder justifica a violência simbólica ou a tentativa de delimitar o “lugar” de uma mulher.

Quando senadores, investidos de poder institucional, utilizam suas vozes para silenciar, humilhar ou inferiorizar uma ministra mulher, negra e com décadas de experiência em sua área, estão enviando uma mensagem perversa à sociedade: a de que certos corpos e identidades não pertencem a espaços decisórios. Enquanto esses comportamentos forem tolerados, o Senado seguirá sendo um ambiente hostil para mulheres, especialmente aquelas que, como Marina Silva, desafiam o status quo com competência e coragem.

Além da Fábrica: A Exploração Reprodutiva como Alicerce Oculto do Capitalismo




Quando analisado exclusivamente pela lógica da troca mercantil, o trabalho parece estabelecer uma relação de igualdade entre capitalistas e trabalhadores: o primeiro compra a força de trabalho mediante um salário, enquanto o segundo a vende em troca desse pagamento. No entanto, essa perspectiva de mercado, oferece uma compreensão superficial da dinâmica econômica, pois reduz a complexidade das relações sociais a uma suposta harmonia de interesses. Ao fazer isso, mascara a divisão estrutural entre o político e o econômico, apresentando a exploração como um fenômeno natural e inevitável, dissimulado sob a aparência de reciprocidade.

O que essa visão economicista oculta, porém, é que, no âmbito invisível da produção, o econômico se revela como uma relação social intrinsecamente assimétrica. Mesmo que o direito e as instituições políticas tentem encobrir essa realidade com discursos sobre liberdade contratual e igualdade jurídica, o processo produtivo capitalista está fundado em mecanismos de dominação e coerção. Esses mecanismos, embora frequentemente naturalizados, constituem uma forma de poder político: seu objetivo é extrair do trabalhador mais valor do que aquele correspondente ao custo de sua força de trabalho, perpetuando assim a acumulação de capital. Dessa forma, a economia capitalista, longe de ser um sistema neutro de trocas, organiza-se como uma relação social hierárquica, na qual a subordinação do trabalho ao capital não é acidental, mas estrutural — uma dinâmica que transforma a exploração em motor oculto do próprio progresso produtivo.

A Teoria do Valor-Trabalho, elaborada por Marx, oferece uma base sólida para desvendar essa contradição intrínseca ao capitalismo. Ao afirmar que o valor de uma mercadoria deriva do tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, a teoria expõe o cerne da relação exploradora: o trabalhador, ao vender sua força de trabalho, recebe um salário equivalente ao valor necessário para sua subsistência, mas, no processo produtivo, gera um valor superior ao que lhe é remunerado. Essa diferença — o mais-valor — é apropriada pelo capitalista como lucro, sustentando a acumulação de capital.

A força explicativa dessa teoria reside justamente em transcender a aparência igualitária das trocas mercantis. Enquanto o mercado celebra a “liberdade” de vender e comprar força de trabalho, a análise marxista revela que a igualdade formal esconde uma desigualdade material: o trabalhador, desprovido de meios de produção, é obrigado a se submeter a uma relação em que sua atividade criadora é convertida em fonte de riqueza alheia. Assim, a Teoria do Valor-Trabalho não apenas desmonta a naturalização da exploração, mas também demonstra que a coerção não é um acidente do sistema — é seu alicerce. Ao vincular valor, trabalho e exploração, Marx desloca o foco do equilíbrio de trocas (ilusório) para o desequilíbrio de poder (real), evidenciando que a economia capitalista é, em última instância, um sistema de dominação social disfarçado sob a objetividade dos números e contratos. Por isso, a teoria mantém relevância: ela descreve não apenas como o capitalismo funciona, mas para quem ele funciona.

Embora a Teoria do Valor-Trabalho marxista ilumine a exploração no âmbito da produção direta de mercadorias, ela não incorpora plenamente o trabalho reprodutivo e não mercantilizado – como o cuidado doméstico, a educação informal, o trabalho comunitário ou a manutenção da vida cotidiana -, que, embora invisível aos olhos do mercado, é estrutural para a reprodução do sistema capitalista. Esse trabalho, majoritariamente desempenhado por mulheres, populações racializadas e grupos marginalizados, não gera mais-valor diretamente, mas sustenta a força de trabalho disponível para a exploração, reduzindo os custos sociais de reprodução da mão de obra.

A acumulação capitalista depende dessa dualidade: enquanto a produção de mercadorias extrai valor explícito (mediante a exploração no local de trabalho), o trabalho não remunerado ou precarizado fora dela garante a subsistência barata da classe trabalhadora, liberando o capitalista do ônus de custear integralmente a reprodução social. Por exemplo, o cuidado com crianças, idosos ou doentes – frequentemente não remunerado – permite que trabalhadores retornem ao mercado diariamente, prontos para serem explorados novamente. Essa dinâmica revela que a exploração não se restringe à fábrica: ela se estende à esfera privada, onde relações de gênero, raça e classe operam para naturalizar tarefas essenciais como “não trabalho”.

Autoras feministas, como Silvia Federici, ampliaram essa crítica ao destacar que a “caixa preta” do trabalho reprodutivo foi intencionalmente excluída da análise clássica de Marx, não por acaso, mas porque sua invisibilização é funcional ao capital. Afinal, se o valor fosse calculado incluindo o trabalho doméstico e afetivo, a taxa de exploração revelada seria ainda mais brutal. Assim, embora a teoria marxista original seja poderosa para desvendar a lógica da produção, é preciso expandi-la para abarcar as hierarquias sociais que permitem ao capitalismo externalizar custos e ocultar sua dependência de formas de trabalho não pagas — um silêncio teórico que, longe de ser neutro, reflete e reforça opressões estruturais.

O capitalismo não sobrevive apenas pela extração de mais-valor na produção, mas também pela apropriação gratuita ou precarizada de trabalho fora dela, que atua como alicerce oculto de sua acumulação. Reconhecer isso não invalida a Teoria do Valor-Trabalho, mas exige que a complementemos com análises interseccionais, capazes de revelar como raça, gênero e colonialidade moldam as fronteiras entre o que é considerado “trabalho” e o que é relegado ao âmbito do “natural” ou “invisível”.

A família constitui o território histórico mais estável para a reprodução da força de trabalho, funcionando como uma unidade de manutenção não remunerada que subsidia o capitalismo. Enquanto a produção ocorre na fábrica ou no escritório, é no espaço doméstico que se regeneram os corpos, as subjetividades e as relações necessárias para sustentar o trabalhador diariamente. Cozinhar, limpar, cuidar de crianças, idosos ou doentes – atividades majoritariamente realizadas por mulheres – não são apenas “tarefas privadas”, mas trabalho reprodutivo essencial para que a mão de obra esteja disponível, saudável e socializada para o mercado.

Marx, em sua análise clássica, reconheceu que o salário pago ao trabalhador deve cobrir o custo de sua subsistência, mas não explorou em profundidade como e quem garante esse processo de subsistência. A família, nesse sentido, opera como uma instituição naturalizada que absorve os custos da reprodução social, permitindo que o capital transfira para a esfera privada (e, portanto, não remunerada) o peso de manter viva e funcional a classe trabalhadora. Essa dinâmica é historicamente atravessada por relações de gênero: a divisão sexual do trabalho atribui às mulheres a responsabilidade pelo cuidado, consolidando uma hierarquia que as coloca como trabalhadoras invisíveis do sistema.

Feministas materialistas, como Lise Vogel e Nancy Fraser, argumentam que a exploração capitalista depende dessa dupla jornada: a exploração direta (no local de trabalho assalariado) só é possível porque há uma exploração indireta (no espaço doméstico), onde o trabalho reprodutivo não é contabilizado como produtivo, embora seja vital. A família, assim, não é um refúgio apolítico, mas uma arena de opressão estrutural que converte afeto e obrigação social em mecanismos de extração de valor.

Além disso, a família não é um espaço neutro: sua organização reflete e reforça divisões de classe, raça e nacionalidade. Por exemplo, em contextos coloniais e neocoloniais, mulheres racializadas – tanto no Sul Global quanto nas periferias dos países centrais – são frequentemente recrutadas como trabalhadoras domésticas, permitindo que mulheres brancas de classes médias se integrem ao mercado de trabalho formal. Essa terceirização do cuidado expõe como a reprodução da força de trabalho é atravessada por cadeias globais de exploração.

A durabilidade da família como núcleo reprodutivo também se relaciona com a flexibilidade do capitalismo em externalizar crises. Em períodos de austeridade, quando o Estado reduz serviços públicos (saúde, educação, previdência), é a família — e, dentro dela, principalmente as mulheres – que assume o papel de amortecedor social, intensificando jornadas não pagas para compensar a precarização. Reconhecer a família como lócus central da reprodução da força de trabalho não significa romantizá-la, mas desvelar seu papel político: ela é uma engrenagem oculta do capitalismo, que transforma laços afetivos em instrumentos de dominação. Para superar essa contradição, é preciso desafiar não apenas a exploração no local de trabalho, mas também a naturalização do trabalho doméstico como “destino feminino” –  uma luta que exige aliar a crítica da economia política às pautas feministas, antirracistas e decoloniais.

Embora central, a família não opera isoladamente. A reprodução da força de trabalho é um processo histórico e multifacetado, moldado por arranjos institucionais, políticas públicas, relações de poder e contextos culturais específicos. Sistemas públicos de educação, saúde, previdência e lazer, por exemplo, são mediadores que regulam como a classe trabalhadora é formada, mantida e renovada em cada sociedade. Essas estruturas não são neutras – refletem lutas de classe, pactos sociais e heranças coloniais, definindo quais custos da reprodução social são assumidos pelo Estado, pelo capital ou jogados de volta para as famílias e comunidades.

Na Europa do século XIX, por exemplo, o surgimento de direitos trabalhistas e sistemas de seguridade social foi uma resposta às pressões do movimento operário, que forçou o capital e o Estado a assumirem parte dos custos da reprodução da força de trabalho (como pensões e saúde pública). Já em contextos neoliberais, o desmonte desses sistemas – via privatizações e austeridade – transfere novamente esses custos para a esfera doméstica, intensificando a exploração do trabalho não remunerado, majoritariamente feminino. Isso revela que a fronteira entre “público” e “privado” é dinâmica e disputada politicamente.

