
A Revolução Verde, iniciada no século XX sob a promessa de erradicar a fome global, consolidou um modelo agrícola centrado na produtividade de arroz, milho e trigo. Esses grãos, hoje base da dieta de mais de 4 milhões de pessoas, simbolizam um paradoxo: enquanto o relatório do Kew Royal Botanic Gardens (2020) registra mais de 7 mil espécies vegetais comestíveis, 90% da alimentação humana depende de apenas 15 culturas. Essa homogeneização não se limita às plantas. A produção de proteína animal também está submetida a sistemas intensivos, nos quais o confinamento e a dependência de rações artificiais — enriquecidas com aditivos químicos — exigem o uso massivo de medicamentos para conter doenças decorrentes da baixa diversidade genética e das condições precárias de criação (Abramovay, 2021).
Produtividade versus Colapso Ecológico
Entre 1961 e 1999, a produtividade agrícola global saltou 106%, mas esse avanço teve um custo: a produção de agrotóxicos aumentou 854%, e o uso de fertilizantes nitrogenados e fosfatados por unidade de alimento tornou-se insustentável. Esses insumos, essenciais para a agropecuária industrial, estão no centro de uma crise planetária. Segundo Rockstrom et al., o excesso de nitrogênio e fósforo já ultrapassou os limites seguros para a manutenção dos ecossistemas, corroendo a biodiversidade e contaminando solos e água. Não por acaso, o sistema alimentar global é hoje o principal vetor de destruição da biodiversidade e o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas, atrás apenas dos combustíveis fósseis (Abramovay, 2021).
Globalização e Corporações: O Domínio da Cadeia Alimentar
A transformação de alimentos em commodities globais redefiniu radicalmente a agricultura. Se antes os sistemas agroalimentares estavam enraizados em práticas locais e ciclos ecológicos, hoje são controlados por megacorporações transnacionais que monopolizam desde sementes patenteadas até as prateleiras de supermercados. Essas empresas não apenas ditam o que é produzido e consumido, mas também influenciam políticas públicas, marginalizando pequenos produtores e impondo monoculturas dependentes de agrotóxicos. O resultado é um sistema concentrado, que prioriza eficiência econômica em detrimento da resiliência ambiental e da diversidade cultural alimentar.
Endividamento e Reprodução Social: O Custo Oculto da Alimentação
A financeirização da vida cotidiana tornou o endividamento familiar um pilar da reprodução social. Salários estagnados, serviços públicos precarizados e a volatilidade dos preços dos alimentos — agravada por crises climáticas e especulação financeira — forçam milhões a recorrerem ao crédito para cobrir despesas básicas, como alimentação. Esse ciclo vicioso é especialmente perverso: enquanto famílias comprometem até 70% de sua renda com comida em alguns países, corporações lucram duas vezes — na venda de alimentos ultraprocessados e na oferta de crédito para consumi-los.
A reprodução social, historicamente sustentada por trabalho não remunerado (majoritariamente feminino), enfrenta pressões adicionais. A padronização das dietas, impulsionada por produtos baratos e ultraprocessados, reduz o tempo de preparo das refeições, mas compromete a segurança nutricional. Doenças como obesidade e diabetes proliferam, sobrecarregando sistemas de saúde e aprofundando desigualdades.
Alternativas em Disputa: Rumo à Soberania Alimentar
O sistema atual beneficia uma minoria enquanto transfere custos ambientais e sociais para as populações mais vulneráveis. Romper essa lógica exige enfrentar o poder corporativo e investir em modelos alternativos. A agroecologia, por exemplo, demonstra que é possível conciliar produtividade com diversidade biológica, reduzindo a dependência de insumos químicos. Redes de economia solidária e o fortalecimento da agricultura familiar podem reconectar consumidores e produtores, garantindo acesso a alimentos saudáveis e preços justos.
Além disso, políticas públicas são cruciais para regular preços, combater a especulação e garantir renda digna — reduzindo a dependência do crédito predatório. A soberania alimentar, concebida como o direito dos povos a definir seus próprios sistemas alimentares, emerge não apenas como alternativa, mas como urgência civilizatória.
Quem Paga a Conta?
A encruzilhada atual revela uma contradição central do capitalismo: a busca por lucro ilimitado colide com os limites finitos da natureza e da dignidade humana. Enquanto corporações acumulam riqueza, famílias pagam com dívidas, saúde precária e um planeta em colapso. A transformação do sistema agroalimentar não é apenas técnica, mas profundamente política — requer desmontar estruturas de poder e reimaginar a alimentação como um direito, não como mercadoria. O futuro da vida na Terra depende dessa escolha.