Além disso, o capitalismo sempre recorreu a mecanismos extra-familiares e extra-mercado para repor e expandir a força de trabalho. A escravidão foi um pilar da acumulação primitiva, convertendo seres humanos em mercadorias descartáveis, cuja reprodução (quando permitida) era controlada violentamente pelos senhores. Já a imigração – forçada ou “voluntária” – permite ao capital substituir trabalhadores esgotados ou rebeldes por outros mais vulneráveis, muitas vezes racializados, explorando diferenças salariais e status jurídico precário. Esses mecanismos coexistem com a reprodução biológica (parto), mas também a tensionam. Por exemplo, em economias dependentes de imigrantes, o Estado pode restringir direitos reprodutivos desses grupos (como políticas antinatalistas) ou, ao contrário, incentivar o parto em certas classes (eugenia social). A própria ideia de “família trabalhadora” é atravessada por hierarquias: enquanto famílias brancas e abastadas são incentivadas a se reproduzir, famílias negras, indígenas ou pobres frequentemente sofrem esterilizações forçadas ou separações – como no histórico welfare queen, um estereótipo racista nos EUA que criminaliza mães negras.

Portanto, a reprodução da força de trabalho é um campo de batalha onde se cruzam:

  1. Instituições públicas: Educação forma trabalhadores adaptados às demandas do mercado; saúde mantém corpos produtivos; lazer e cultura moldam subjetividades conformistas.
  2. Coerção extra-econômica: Escravidão, colonialismo e imigração controlada revelam que o capital não depende apenas do “livre contrato” — usa violência direta para garantir mão de obra barata.
  3. Dinâmicas demográficas: Taxas de natalidade, mortalidade e migração são reguladas por Estados e empresas para equilibrar oferta de trabalho e demanda por lucros.
  4. Lutas sociais: Conquistas como licença-maternidade, creches públicas ou direitos migratórios resultam de embates entre capital, trabalhadores e movimentos feministas/antirracistas.

Assim, a família é uma peça — crucial, mas não única — em um quebra-cabeças maior. O capitalismo é um sistema plasticamente predatório: em alguns momentos, ele se apoia na família nuclear patriarcal; em outros, na destruição de laços comunitários (como o êxodo rural); e, em outros ainda, na importação massiva de corpos racializados. Para compreender como uma classe trabalhadora específica é “produzida”, é necessário analisar como esses elementos se articulam em cada formação social. A reprodução da força de trabalho é um processo geograficamente desigual e historicamente híbrido, que não se reduz à família, mas também não existe sem ela. Desvendar essa complexidade exige uma análise materialista que dialogue com a economia política, os estudos de gênero, a teoria racial e a crítica do colonialismo — porque o capitalismo nunca foi um sistema puramente “econômico”, mas uma máquina de gestão violenta da vida e da morte.

FOME ESTRUTURAL E SUBORDINAÇÃO DA VIDA: 

COMO MEGACORPORAÇÕES E MERCADOS FINANCEIROS TRANSFORMAM ALIMENTOS EM ARMAS DE CONTROLE SOCIAL

A escassez alimentar é frequentemente atribuída a fatores como conflitos armados, crises econômicas e desastres climáticos. Contudo, embora esses elementos sejam relevantes, eles não a explicam em sua totalidade, pois não podem ser entendidos como meros desvios circunstanciais, quando na verdade são manifestações estruturais do capitalismo (Ribeiro Júnior, 2021). A escassez alimentar cumpre um papel funcional nesse sistema: atua como mecanismo de controle que subjuga a classe trabalhadora às exigências do mercado, materializando o que Marx chamou de “coerção muda das condições econômicas” – a imposição indireta da exploração através da privação material (Marx, 2013).

A desigualdade na distribuição de alimentos, embora central, também é insuficiente para decifrar a fome, pois a produção precede a distribuição e o consumo, assim, é a distribuição dos meios de produção que define quem acessa recursos e como eles circulam. A produção capitalista não se limita a gerar mercadorias: reproduz relações sociais desiguais. A concentração de terras, tecnologias e capital nas mãos de uma minoria – em detrimento da maioria despossuída – ilustra como a fome é inerente à lógica de acumulação, não um fracasso pontual do sistema (Ribeiro Júnior, 2022).

Desta maneira, para compreender a fome em sua magnitude, é preciso analisar os processos de exploração, expropriação e espoliação que reduzem os trabalhadores à condição de mera mão de obra, pois são esses processos, em suas diferentes formas, que respondem pela produção social da fome. Altas taxas de informalidade, subutilização e desocupação da força de trabalho influenciam, sobremaneira, na insegurança alimentar. Privados dos meios de produção e subsistência, os trabalhadores são impedidos de acessar os bens essenciais para suprir suas necessidades e forçados a vender continuamente a sua força de trabalho para fugir da fome. Todavia, aqueles que são impossibilitados de empregar sua força de trabalho, estão condenados ao risco de fome e à fome” (Ribeiro Júnior, 2021, p.31).  

A colonização foi um elemento crucial na disseminação das relações capitalistas de produção, alicerçada na violência da exploração e da expropriação de povos racializados. Nesse processo, o racismo atua como um mecanismo de dominação social, legitimando desigualdades estruturais ao naturalizar a precarização laboral e a remuneração desproporcional de grupos historicamente subjugados. Essa lógica é evidente, por exemplo, na disparidade salarial persistente entre indivíduos brancos e negros, assim como na segmentação racial do mercado de trabalho, onde raça e cor definem condições de emprego e acesso a direitos (Almeida, 2020). Em uma sociedade estruturada pelo patriarcado e pela divisão sexual do trabalho, as desigualdades de gênero também marcam brutalmente a exploração das mulheres (Fraser, 2024).

Em cada 10 domicílios com responsáveis mulheres, mais de 6 estavam em algum nível de insegurança alimentar, e destes 18% em situação de fome. Situação semelhante ocorreu nos domicílios cujos responsáveis se identificaram como pretos ou pardos, 6 em cada 10 domicílios viviam algum grau de insegurança alimentar (Rede Penssam, 2022). A fome, portanto, é um fenômeno intrinsecamente racializado e generificado: a precarização do trabalho formal empurra mulheres – em especial negras, indígenas e periféricas – para ocupações informais e desprotegidas, enquanto a naturalização social do cuidado as obriga a administrar a escassez com o próprio corpo. Não é uma “escolha”, mas um mecanismo de opressão que vincula a sobrevivência das famílias à auto exploração feminina. Analisar a insegurança alimentar demanda, assim, desnaturalizar as estruturas que transformam corpos de mulheres em amortecedores das crises sistêmicas: sob o patriarcado capitalista, são elas – majoritariamente racializadas e pobres – quem absorvem o impacto da fome, amplificando-a em seus próprios corpos como custo silencioso da reprodução social (Bhattacharya, 2023; Cavallero e Gago, 2024; Federici, Cavallero e Gago, 2023; Fraser, 2024).

A desvalorização dos capitais em circulação intensifica a informalidade, o subemprego e o desemprego, comprimindo o orçamento familiar e impondo restrições tanto quantitativas quanto qualitativas no acesso aos alimentos – sobretudo nos domicílios mais pobres. Esse fenômeno não é novo: durante a crise de 2008, por exemplo, milhões de pessoas nos Estados Unidos foram impactadas (Ribeiro Júnior, 2021). No entanto, em um contexto de economia globalizada, os efeitos da crise se expandiram para além das fronteiras nacionais, atingindo com maior gravidade os países mais vulneráveis (Ribeiro Júnior, 2021, p. 34). Mais recentemente, a pandemia de COVID-19 também exacerbou a fome, evidenciando como crises econômicas e sanitárias se entrelaçam e aprofundam a insegurança alimentar global.

Apesar dos desafios impostos pela pandemia à produção e distribuição de alimentos, não houve, no Brasil, uma crise de desabastecimento. A fome que se alastrou durante esse período resultou na incapacidade de milhões de pessoas – sem trabalho e renda – de acessar os alimentos disponíveis no mercado. Como destaca Ribeiro Júnior (2021, p. 35), “a pandemia simplesmente exacerbou um dilema anterior, pois, despojados continuamente das condições necessárias para garantir seu próprio sustento, os trabalhadores são obrigados a aceitar as condições de trabalho que lhes são impostas ou sofrer com a fome”. Nesse cenário, pessoas empregadas em supermercados e as trabalhadoras domésticas foram particularmente afetadas, expostas sistematicamente ao risco de contaminação sem a possibilidade de isolamento. Um caso emblemático foi o de Cleonice Gonçalves, de 63 anos, primeira vítima fatal da COVID-19 no estado do Rio de Janeiro, uma empregada doméstica infectada por seus patrões, que haviam retornado da Itália (Instituto Walter Leser, s/d).

Ribeiro Júnior (2021, p. 36), afirma que: “Sob a pressão crescente da fome os trabalhadores (…) aceitam condições de trabalho cada vez mais precárias, por vezes análogas à escravidão”. Neste sentido, é indispensável compreender que, se por um lado, estão os que sofrem com a fome, por outro, também há os que se beneficiam com ela. Rangasami (1985) argumenta que as crises de fome também representam novas e ampliadas oportunidades para a acumulação. E, não por acaso, foi na pandemia que os supermercados brasileiros bateram recorde de lucro (ABRAS, 2020). Em 2020 houve um aumento de 9,36% nas vendas em comparação com o ano anterior, o maior aumento anual da categoria em 20 anos. O Grupo Pão de Açúcar obteve lucro de R$1,59 bilhão no último trimestre de 2020, um aumento de 58,5% em relação ao mesmo período de 2019. Já o Carrefour registrou lucro de R$935 milhões, aumento de 47% em relação ao último trimestre do ano anterior (ABRAS, 2020). Os supermercados são a ponta de um enorme complexo que redefiniu a maneira como produzimos, distribuímos e comemos nas últimas décadas: o sistema agroalimentar global.

O neoliberalismo econômico reconfigurou o sistema alimentar, organizações como FMI e Banco Mundial impuseram ajustes estruturais que liberalizaram mercados agrícolas, subordinando países periféricos a corporações transnacionais. O estabelecimento da Organização Mundial do Comércio (WTO) e do Acordo sobre Agricultura (AoA), institucionaliza a liberalização dos mercados nacionais e restringe os direitos dos estados regularem a agricultura e a alimentação (Schneider, 2016). A Revolução Verde, inicialmente promovida sob o pretexto de uma solução tecnológica para acabar com a fome, consolidou um modelo industrial de agricultura baseado em monocultivos, reduzindo a diversidade alimentar: hoje 90% das calorias consumidas globalmente derivam de apenas 15 culturas, com soja, trigo, milho e arroz dominando a dieta mundial (Abramovay, 2021; McMichael, 2016). Esse regime mercantil-industrial, liderado pelos EUA, pavimentou o caminho para o regime corporativo pós-2000, marcado pelo controle de megacorporações como Bayer e Cargill sobre sementes, agrotóxicos e cadeias produtivas, mas também de corporações transnacionais de alimentos como Nestlé, Coca Cola, Pepsico, Unilever, McDonald’s, Burguer King, Starbucks, entre outras (Friedmann, 2005; Wilkinson, 2008). 

Essas corporações são beneficiadas de inúmeras formas no Brasil. Por exemplo, ao longo de quase uma década, o país deixou de arrecadar aproximadamente mais de 13 bilhões de reais com renúncias fiscais somente de dez empresas de alimentos ultraprocessados. Estão no topo das corporações mais beneficiadas, empresas como Coca Cola, Ambev, M. Dias Branco (Piraquê) e Nestlé. Mas a lista é longa; Unilever, Mondelez, Chocolates Garoto, Piracanjuba, Nissin, Heinz, Vigor, etc (Peres, 2025). Esse esquema econômico, que vem desde a década de 1990, permite que essas corporações se beneficiem com isenções de todos os tipos, enquanto a população sofre para pagar pelos alimentos e os pequenos produtores rurais estão desalentados sem saber o que esperar do amanhã (Matioli; Peres, 2020).     

A monocultura em larga escala homogeneizou e reduziu a alimentação humana à basicamente soja e milho, produtos que a indústria de alimentos transforma em diversos tipos de substâncias com aparência de comida (Teixeira, 2022; Pollan, 2010). Assim, no regime alimentar corporativo, os supermercados adquirem o poder de determinar a produção, o consumo e os preços dos alimentos, prejudicando pequenos agricultores, contribuindo para a diminuição do consumo de frutas, legumes e verduras e aumentando o consumo de bolachas, comidas congeladas, e todo tipo de alimento ultraprocessado (Matioli; Peres, 2020). 

A lógica do lucro que permeia toda a cadeia produtiva de alimentos – da produção à distribuição e consumo – consolida um sistema de abastecimento centrado em produtos ultraprocessados. Em contextos de crise econômica, esse cenário se intensifica: populações vulneráveis são pressionadas a optar por alimentos mais baratos e menos nutritivos, enquanto produtos de maior qualidade, como frutas e vegetais orgânicos ou itens artesanais, tornam-se inacessíveis para a maioria. Esse mecanismo não apenas aprofunda as desigualdades nutricionais, mas também exclui uma parcela significativa da população do acesso mínimo a alimentos, deixando-a dependente de políticas públicas de segurança alimentar – muitas vezes insuficientes ou executadas de forma ineficiente (Grilo, et.al, 2022). 

Na última década, o consumo de ultraprocessados aumentou em 5,5%, 20% das calorias consumidas pelos brasileiros são provenientes de ultraprocessados (Monteiro; 2019). Os alimentos ultraprocessados resultam de processos que incluem o uso de substâncias obtidas do fracionamento de alimentos inteiros, como açúcares, óleos e gorduras, proteínas, amidos e fibras. Todas essas substâncias podem passar por processos industriais, como a pré-fritura e a adição de corantes, aromatizantes, emulsificantes, entre outros. São muito atrativos para o paladar e altamente lucrativos para a indústria alimentícia (Van Tulleken, 2024).

Trata-se, portanto, não somente de um problema grave de saúde pública, mas que envolve a família, o bem-estar geral, a comensalidade, a amizade, a cultura, os meios sustentáveis de sobrevivência, a identidade e a soberania nacional (Monteiro; 2019).  Em um contexto de austeridade fiscal, precarização do trabalho, erosão de políticas públicas e crise climática, cabe-nos a pergunta: como a financeirização da reprodução social e a estrutura do regime alimentar corporativo se articulam e aprofundam as desigualdades e vulnerabilidades socioeconômicas e a degradação ambiental no Brasil, sobretudo entre mulheres, pequenos agricultores, populações periféricas e trabalhadores informais?

A hipótese central é que o regime alimentar corporativo se articula com a financeirização da reprodução social a partir das políticas de austeridade e da concentração de terra e renda no Brasil, precarização das condições de trabalho no campo e na cidade, da mercantilização da comida nas mãos de corporações transnacionais que recebem inúmeros incentivos financeiros do Estado, e promovem o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e intensificam a insegurança alimentar e nutricional, especialmente em um contexto de mudanças climáticas, submetendo trabalhadores a relações de exploração, expropriação e espoliação que inviabilizam a sua autonomia econômica, forçando-os a recorrer ao endividamento para garantir as condições básicas de vida. Essa dinâmica não apenas compromete a saúde pública, mas também desestrutura práticas culturais e comunitárias relacionadas à alimentação, fragilizando laços sociais e identitários. A intersecção entre racismo, patriarcado e precarização do trabalho coloca mulheres negras, indígenas, periféricas e pequenos agricultores em posições de extrema vulnerabilidade, tornando-os as principais vítimas da insegurança alimentar e da financeirização da reprodução social no contexto da crise climática. Enquanto o sistema financeiro lucra com a volatilidade dos preços dos alimentos, famílias são obrigadas a escolher entre comer ou pagar contas – um dilema que expõe a falência de um modelo que subordina a vida aos interesses do capital (Gago, Cavallero, 2024). 

A crise climática, a escalada das desigualdades socioeconômicas e a financeirização da reprodução social representam desafios estruturais do século XXI, interligados por uma lógica comum: a subordinação da vida aos imperativos de acumulação capitalista (Ruas, 2021; Bhattacharya, 2023, Fraser, 2024). No contexto atual, a crise de reprodução social – aprofundada pelo neoliberalismo e pelo domínio corporativo sobre os sistemas alimentares – revela-se como um eixo central da degradação socioambiental. 

O sistema alimentar global é hoje o principal vetor de destruição da biodiversidade e o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas, atrás apenas dos combustíveis fósseis (Abramovay, 2021). A liberalização comercial, justificada sob o pretexto de combate à fome, consolidou um regime em que o acesso a alimentos saudáveis tornou-se privilégio, não direito (Friedmann, 2005). Se, no passado, a agricultura estava ancorada em relações locais e ciclos ecológicos, hoje ela opera sob a lógica de um mercado globalizado, dominado por corporações que controlam desde sementes até as prateleiras de supermercados (Schneider, 2016). Esse processo carrega contradições profundas entre a busca por eficiência econômica e a crise socioambiental que ameaça ecossistemas, culturas alimentares e a própria segurança nutricional de populações inteiras.

A globalização redefiniu radicalmente os sistemas agroalimentares ao longo do último século, transformando alimentos em commodities circulantes em redes transnacionais de produção, comércio e consumo (Abramovay, 2021).  Desde a década de 1990, com a defesa do livre mercado aliado à financeirização e à globalização, a própria produção de alimentos vem se tornando cada vez mais um meio de acumulação e de poder, se deslocando de sua função básica que é suprir as necessidades alimentares da população mundial. Para Martins (2023, p. 146): “(…) as crises alimentares são [encaradas como] “pequenos” desvios que podem ser corrigidos por meio de soluções tecnológicas e baseadas no mercado”. Capital e tecnologia são, portanto, entendidos como solução para o aumento da produtividade. 

A nova fronteira tecnológica e de inovação (Liao et al., 2017) que envolve; Digitalização, Big Data, Learning Machine, Inteligência Artificial, Robótica, avanços em Engenharia Genética e Nanotecnologia, tem provocado transformações significativas no sistema agroalimentar. Conforme Wilkinson (2023, p. 35): “Um dos principais indicadores do caráter disruptivo dessas tecnologias é a entrada de gigantes do setor digital nos mercados agroalimentares, desafiando a hegemonia das corporações tradicionais do setor. Empresas como IBM, Google, Microsoft e Amazon disputam espaço com líderes históricos, como Monsanto/Bayer e Deere na produção agrícola, e Walmart na distribuição”.

O avanço da tecnologia na produção de alimentos tem permitido que empresas que fabricam sorvetes passem a produzir também carnes e demais produtos a partir dos mesmos processos tecnológicos. Algo que os produtores de soja e a pecuária não conseguem. Dado o aumento da competitividade com esses novos setores, e a mudança no regime alimentar impulsionada pela China, podem recorrer ao aumento da eficiência através de recursos digitais, agravando ainda mais as questões relacionadas ao meio ambiente e ao clima (Wilkinson, 2023).

A fome, no entanto, continua a assombrar milhões de pessoas num mundo repleto de abundância e tecnologias. Em 2022, conforme o II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (Rede Penssan, 2022), 33 milhões de pessoas estavam passando fome no Brasil, patamar comparável ao período anterior a 2004, antes da adoção de políticas públicas voltadas ao combate à fome. Nas áreas rurais, 60% dos domicílios enfrentaram algum grau de insegurança alimentar: 16,9% em nível moderado e 18,6% em nível grave. As regiões Norte e Nordeste, que concentram a maior parcela da população de baixa renda do país, apresentaram os índices mais elevados de fome, evidenciando como as desigualdades estruturais continuam a impedir o acesso a uma alimentação adequada e digna.

A flexibilização das relações de trabalho, a desregulamentação de direitos sociais, as políticas de austeridade regidas pelo neoliberalismo, intensificaram a pressão por produtividade e a precarização laboral. Jornadas extensas, terceirizações e a necessidade de múltiplos empregos para garantir sustento tornaram o tempo um recurso escasso para a classe trabalhadora. Essa dinâmica forçou famílias a substituírem alimentos in natura por produtos prontos, cujo preparo demanda menos tempo, aumentando assim o consumo de alimentos ultraprocessados (Louzada et al., 2023). A carga desigual de trabalho reprodutivo agrava o cenário: a sobrecarga de trabalho reforça a dependência de alimentos industrializados e perpetua um ciclo de má nutrição. 

Em comunidades periféricas, a situação é ainda mais crítica: 40% das mães solo relatam substituir refeições por biscoitos ou salgadinhos devido à falta de tempo e recursos (Rede Penssan, 2022). Essa sobrecarga desproporcional, que recai prioritariamente sobre mulheres – sobretudo negras e pardas – limita sua autonomia econômica e as expõe a vulnerabilidades como a insegurança alimentar. Pesquisas, como as de Radimer et al. (1990, 1992), demonstram que, em contextos de escassez alimentar, mulheres frequentemente abdicam de sua própria nutrição para priorizar filhos e parceiros, tornando-se as principais vítimas silenciosas da privação. A financeirização da reprodução social transforma direitos básicos – como alimentação e moradia – em mercadorias sujeitas à especulação e aprofunda vulnerabilidades históricas. Compreender como o regime alimentar corporativo se articula com a dinâmica de financeirização da reprodução social é essencial para desvendar por que a fome persiste mesmo em períodos de alta produtividade agrícola.

O Brasil não é um caso isolado: países do Sul Global enfrentam pressões similares de corporações transnacionais, ajustes fiscais e dívidas externas. A financeirização da agricultura, por exemplo, transformou terras africanas e latino-americanas em ativos de fundos de investimento, expulsando comunidades e destruindo culturas alimentares locais. A fome e a insegurança alimentar são resultado da estrutura desigual do sistema agroalimentar, cada vez mais dominada por megacorporações transnacionais que impõem lógicas mercantilistas à produção, distribuição e consumo de alimentos. Ao mesmo tempo, as políticas neoliberais fragilizam as redes de proteção social, ampliando as desigualdades.

Diante desse cenário, reforça-se a necessidade de compreender as conexões entre o regime alimentar corporativo e a financeirização da reprodução social, investigando como esses processos impactam o acesso à alimentação, a precarização do trabalho e as desigualdades interseccionais (de gênero, raça e classe) no Brasil. Essa análise dialoga diretamente com um dos desafios estruturais contemporâneos: a subordinação da vida aos imperativos da acumulação capitalista (Fraser, 2024; Bhattacharya, 2023). Vivemos um momento histórico de múltiplas crises sobrepostas: climática, econômica, sanitária e civilizatória. Nesse contexto, a fome emerge não como um “problema a ser resolvido”, mas como sintoma de um sistema que prioriza lucros sobre vidas. Como declarou Betinho (1993); “a fome é exclusão — da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo o mais já lhe foi negado” (Brasil de Fato, 2021). Combater a fome demanda descolonizar o pensamento, confrontar o poder corporativo e reimaginar um mundo onde alimentar-se seja um ato de dignidade, não de sobrevivência.

Curso: As Bruxas do Século XXI: Perseguição e Exclusão na Era do Capitalismo Global.

♀️ No dia 13 de maio, vou ministrar o curso online: “As Bruxas do Século XXI: Perseguição e Exclusão na Era do Capitalismo Global. Uma análise crítica da caça às bruxas como mecanismo de poder e acumulação capitalista”.

Convido vocês a participarem deste debate que busca fazer uma conexão entre o passado e o presente, a fim de revelar um sistema que ainda depende do medo e da exclusão para se perpetuar. Mas que também ilumina caminhos de resistência ✨

As “bruxas” históricas, em sua rebeldia, nos lembram que a liberdade está na coletividade, na defesa dos comuns e na recusa à domesticação. Queimar bruxas foi uma tentativa de apagar alternativas; lembrar delas é reacender a chama da luta pela sustentabilidade da vida.

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NEOLIBERALISMO, FOME E DESTRUIÇÃO: O COLAPSO DE UM SISTEMA

Na esfera econômica, os anos 1980 ficaram conhecidos como a “Década Perdida” na América Latina, um período marcado por baixas taxas de crescimento, alta inflação e declínio em diversos indicadores socioeconômicos. No Brasil, a desaceleração da produção industrial, o aumento do desemprego e a perda do poder de compra dos salários aprofundaram a crise, consolidando a ideia de uma década de estagnação econômica em contraste com os períodos anteriores. No entanto, do ponto de vista político, os anos 1980 também foram marcados pelo fim da ditadura militar e pelo processo de redemocratização do país, trazendo consigo um conjunto de contradições. 

A elaboração da Constituição Federal de 1988 abriu espaço para o debate sobre direitos básicos, enquanto importantes movimentos sociais e partidos populares ganharam força. Contudo, os governos que assumiram o poder após sua promulgação adotaram uma agenda neoliberal, o que impediu a plena efetivação das garantias de proteção social previstas no texto constitucional. Além disso, as condições materiais e históricas necessárias para assegurar esses direitos nunca foram plenamente consolidadas, uma vez que o Brasil jamais estruturou um verdadeiro Estado de Bem-Estar Social, mantendo a população vulnerável às desigualdades e às limitações impostas pela lógica do capital.

Um exemplo das contradições entre as garantias formais da Constituição de 1988 e a realidade imposta pela hegemonia do capital, é a Reforma Agrária, agravada ainda mais durante a ditadura militar. Embora prevista na Constituição, ela nunca foi implementada de maneira estruturante e eficaz.

“Isso porque, conforme afirma Martins (1999, p. 102), a questão agrária brasileira é uma questão sob controle, administrada, que aparece de modo residual, como um problema social e não como uma questão estrutural, ela não se revela comprometedora para o funcionamento dos diferentes níveis do sistema econômico e do sistema político”. 

De fato, a questão agrária brasileira permanece inextricavelmente vinculada à incapacidade das elites econômicas – historicamente alicerçadas no latifúndio – de superarem a contradição estrutural entre terra como bem comum e capital como mecanismo de acumulação privada, reproduzindo uma lógica anacrônica que obstrui o desenvolvimento soberano do país, e até hoje tratada em segundo plano apenas como um problema social. No entanto, ainda conforme afirma o autor, a questão agrária é, essencialmente, uma questão histórica e, portanto, “o tempo de referência destas considerações é o tempo da conjuntura histórica” (Martins, 1999, p.99).

Dessa forma, a questão agrária brasileira precisa ser analisada no contexto das crises globais contemporâneas, que ultrapassam fronteiras geográficas e se intensificam desde os anos 1990. A crise climática, a crise da reprodução social e a crise do sistema alimentar avançam em ritmo acelerado, evidenciando as contradições de um modelo econômico que compromete tanto os ecossistemas quanto às condições de vida da população. A convergência entre crise climática, crise da reprodução social e crise do sistema alimentar é consequência direta de um modelo econômico que subordina tanto os recursos naturais quanto a vida humana à lógica da acumulação e do lucro.

Essas crises, que se intensificaram nas últimas décadas, não podem ser analisadas isoladamente, pois estão profundamente interligadas em um ciclo de exploração e degradação. 

No Brasil, a atual conjuntura configura-se como desdobramento crítico do projeto econômico neoliberal implementado a partir dos anos 1990, quando o Estado, em condição de subalternidade às diretrizes do capital globalizado, reestruturou-se como fiador da acumulação privada. Esse processo, alinhado ao Consenso de Washington, operou uma tripla metamorfose: austeridade fiscal permanente, com cortes seletivos que privilegiaram rentistas em detrimento de políticas sociais; desmonte de setores estratégicos (energia, telecomunicações, mineração) via privatizações que transferiram patrimônio público a conglomerados transnacionais; mercantilização de direitos, com a terceirização de saúde e educação, convertendo necessidades humanas em nichos de lucro.

A partir de 2016, com a imposição da Emenda Constitucional 95, a financeirização ascendeu a um patamar sistêmico: o teto de gastos públicos, ao congelar investimentos sociais por 20 anos, institucionalizou a austeridade como dogma, estrangulando políticas agrárias e aprofundando a captura do Estado por interesses rentistas. Não por acaso, enquanto o orçamento para reforma agrária encolhia 83% entre 2016 e 2022, o setor do agronegócio recebeu R$ 364 bilhões em crédito subsidiado em 2023/24, evidenciando a seletividade classista do projeto.

Nesse contexto, a questão agrária brasileira revela-se intrínseca à geopolítica do capitalismo tardio: a expansão de commodities sobre biomas (Amazônia, Cerrado) atende menos a demandas alimentares do que à lógica da acumulação por despossessão, onde territórios são desterritorializados para alimentar fluxos financeiros. A cada hectare de soja destinado à exportação (73% da produção nacional, segundo a CONAB, 2023), consolida-se um modelo que conjuga superexploração ecológica com exclusão social — paradoxo onde a fome (33 milhões em 2022, FAO) coexiste com recordes de safras.

DO LATIFÚNDIO AO ULTRAPROCESSADO

A globalização redefiniu radicalmente os sistemas agroalimentares ao longo do último século, transformando alimentos em commodities circulantes em redes transnacionais de produção, comércio e consumo (Abramovay, 2021). Se, no passado, a agricultura estava ancorada em relações locais e ciclos ecológicos, hoje ela opera sob a lógica de um mercado globalizado, dominado por corporações que controlam desde sementes até as prateleiras de supermercados (Schneider, 2016). Esse processo carrega contradições profundas entre a busca por eficiência econômica e a crise socioambiental que ameaça ecossistemas, culturas alimentares e a própria segurança nutricional de populações inteiras.

No Brasil, a partir da década de 1990, o avanço neoliberal desmontou políticas públicas de apoio à agricultura familiar e consolidou um modelo agroexportador dependente de monoculturas, que ocupa 76% das terras agricultáveis do país, mas alimenta apenas uma fração da população. Enquanto isso, pequenos produtores, responsáveis por 70% dos alimentos consumidos nacionalmente, são expulsos de seus territórios ou submetidos a contratos leoninos com corporações que controlam sementes transgênicas e insumos químicos (ABRAMOVAY, 2019).

A agricultura industrial é responsável por 34% das emissões globais de gases de efeito estufa (Crippa, et. al, 2021), além de ser a maior causadora de desmatamento e perda de biodiversidade. No Brasil, o avanço da soja e da pecuária sobre biomas como a Amazônia e o Cerrado não apenas acelera a crise climática, mas destrói modos de vida ancestrais. O uso de 1,2 milhão de toneladas de agrotóxicos ao ano contamina aquíferos, extermina polinizadores e intoxica trabalhadores rurais — muitos deles mulheres grávidas, cujos filhos nascem com malformações (ABRASCO, 2023), violando as fronteiras planetárias identificadas por Rockström (et al., 2023), como os ciclos do nitrogênio e a integridade da biosfera, por exemplo.  

Esse modelo depende de monoculturas em larga escala, que demandam desmatamento, irrigação intensiva e químicos sintéticos. A soja, por exemplo, ocupa 43 milhões de hectares no Brasil, mas apenas 5% é destinada ao consumo humano direto. O restante vira ração animal ou biocombustível, alimentando cadeias globais de valor que privilegiam exportação sobre soberania alimentar.    

A crise climática, a escalada das desigualdades socioeconômicas e a financeirização da reprodução social representam desafios estruturais do século XXI, interligados por uma lógica comum: a subordinação da reprodução da vida aos imperativos de acumulação capitalista (Ruas, 2021; Bhattacharya, 2017, Fraser, 2024). Superá-la demanda não apenas reformas, mas a construção de um sistema que valorize a sustentabilidade da vida sobre a ganância destrutiva do capital. 

A escalada do consumo de ultraprocessados está intrinsecamente ligada ao domínio de conglomerados como Nestlé, PepsiCo e JBS, que controlam 75% do mercado global de alimentos. Essas corporações operam sob uma lógica de comoditização, transformando grãos, água e até sementes em ativos financeiros. A fusão Bayer-Monsanto em 2018 consolidou um oligopólio que controla sementes transgênicas e agrotóxicos utilizados no Brasil (ABRASCO, 2023). 

No contexto atual, a crise de reprodução social — aprofundada pelo neoliberalismo e pelo domínio corporativo sobre os sistemas alimentares — revela-se como um eixo central da degradação socioambiental. No Brasil e no mundo, a agricultura industrial, controlada por megacorporações como Bayer, Cargill e JBS, opera sob uma lógica que prioriza a acumulação de capital em detrimento da vida, gerando um ciclo perverso de exploração humana e destruição ecológica. 

CRISE DA REPRODUÇÃO SOCIAL

Nas últimas décadas, o regime alimentar global passou por uma transição paradigmática: de sistemas locais e diversificados para um modelo industrializado, centralizado e ancorado na lógica das commodities. Essa metamorfose reconfigurou não apenas os padrões nutricionais, mas as próprias relações entre sociedade, natureza e trabalho. Impulsionadas pela expansão neoliberal e pelo poder oligopólico de conglomerados transnacionais, tais mudanças produzem impactos complexos e interligados, manifestando-se em três dimensões fundamentais: socioeconômica, ambiental e cultural.

A substituição de dietas tradicionais por ultraprocessados está associada ao crescimento exponencial de doenças crônicas. No Brasil, a prevalência de obesidade saltou de 12% para 26% da população entre 2006 e 2022, enquanto os gastos do SUS com diabetes e hipertensão ultrapassaram R$ 3,4 bilhões (Ministério da Saúde, 2023). Paralelamente, o uso de toneladas de agrotóxicos anuais contamina aquíferos como o Guarani, responsável por abastecer 90 milhões de pessoas (Abrasco, 2023). A crise ecológica é igualmente alarmante: a pecuária industrial emite 65% do metano global, gás 28 vezes mais poluente que o CO₂ (IPCC, 2023). Na Amazônia, 90% do desmatamento está vinculado à expansão de pastos e soja, ameaçando 40% das espécies endêmicas (INPE, 2023).

Ao promover a flexibilização das relações de trabalho e a desregulamentação de direitos sociais, o neoliberalismo intensificou a pressão por produtividade e a precarização laboral. Jornadas extensas, terceirizações e a necessidade de múltiplos empregos para garantir sustento tornaram o tempo um recurso escasso para a classe trabalhadora. No Brasil, 44% dos trabalhadores urbanos cumprem mais de 40 horas semanais, enquanto 24% atuam em ocupações informais, sem garantias como férias ou descanso remunerado (IBGE, 2023). 

Essa dinâmica é ainda mais perversa para mulheres, que acumulam duplas ou triplas jornadas devido à divisão sexual do trabalho. A média de horas trabalhadas por família subiu 15% entre 2000 e 2020, enquanto o poder de compra do salário mínimo caiu 30% no mesmo período (IBGE, 2023). Essa dinâmica forçou famílias a substituírem alimentos in natura por produtos prontos, cujo preparo demanda menos tempo. Consequentemente, o consumo de ultraprocessados saltou de 18% para 25% das calorias diárias entre brasileiros na última década (Monteiro et al., 2023).

A carga desigual de trabalho reprodutivo agrava o cenário: mulheres, mesmo empregadas formalmente, dedicam 21 horas semanais a tarefas domésticas, contra 11 horas dos homens (IPEA, 2023). Essa sobrecarga as impede de cozinhar, reforçando a dependência de alimentos industrializados e perpetuando um ciclo de má nutrição. Em comunidades periféricas, onde o acesso a equipamentos como geladeiras e fogões é limitado, a situação é ainda mais crítica: 40% das mães solo relatam substituir refeições por biscoitos ou salgadinhos devido à falta de tempo e recursos (REDE PENSSAN, 2022).

Ao longo da história, as mulheres desempenharam um papel central na garantia da segurança alimentar de suas comunidades, atuando como produtoras, gestoras e protagonistas de lutas políticas contra a fome, a desigualdade e a exploração ambiental. Sua atuação está intrinsecamente ligada à reprodução social — trabalho não remunerado de cuidado, alimentação e manutenção da vida —, posicionando-as como as primeiras a enfrentar os impactos da escassez e as mais mobilizadas para combatê-la (Federici, 2004). Essa relação transcende o espaço doméstico, manifestando-se em protestos públicos, ocupações de terra e redes de solidariedade que desafiam estruturas de poder e redefinem modelos de produção e consumo.  

Desde a Marcha das Mulheres sobre Versalhes (1789), quando trabalhadoras francesas desafiaram a monarquia para exigir pão e justiça social, até a Greve “Pão e Paz” (1917), que acelerou a Revolução Russa, e a Revolta do Arroz no Japão (1918), liderada por mulheres de pescadores em Uozu, esses movimentos revelam um padrão: a escassez alimentar não é uma mera questão de abastecimento, mas um campo de disputa pelo direito à vida digna (Abramovay, 2019). Na Nigéria colonial, a Revolta das Mulheres de Abeokuta (1940), liderada por Funmilayo Ransome-Kuti, uniu vendedoras de mercado contra impostos abusivos que inviabilizavam o acesso a alimentos básicos, demonstrando como a fome é um instrumento de opressão colonial e de gênero (OXFAM, 2020).  

O trabalho reprodutivo — cozinhar, cuidar, garantir a alimentação — é historicamente delegado às mulheres, especialmente em sociedades patriarcais. Quando sistemas econômicos ou ambientais falham, como em guerras, crises climáticas ou ajustes neoliberais, elas são as primeiras a enfrentar a escassez e a organizar respostas coletivas.

A filósofa Silvia Federici (2004) argumenta que a exploração desse trabalho gratuito é a base do capitalismo, tornando as mulheres agentes naturais de resistência. Globalmente, as mulheres representam 43% da força de trabalho agrícola, mas possuem menos de 15% das terras cultiváveis (FAO, 2021). Essa disparidade não as impediu de liderar práticas sustentáveis: na América Latina, agricultoras familiares são pioneiras na agroecologia, sistema que combate a dependência de agrotóxicos e prioriza a biodiversidade. Movimentos como a Marcha das Margaridas, no Brasil, evidenciam como a defesa da terra e da soberania alimentar é inseparável da luta por direitos das mulheres (VIA CAMPESINA, 1996).  

A mercantilização dos alimentos — controlada por corporações que especulam com preços e patenteiam sementes — aprofunda a dependência de crédito para comer. Mulheres, especialmente negras e periféricas, são as mais afetadas: no Brasil, 62% das famílias chefiadas por mulheres vivem em insegurança alimentar (REDE PENSSAN, 2022). Suas lutas, como as ocupações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), não exigem apenas comida, mas um modelo econômico que não transforme necessidades vitais em mercadorias. 

Mulheres indígenas, quilombolas e camponesas estão na linha de frente contra o avanço do agronegócio e do extrativismo, que destroem ecossistemas e ameaçam culturas alimentares tradicionais. A líder indígena Berta Cáceres, assassinada em Honduras por defender rios e territórios, simboliza essa resistência. Suas lutas mostram que a crise climática é também uma crise de gênero: enquanto corporações lucram com commodities, mulheres protegem 80% da biodiversidade global (ONU MULHERES, 2020).  

Diante desse cenário, movimentos liderados por mulheres — como a Marcha das Margaridas e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) no Brasil — propõem alternativas radicais. A agroecologia, que integra produção diversificada, justiça social e equilíbrio ecológico, já é praticada por 1,3 milhão de famílias camponesas no país, garantindo alimentos saudáveis e reduzindo a dependência de insumos externos (ANA, 2023). No plano global, a Via Campesina defende a soberania alimentar como antídoto ao controle corporativo, promovendo a reforma agrária e o direito à terra. Experiências como as das mulheres do MST, que ocupam latifúndios para cultivar alimentos sem veneno, mostram que outro modelo é possível.  

A encruzilhada atual exige escolher entre dois projetos: um que transforma alimentos em commodities e pessoas em consumidores endividados, e outro que os reconhece como direitos e bases da vida. A crise de reprodução social, o neoliberalismo e o colapso ecológico não são acidentes, mas resultados de uma lógica que subordina tudo ao lucro. Romper com ela exige fortalecer as alternativas que já florescem nas mãos de quem sempre sustentou o mundo: as mulheres.

 

  

 

A Encruzilhada do Sistema Agroalimentar Global: Lucro, Dívida e Degradação Humana e Ambiental

The Funeral – George Grosz

A Revolução Verde, iniciada no século XX sob a promessa de erradicar a fome global, consolidou um modelo agrícola centrado na produtividade de arroz, milho e trigo. Esses grãos, hoje base da dieta de mais de 4 milhões de pessoas, simbolizam um paradoxo: enquanto o relatório do Kew Royal Botanic Gardens (2020) registra mais de 7 mil espécies vegetais comestíveis, 90% da alimentação humana depende de apenas 15 culturas. Essa homogeneização não se limita às plantas. A produção de proteína animal também está submetida a sistemas intensivos, nos quais o confinamento e a dependência de rações artificiais — enriquecidas com aditivos químicos — exigem o uso massivo de medicamentos para conter doenças decorrentes da baixa diversidade genética e das condições precárias de criação (Abramovay, 2021).  

Produtividade versus Colapso Ecológico

Entre 1961 e 1999, a produtividade agrícola global saltou 106%, mas esse avanço teve um custo: a produção de agrotóxicos aumentou 854%, e o uso de fertilizantes nitrogenados e fosfatados por unidade de alimento tornou-se insustentável. Esses insumos, essenciais para a agropecuária industrial, estão no centro de uma crise planetária. Segundo Rockstrom et al., o excesso de nitrogênio e fósforo já ultrapassou os limites seguros para a manutenção dos ecossistemas, corroendo a biodiversidade e contaminando solos e água. Não por acaso, o sistema alimentar global é hoje o principal vetor de destruição da biodiversidade e o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas, atrás apenas dos combustíveis fósseis (Abramovay, 2021).  

Globalização e Corporações: O Domínio da Cadeia Alimentar  

A transformação de alimentos em commodities globais redefiniu radicalmente a agricultura. Se antes os sistemas agroalimentares estavam enraizados em práticas locais e ciclos ecológicos, hoje são controlados por megacorporações transnacionais que monopolizam desde sementes patenteadas até as prateleiras de supermercados. Essas empresas não apenas ditam o que é produzido e consumido, mas também influenciam políticas públicas, marginalizando pequenos produtores e impondo monoculturas dependentes de agrotóxicos. O resultado é um sistema concentrado, que prioriza eficiência econômica em detrimento da resiliência ambiental e da diversidade cultural alimentar.  

Endividamento e Reprodução Social: O Custo Oculto da Alimentação

A financeirização da vida cotidiana tornou o endividamento familiar um pilar da reprodução social. Salários estagnados, serviços públicos precarizados e a volatilidade dos preços dos alimentos — agravada por crises climáticas e especulação financeira — forçam milhões a recorrerem ao crédito para cobrir despesas básicas, como alimentação. Esse ciclo vicioso é especialmente perverso: enquanto famílias comprometem até 70% de sua renda com comida em alguns países, corporações lucram duas vezes — na venda de alimentos ultraprocessados e na oferta de crédito para consumi-los.  

A reprodução social, historicamente sustentada por trabalho não remunerado (majoritariamente feminino), enfrenta pressões adicionais. A padronização das dietas, impulsionada por produtos baratos e ultraprocessados, reduz o tempo de preparo das refeições, mas compromete a segurança nutricional. Doenças como obesidade e diabetes proliferam, sobrecarregando sistemas de saúde e aprofundando desigualdades.  

Alternativas em Disputa: Rumo à Soberania Alimentar

  

O sistema atual beneficia uma minoria enquanto transfere custos ambientais e sociais para as populações mais vulneráveis. Romper essa lógica exige enfrentar o poder corporativo e investir em modelos alternativos. A agroecologia, por exemplo, demonstra que é possível conciliar produtividade com diversidade biológica, reduzindo a dependência de insumos químicos. Redes de economia solidária e o fortalecimento da agricultura familiar podem reconectar consumidores e produtores, garantindo acesso a alimentos saudáveis e preços justos.  

Além disso, políticas públicas são cruciais para regular preços, combater a especulação e garantir renda digna — reduzindo a dependência do crédito predatório. A soberania alimentar, concebida como o direito dos povos a definir seus próprios sistemas alimentares, emerge não apenas como alternativa, mas como urgência civilizatória. 

 

Quem Paga a Conta?  

A encruzilhada atual revela uma contradição central do capitalismo: a busca por lucro ilimitado colide com os limites finitos da natureza e da dignidade humana. Enquanto corporações acumulam riqueza, famílias pagam com dívidas, saúde precária e um planeta em colapso. A transformação do sistema agroalimentar não é apenas técnica, mas profundamente política — requer desmontar estruturas de poder e reimaginar a alimentação como um direito, não como mercadoria. O futuro da vida na Terra depende dessa escolha.

O BRASIL E A FALTA DE POLÍTICAS ESTRUTURANTES PARA A CRISE CLIMÁTICA E SEGURANÇA ALIMENTAR

A agricultura brasileira tem se destacado mundialmente pelo expressivo aumento de sua produção nas últimas décadas. Gasques et al. (2022), afirmam que a principal fonte de crescimento da produção agrícola, a partir da década de 1980, foi a evolução da Produtividade Total dos Fatores (PTF), ou seja, a medida do grau de eficiência na utilização de recursos para a produção, que é dada entre os índices de produto total e insumos. Simplificadamente, se a produção cresce mais rapidamente do que os insumos utilizados, a PTF aumenta, indicando maior eficiência, influenciada por fatores como tecnologia, conhecimento técnico, inovação, gestão e políticas públicas. 

Contudo, tal interpretação do rural brasileiro prioriza o avanço econômico monetário e, sob o viés economicista, ignora dimensões igualmente fundamentais, como os aspectos biofísicos, sociais, políticos e culturais, reduzindo a complexidade da dinâmica agropecuária a uma visão puramente mercadológica, e tratando como meras externalidades os inúmeros fatores que influenciam e são influenciados pelo setor (Garcia, 2023). Embora seja amplamente difundida a ideia de que o destaque da agricultura brasileira reside no avanço tecnológico como principal motor da produtividade, é essencial reconhecer também o papel da incorporação de novas áreas e da expansão das fronteiras agrícolas nesse crescimento.

Entre 1975 e 2000, a produção agrícola cresceu 400% (Mapbiomas, 2023), e isso foi possível tanto pela incorporação de tecnologias que contribuíram para elevar a produtividade, quanto pela expansão das áreas de cultivo, com impactos diretos sobre os biomas brasileiros e, consequentemente, sobre as comunidades rurais. Além de agravar os problemas decorrentes das mudanças climáticas.

Segundo o último Censo Agropecuário realizado pelo IBGE (2017), o Brasil conta com um total de 5.073.324 estabelecimentos agrícolas. Destes, mais de 4,5 milhões foram classificados como pequenos, com área menor de 10 hectares. Outros 231.430 estabelecimentos foram classificados como médios, com área entre 10 a 1000 hectares. E 92.806 estabelecimentos foram classificados como grandes, com área maior que 1000 hectares, de acordo com o critério do módulo fiscal.

A área total ocupada por esses estabelecimentos agrícolas foi de 351.289.816 hectares, o equivalente a 41.3% do território do país. Os pequenos estabelecimentos, embora sejam maioria, ocupam 96.597.717 hectares, os médios ocupam 66.332.617 hectares, enquanto os grandes dominam 188.359.482 hectares. O Censo Agropecuário de 2017 registrou uma redução de 2% no número total de estabelecimentos em comparação ao Censo de 2006. Apesar dessa queda, houve um aumento de 5,8% na área total ocupada, concentrado principalmente em estabelecimentos com mais de 1.000 hectares. Também observou-se uma mudança na composição dos estabelecimentos agrícolas: aqueles classificados como agricultura familiar reduziram sua participação de 83,2% em 2006 para 76,8% em 2017, enquanto os estabelecimentos não familiares cresceram de 16,8% para 23,2% no mesmo período.

Esse dado reforça a continuidade do processo de concentração de terras, mantendo inalterado o padrão histórico do Brasil, no qual grandes propriedades seguem expandindo enquanto os pequenos produtores enfrentam desafios para manter suas atividades.

Mesmo com a diminuição no número de estabelecimentos familiares, eles continuam sendo os principais responsáveis pela ocupação da mão de obra no setor. Em 2017, 15,1 milhões de pessoas estavam empregadas na agropecuária, sendo 10,1 milhões na agricultura familiar e 4,9 milhões na não familiar. Dados que reforçam a importância da agricultura familiar para a geração de emprego e a estrutura socioeconômica do meio rural brasileiro.

Contudo, como apontou Celso Furtado, a abundância de terras no Brasil, aliada ao reduzido contingente de população livre, foi determinante para a consolidação do latifúndio monocultor escravista. Esse modelo, por sua vez, resultou em um processo contínuo de concentração fundiária, posteriormente reforçado pela Lei de Terras de 1850, que restringiu o acesso à terra, favorecendo grandes proprietários e aprofundando a exclusão dos pequenos produtores.

Dessa forma, consolidou-se uma agricultura mercantil exportadora, que ao longo da história brasileira subordinou a agricultura de subsistência e impôs severas limitações aos pequenos produtores. O domínio da terra tornou-se sinônimo de poder político e econômico, perpetuando relações sociais marcadas pelo patrimonialismo, pela submissão e pela marginalização daqueles que ficaram à margem desse sistema excludente.

Apesar do corte de mais de 50% do orçamento destinado para a realização do Censo Agropecuário de 2017, no governo de Jair Bolsonaro, as informações do documento divulgado pelo IBGE contribuem para evidenciar a manutenção do processo de concentração fundiária: apenas 1,0% do total concentrava 47,6% da área ocupada pelos estabelecimentos.

AGRICULTURA E CRISE CLIMÁTICA

No estágio neoliberal, a apropriação capitalista da natureza tornou-se uma estratégia central para a reprodução do capitalismo moderno. Esse processo ocorre por meio da complexa interação entre Estado e empresas, em um cenário dinâmico onde multinacionais, bancos, fundos de investimento e outros atores econômicos exercem influência direta sobre as instituições nacionais e internacionais. O objetivo é claro: alinha-las a seus interesses econômicos, garantindo que decisões públicas favoreçam a lógica do mercado em detrimento do bem comum. Nesse jogo desigual, o interesse das sociedades é sistematicamente silenciado, sem verdadeira representação no sistema político. O espaço democrático, capturado pelo poder corporativo, transforma-se em uma arena onde predominam os interesses dos grandes agentes econômicos, aprofundando desigualdades e consolidando a subordinação da natureza e da coletividade ao capital. 

Observa-se, portanto, uma crescente privatização da democracia, à medida que grandes empresas passam a controlar os principais mecanismos do processo democrático. Eleições, decisões parlamentares, programas de governo, obras públicas e até mesmo o poder judiciário tornam-se instrumentos moldados para atender aos interesses econômicos dessa elite corporativa. O resultado é a consolidação de um sistema que favorece a concentração de riqueza e poder, aprofundando desigualdades e marginalizando grande parte da sociedade. O interesse público é relegado a segundo plano, enquanto a lógica do mercado domina as decisões políticas, perpetuando um modelo que gera sociedades cada vez mais desiguais e vulneráveis.

Essa captura dos espaços democráticos pelos interesses econômicos se reflete diretamente na apropriação da natureza, que no modelo neoliberal não é vista como um bem comum, mas como um ativo a ser explorado. O avanço da fronteira agrícola, a expansão da mineração, a privatização de recursos hídricos e a mercantilização dos ecossistemas são expressões desse processo, onde a lógica do lucro imediato se sobrepõe à preservação ambiental e ao equilíbrio socioecológico.

A crise climática é, em grande parte, um reflexo dessa apropriação predatória. As emissões de gases de efeito estufa, impulsionadas pelo desmatamento, pela pecuária intensiva e pela queima de combustíveis fósseis, são tratadas como externalidades do sistema econômico, quando, na realidade, deveriam estar no centro das decisões políticas e estratégicas globais. Contudo, os mecanismos de mercado, como os créditos de carbono, frequentemente servem mais para gerar novas oportunidades de lucro do que para enfrentar efetivamente as causas da degradação ambiental.

Ao transformar florestas, rios e até a atmosfera em mercadorias negociáveis, os grandes agentes econômicos não apenas perpetuam a exploração dos recursos naturais, mas também reforçam a desigualdade climática. As populações mais vulneráveis – camponeses, povos indígenas e comunidades tradicionais – são as primeiras a sofrer os impactos da crise ambiental, enquanto aqueles que lucram com a destruição seguem expandindo seus negócios sob a proteção de políticas permissivas e acordos internacionais frágeis.

Diante desse cenário, é fundamental questionar quem se beneficia da crise climática e quem paga por seus impactos. O combate ao colapso ambiental não pode ser delegado exclusivamente ao mercado; é preciso repensar a estrutura econômica que sustenta essa destruição e construir alternativas baseadas na justiça climática, na governança coletiva dos bens comuns e na subordinação da economia aos limites ecológicos do planeta.

Dado os desafios impostos pelas mudanças climáticas, para além da crítica ao modelo de produção no campo, é imprescindível desenvolver estratégias que não apenas enfrentam os problemas ambientais, mas que também criem oportunidades para as populações do rural brasileiro, promovendo um desenvolvimento justo e sustentável.

RECURSOS HÍDRICOS

O Brasil é atravessado por 12 grandes regiões hidrográficas que não apenas moldam a geografia das águas brasileiras, mas também desempenham um papel essencial no desenvolvimento agrícola, na geração de energia e no abastecimento humano, na sustentação da vida em geral. Essas regiões hidrográficas, como a Amazônica, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná, entre outras, abrigam cerca de 12% de toda a água doce disponível no planeta, consolidando o país como uma das nações mais ricas em recursos hídricos. 

Em 2023, 2% do território brasileiro esteve coberto por água, o equivalente a 18,3 milhões de hectares, uma área comparável a duas vezes o território de Portugal. Entretanto,  houve uma redução de 1,5% na superfície de água do país em relação à média histórica (1985-2023). Todos os meses do ano de 2023, incluindo os meses da estação chuvosa, apresentaram redução no volume de água em comparação ao ano de 2022, refletindo uma preocupante tendência de diminuição dos recursos hídricos.

De acordo com dados do MapBiomas, desde 1985 a superfície de água dos corpos hídricos naturais no Brasil sofreu uma redução de aproximadamente 30,8%, o que equivale a uma perda de 6,3 milhões de hectares. Esse processo de diminuição tem se intensificado desde o ano 2000, com uma queda ainda mais acentuada a partir de 2010, impactando significativamente os biomas brasileiros.

Figura 1. Série histórica de superfície de água no Brasil, 2023, MapBiomas Água

Em 2023, a superfície de água no Brasil ficou abaixo da média histórica em mais de um terço dos estados, com destaque para Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que perderam, respectivamente, 274 mil e 263 mil hectares de superfície de água. A situação se repetiu em mais da metade dos municípios brasileiros, sendo Corumbá um dos mais afetados, com uma redução de 261 mil hectares da sua superfície de água. Além disso, mais da metade das bacias e sub-bacias hidrográficas do país também apresentaram níveis inferiores à média histórica, evidenciando a amplitude e a gravidade desse fenômeno.

Biomas historicamente ricos em recursos hídricos, como a Amazônia e o Pantanal, têm enfrentado severas reduções na superfície de água. Em 2023, a Amazônia registrou uma perda de 3,3 milhões de hectares, consequência direta da seca extrema que atingiu a região. Já o Pantanal, ao longo de toda a série histórica (1985-2023), foi o bioma mais afetado, apresentando uma redução impressionante de 61% em sua superfície de água, como ilustrado nas figuras a seguir:

Figura 2. Superfície De Água Mensal Nos Biomas, MapBiomas Água, 2023.

Figura 3. Redução da área alagada e do tempo de permanência da água no Pantanal, MapBiomas Água, 2023.

As mudanças climáticas estão profundamente conectadas à crise hídrica global, exacerbando os desafios de disponibilidade, qualidade e gestão da água em diversas regiões do mundo. Essa conexão se dá por meio de mecanismos interligados, como alterações no ciclo hidrológico, que modificam padrões de precipitação e podem resultar tanto em secas prolongadas quanto em chuvas intensas e irregulares, muitas vezes acompanhadas por inundações. Aumento da evaporação de rios, lagos e reservatórios, reduzindo a disponibilidade de água doce. Derretimento de glaciares e redução da neve permanente, impactando regiões que dependem dessas formações como fontes essenciais de água, resultando em uma perda gradual e irreversível dessas reservas. 

A crise hídrica não ocorre de forma isolada. Pelo contrário, ela desencadeia um efeito cascata que amplifica outros problemas relacionados às mudanças climáticas, como a perda de biodiversidade, conflitos por recursos e deslocamentos populacionais. Segundo projeções da UNESCO (2023), 2,4 bilhões de pessoas podem ser afetadas pela crise hídrica até o ano de 2050, agravando ainda mais os impactos sociais, econômicos e ambientais associados às mudanças climáticas. 

Entre as principais consequências da escassez de água, destacam-se os impactos sociais, como o aumento da insegurança alimentar e hídrica, intensificação das desigualdades sociais e migração forçada de populações vulneráveis, denominadas como migrantes climáticos. Impactos ambientais, como a degradação de ecossistemas aquáticos, perda de biodiversidade, comprometimento de aquíferos subterrâneos e intensificação de eventos extremos, como secas prolongadas e desertificação de áreas férteis. E, consequentemente, impactos econômicos, com a redução na produtividade agrícola, elevação dos custos de produção, prejuízos à indústria e ao comércio, além de perdas significativas no setor de energia, especialmente nas regiões que dependem de hidrelétricas. No Brasil, por exemplo, 64% da eletricidade é produzida por cerca de 1,5 mil usinas hidrelétricas, de acordo com o Ministério de Minas e Energia. 

A crise hídrica não é apenas um problema local, mas uma questão global que exige ações urgentes e coordenadas. Políticas públicas voltadas para a gestão eficiente dos recursos hídricos, investimentos em infraestrutura sustentável e tecnologias de reaproveitamento, além da conscientização coletiva, são fundamentais para mitigar esses impactos e garantir o acesso equitativo à água para as gerações atuais e futuras. De acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), cerca de 50% da água retirada dos corpos d’água brasileiros é destinada à irrigação, o que evidencia o impacto significativo da agricultura irrigada sobre os recursos hídricos.  

Ainda de acordo com os dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2017), o total da área irrigada passou de 4,5 para 6,69 milhões de hectares entre 2006 e 2017, aumento de 47,6%. Neste período, houve aumento de 52,6% no número de estabelecimentos que fizeram uso de irrigação.

Figura 4: Utilização de irrigação no Brasil, 2006/2017, IBGE, 2017.

Na economia brasileira, a água é tratada como um recurso escasso, isso porque embora o país possua as maiores reservas de água doce do planeta, elas são distribuídas geograficamente de maneira desigual. É na região Norte do país que há a maior concentração, especialmente por conta da Bacia do Rio Amazonas e do Aquífero de Alter do Chão. Além disso, a região também possui menor densidade populacional, já que grande parte da população brasileira concentra-se nas regiões Nordeste e Sudeste, as quais, historicamente, sofrem com secas e escassez do recurso.

A água é um dos pilares fundamentais da agropecuária brasileira. Seja para irrigação, dessedentação animal ou manutenção dos ecossistemas que sustentam a produção agrícola, a disponibilidade hídrica define a capacidade do país de garantir alimentos para sua população e para os mercados internacionais. No entanto, os impactos da crise climática sobre os recursos hídricos ameaçam a segurança alimentar do Brasil, tornando urgente a adoção de estratégias para evitar um colapso produtivo no setor.

A segurança alimentar, portanto, está diretamente ligada ao acesso à água. Culturas como soja, milho, arroz e feijão, essenciais para a economia e para o consumo interno, precisam de um suprimento regular e previsível de água para manter seus níveis de produtividade. Qualquer alteração nesse equilíbrio, seja por escassez ou excesso de água, pode impactar a oferta de alimentos e elevar os preços, afetando toda a cadeia de abastecimento.

Os impactos da crise climática sobre os recursos hídricos já são visíveis e tendem a se intensificar nos próximos anos. A redução dos níveis de chuvas e a irregularidade no regime hídrico diminuem a disponibilidade de água para irrigação e para a recarga dos aquíferos, afetando a produtividade agrícola. Ondas de calor e tempestades severas comprometem lavouras e rebanhos, aumentando as perdas no campo. A escassez hídrica pode acelerar processos de degradação do solo, tornando áreas produtivas inviáveis para a agricultura. Com menos água disponível, produtores precisam recorrer a sistemas de irrigação mais caros, o que pode inviabilizar a produção de pequenos e médios agricultores. A falta de água afeta polinizadores, a fertilidade do solo e a regeneração das florestas que auxiliam na regulação climática.

Se esses desafios não forem enfrentados com políticas eficazes e mudanças estruturais no setor agropecuário, o Brasil pode enfrentar um cenário de insegurança alimentar, com queda na produção, aumento nos preços dos alimentos e impactos socioeconômicos graves, especialmente para as populações mais vulneráveis.

A crise climática não é um problema futuro — ela já compromete a agropecuária e a segurança hídrica do Brasil, escancarando as fragilidades de um modelo agrícola baseado na expansão predatória e no uso intensivo de recursos naturais. Ainda assim, as respostas do setor e do poder público seguem insuficientes, presas a soluções paliativas que ignoram a raiz do problema: um sistema produtivo que privilegia o agronegócio exportador em detrimento da sustentabilidade e da soberania alimentar.

Para evitar um colapso na oferta de alimentos, não basta mitigar danos — é preciso questionar a lógica produtiva vigente, que transforma água e solo em meras commodities e desconsidera os impactos ambientais e sociais dessa exploração. Reduzir a dependência de grandes volumes de água, garantir a recuperação de nascentes e bacias hidrográficas, e fortalecer a agroecologia e a agricultura familiar são medidas essenciais para construir um modelo agrícola verdadeiramente resiliente.

Sem políticas públicas estruturantes e um rompimento com a lógica do lucro acima do equilíbrio ambiental, o Brasil seguirá refém de secas cada vez mais severas, crises alimentares e desigualdade no acesso à água e à terra. O futuro da produção de alimentos não será garantido por tecnologia e eficiência sozinhas, mas por uma mudança de paradigma que coloque a sustentabilidade e a justiça socioambiental no centro das decisões.

AUSTERIDADE EM TEMPOS DE CRISE: A CONTRADIÇÃO DA POLÍTICA ECONÔMICA DE HADDAD

O Brasil enfrenta desafios estruturais profundos que exigem investimentos massivos em infraestrutura, políticas sociais e desenvolvimento sustentável. No entanto, a política econômica do governo Lula, sob a liderança de Fernando Haddad, tem seguido uma lógica austericida, priorizando o ajuste fiscal e a responsabilidade com o mercado financeiro em detrimento das urgências sociais e ambientais do país. Em um momento em que o Brasil precisa reduzir desigualdades, fortalecer sua base produtiva e enfrentar os impactos da crise climática, a opção pela austeridade fiscal soa como um erro estratégico que pode comprometer o futuro do desenvolvimento nacional.

Haddad tem defendido uma política de controle de gastos, buscando manter o equilíbrio fiscal e tranquilizar os investidores. O novo arcabouço fiscal, aprovado em 2023, substituiu o teto de gastos, mas manteve a lógica de contenção orçamentária, impondo limites rígidos para investimentos públicos e subordinando o crescimento do país à arrecadação estatal. Esse modelo impõe restrições severas à ampliação de políticas públicas essenciais, como a assistência técnica rural, a reforma agrária e os investimentos em adaptação climática e infraestrutura hídrica, que são fundamentais para garantir um futuro mais equilibrado e sustentável.

O paradoxo dessa política é evidente: enquanto o governo busca reconstruir programas sociais e reverter os retrocessos da gestão anterior, a obsessão pelo equilíbrio fiscal impede que essas políticas avancem na escala necessária. A crise climática exige planos robustos de investimento em resiliência hídrica, transição energética e sustentabilidade agrícola, mas os cortes orçamentários e o controle rígido dos gastos impedem que o Estado exerça seu papel estratégico na condução dessas transformações. O resultado é um governo que se vê preso entre a necessidade de cumprir promessas eleitorais e a tentativa de manter credibilidade junto ao mercado financeiro, acabando por adotar medidas tímidas e insuficientes diante da dimensão dos desafios nacionais.

A insistência na austeridade também perpetua um ciclo de dependência do capital privado para projetos estratégicos, muitas vezes em condições desfavoráveis para o Estado. Setores como infraestrutura verde, saneamento e logística rural acabam sendo entregues a concessões e parcerias público-privadas, nas quais os interesses do lucro se sobrepõem às necessidades coletivas. Esse modelo aprofunda a desigualdade no acesso a serviços essenciais e enfraquece a soberania do país sobre suas políticas de desenvolvimento.

Se o governo Lula realmente deseja reconstruir o Brasil e enfrentar os desafios do século XXI, precisa romper com essa lógica de contenção fiscal e assumir um papel mais ativo na transformação da economia. O desenvolvimento sustentável exige investimentos estratégicos, não cortes orçamentários. A política econômica não pode continuar refém da lógica do mercado financeiro, mas sim estar a serviço da sociedade e do enfrentamento das desigualdades. Sem essa mudança de rumo, o Brasil corre o risco de perder mais uma década estagnado, assistindo à degradação ambiental e social enquanto se mantém preso a uma agenda econômica que beneficia poucos e compromete o futuro da maioria.

O GOVERNO LULA E A QUESTÃO AGRÁRIA

O governo Lula voltou ao poder com o discurso de reconstrução e de retomada das políticas sociais e ambientais desmontadas nos últimos anos. No entanto, apesar de avanços pontuais, o Brasil segue sem medidas estruturantes para enfrentar os desafios da crise climática, da segurança hídrica e da soberania alimentar. Enquanto o governo mantém acenos ao agronegócio, a estrutura produtiva continua baseada na concentração de terras, na degradação ambiental e na exportação de commodities, reforçando um modelo que beneficia poucos e fragiliza a resiliência do país diante das mudanças climáticas.

Embora o governo tenha anunciado programas para fortalecer a agricultura familiar e a agroecologia, essas iniciativas ainda são limitadas em alcance e orçamento. Enquanto isso, o modelo do agronegócio predatório segue intacto, com incentivos estatais, crédito subsidiado e uma bancada ruralista que influencia diretamente as decisões do governo. A aprovação de novas áreas para exploração agrícola na Amazônia e no Cerrado, por exemplo, contradiz a retórica oficial de preservação ambiental e reforça a lógica da destruição.

A crise hídrica e os impactos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola também não receberam a devida atenção. Mesmo diante de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, como secas prolongadas e inundações devastadoras, o governo ainda não implementou um plano nacional robusto de adaptação climática. Falta um esforço concreto para reverter o colapso dos recursos hídricos e criar estratégias eficazes de gestão da água, em vez de apenas reagir a desastres já instalados.

A política ambiental do governo segue marcada por um paradoxo: ao mesmo tempo em que defende a preservação da Amazônia e dos biomas ameaçados, mantém compromissos com setores do agronegócio que impulsionam o desmatamento, o uso indiscriminado de água e a destruição dos solos. O Plano Safra, por exemplo, destinou bilhões ao setor agrícola, mas a maior parte dos recursos ainda beneficia grandes produtores voltados para exportação, enquanto a agricultura familiar, que efetivamente alimenta a população, recebe uma fatia menor do financiamento.

Além disso, o governo não rompeu com a lógica de compensações ambientais frágeis, como os créditos de carbono, que muitas vezes servem apenas para “maquiar” a destruição ambiental sem enfrentar as causas estruturais da crise climática. Esse modelo favorece grandes corporações e fundos de investimento, mas não garante uma transição ecológica real nem justiça ambiental para as populações mais afetadas pelas mudanças climáticas.

O governo Lula tem duas opções: continuar fazendo concessões ao agronegócio e lidando de forma superficial com a crise climática, ou liderar uma transformação estrutural, enfrentando o problema de frente e colocando a sustentabilidade no centro da política econômica e agrícola do país. Sem essa mudança de rumo, o Brasil seguirá refém de um modelo que destrói sua biodiversidade, agrava a insegurança hídrica e compromete a soberania alimentar, beneficiando apenas os mesmos grupos de sempre. Se o governo quer de fato reconstruir o Brasil, precisa ir além do discurso e romper com a lógica colonial extrativista que há séculos define o destino do país.

Para consolidar um Brasil sustentável e resiliente, é necessário adotar medidas urgentes que enfrentem a crise ambiental e a desigualdade no campo. A política agrícola deve ser revista para priorizar a produção sustentável e a redistribuição de terras, reduzindo a dependência de monoculturas e do modelo exportador de commodities. Ao mesmo tempo, é essencial estabelecer uma regulação mais rígida sobre o uso da água na agropecuária, com políticas voltadas para a preservação dos aquíferos e nascentes, garantindo a segurança hídrica a longo prazo.

Além disso, o investimento massivo em agroecologia e agricultura familiar precisa ser uma realidade, assegurando que políticas de financiamento e assistência técnica sejam ampliadas e estruturadas para fortalecer esse setor essencial à segurança alimentar do país. Paralelamente, a criação de um plano nacional de adaptação climática se torna indispensável, com medidas concretas para mitigar os impactos sobre a produção de alimentos e o abastecimento de água.

A retomada da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER) é uma necessidade urgente para o desenvolvimento rural sustentável no Brasil. Nos últimos anos, a assistência técnica rural sofreu desmonte e negligência, deixando milhões de pequenos produtores desamparados em um momento crítico, marcado pelos impactos crescentes da crise climática e pela intensificação da concentração fundiária. Sem políticas públicas estruturadas que garantam suporte técnico e acesso ao conhecimento, a agricultura familiar enfrenta dificuldades cada vez maiores para se manter produtiva, sustentável e competitiva diante do modelo agroexportador baseado na monocultura e na exploração intensiva dos recursos naturais.

A assistência técnica rural tem um papel fundamental na difusão de práticas agroecológicas, no manejo sustentável dos solos e da água e na adaptação às mudanças climáticas. Com orientação adequada, pequenos produtores podem melhorar sua produtividade sem recorrer ao desmatamento ou ao uso excessivo de insumos químicos, garantindo a preservação ambiental e a segurança alimentar das populações locais. Além disso, políticas de extensão rural fortalecem a organização comunitária, o cooperativismo e o acesso a mercados, permitindo que agricultores familiares tenham maior autonomia e consigam competir em melhores condições dentro da economia nacional.

O desmonte da assistência técnica nos últimos anos resultou em um enfraquecimento da agricultura familiar e em um avanço ainda maior da lógica do agronegócio, que recebe incentivos milionários enquanto os pequenos produtores são deixados à própria sorte. Esse desequilíbrio não apenas aprofunda a desigualdade no campo, mas também compromete a segurança alimentar do país, já que a maior parte dos alimentos que abastecem a população brasileira vem da agricultura familiar, e não do agronegócio voltado à exportação. Sem assistência técnica, milhões de agricultores perdem acesso a tecnologias mais sustentáveis, tornando-se mais vulneráveis à degradação do solo, ao uso ineficiente da água e às oscilações climáticas.

O governo precisa ir além de discursos e reconstruir uma política nacional sólida de assistência técnica rural, garantindo financiamento adequado, equipes capacitadas e presença constante nos territórios. A retomada da PNATER não pode ser apenas um aceno simbólico, mas um compromisso real com um modelo de desenvolvimento rural que seja socialmente justo e ambientalmente responsável. Enquanto a assistência técnica continuar sendo tratada como secundária, o Brasil seguirá refém de um modelo agrícola excludente, destrutivo e insustentável, que compromete não apenas o presente dos agricultores familiares, mas o próprio futuro da produção de alimentos e da preservação ambiental no país.

Por fim, é fundamental que o governo enfrente de maneira real e decisiva o poder econômico do agronegócio, impedindo que as decisões ambientais e climáticas continuem sendo reféns dos interesses desse setor. Somente com mudanças estruturais será possível garantir um futuro sustentável e justo para o Brasil.