O domínio do fogo para cozinhar alimentos não foi um mero avanço tecnológico na trajetória humana; foi um salto evolutivo que redefiniu nossa própria biologia e nos distanciou radicalmente de outros animais. Enquanto os demais seres consomem seu alimento cru, guiados pelo instinto imediato da fome, o ser humano iniciou uma revolução ao transformar o natural através do calor. Essa alquimia primordial liberou energias ocultas: amidos e proteínas complexas foram pré-digeridas, permitindo que nossos ancestrais absorvessem mais nutrientes com menos esforço digestivo. Essa eficiência energética teve um impacto colossal: reduziu o tamanho do intestino e liberou recursos para o desenvolvimento exponencial do cérebro, pavimentando o caminho para a linguagem, a cultura e a complexidade social que nos definem. O ato de cozinhar nos reconfigurou fisicamente e nos tornou humanos.
Esta capacidade transformadora elevou o ato de comer a uma dimensão única. Cozinhar deixou de ser apenas uma função biológica para se tornar o cerne da cultura, do ritual e do afeto. Criamos sabores e texturas inexistentes na natureza – o pão levedado, o queijo maturado, o complexo molho que demora horas para ficar pronto. Transformamos ingredientes brutos em símbolos de identidade e patrimônio transmitido por gerações, expressão de pertencimento a uma comunidade ou nação. O “comer junto”, fruto de um cozinhar intencional, se tornou linguagem universal de cuidado, celebração e construção de laços, transformando o alimento em pretexto para narrativas, rituais sagrados e demonstrações de amor.
A Comensalidade e o Trabalho (Invisibilizado) das Mulheres
A comensalidade – o ato de compartilhar refeições à mesma mesa – é um alicerce fundamental da vida social e familiar. Historicamente, e ainda predominantemente em muitas culturas, as mulheres desempenham um papel crucial, mas muitas vezes invisibilizado, na preservação e manutenção deste ritual. São elas as principais planejadoras, executoras e anfitriãs das refeições compartilhadas. E isso envolve funções de planejamento, tais como decidir o cardápio, considerar preferências e necessidades nutricionais, organizar compras. Envolve execução, preparar os alimentos, cozinhar, colocar a mesa. Envolve coordenação para garantir que todos estejam presentes no horário, criar o ambiente adequado (limpeza, organização), mediar interações. E envolve também a transmissão e manutenção da cultura, ensinando receitas familiares, passando adiante tradições culinárias e rituais associados às refeições (como a bênção, a ordem de servir).
Mais do que alimentar corpos, a mulher, ao garantir a comensalidade, nutre os vínculos afetivos, criando a atmosfera acolhedora, de conversa e escuta que transforma uma simples refeição em momento de conexão.
Atenta ao bem-estar dos presentes, acolhe desabafos e promove a harmonia à mesa. “Guardiãs da Memória”, repetem pratos tradicionais em datas especiais ou no dia a dia, mantendo viva a história e a identidade familiar.
A Desigualdade de Gênero e os Ultraprocessados
Contudo, este ato tão fundamental e nobre tornou-se historicamente enredado numa teia de desigualdades de gênero profundamente arraigadas. A divisão sexual do trabalho relegou, por séculos, a tarefa de cozinhar quase exclusivamente às mulheres, dentro da esfera privada e doméstica, frequentemente invisibilizada e não remunerada.
Enquanto o cozinhar profissional, especialmente em ambientes de prestígio, foi majoritariamente masculinizado, o cozinhar doméstico, essencial para a subsistência e bem-estar diário das famílias, foi sistematicamente desvalorizado social e economicamente.
A inserção massiva das mulheres no mercado de trabalho formal, sem uma contrapartida equitativa na divisão das tarefas domésticas e de cuidado, criou uma sobrecarga que tem efeitos profundos na vida cotidiana. Este desequilíbrio promoveu uma perversa dicotomia: uma atividade vital para a humanidade é transformada em fardo quando realizada por mulheres no âmbito privado.
Não por acaso, a explosão do consumo de alimentos ultraprocessados no mundo contemporâneo explora e reforça esta desigualdade. Vendidos como “solução prática” para a falta de tempo, eles prometem alívio justamente para quem está sobrecarregado com a tripla jornada – trabalho remunerado, trabalho doméstico e cuidados familiares -, papel que ainda recai desproporcionalmente sobre as mulheres. A publicidade destes produtos perpetua estereótipos, retratando mulheres exaustas, “salvas” pela praticidade industrial, enquanto ignora a necessidade de uma redistribuição equitativa das tarefas. Assim, o discurso simplista de “basta cozinhar mais em casa” ignora a complexidade social: exigir que mulheres sobrecarregadas retomem o fogão sem mudar a divisão do trabalho é injusto e ineficaz.
A Desumanização no Pacote
Paradoxalmente, a mesma espécie que alcançou tamanha sofisticação através do cozinhar, criou um sistema alimentar que ameaça reverter essa conquista: os alimentos ultraprocessados. Estes produtos, formulados em laboratório a partir de ingredientes fracionados (óleos hidrogenados, xaropes, amidos modificados, aditivos químicos) e encapsulados em plásticos brilhantes, representam uma profunda desumanização da alimentação. Eles são o antípoda do gesto transformador do cozinhar. Não exigem fogo, técnica, nem criatividade, apenas a abertura de uma embalagem. Sua existência nega a relação sensorial com os ingredientes frescos, o aroma que invade a casa, o tato que amassa a massa.
Reduzem o comer a um ato mecânico, solitário, desprovido de contexto social ou significado cultural. Sabores artificiais e intensificadores substituem a complexidade desenvolvida ao longo de milênios de prática culinária.
Reconhecer o valor profundo do ato de cozinhar para a humanidade exige, portanto, desvincular esta prática essencial das amarras de gênero que a aprisionam. Superar a lógica dos ultraprocessados e resgatar o prazer e a saúde da comida de verdade não será alcançado apenas com escolhas individuais, mas com uma transformação social radical.
É imperativo redistribuir equitativamente o trabalho doméstico, envolvendo homens ativamente nas tarefas da cozinha e nos cuidados. É crucial valorizar social e economicamente o trabalho de alimentar os outros, seja em casa ou profissionalmente. E são necessárias políticas públicas robustas: ampliação de creches, licenças parentais iguais, redução da jornada de trabalho e acesso universal a alimentos frescos.
Cozinhar é um ato que nos humanizou. Para que seu potencial pleno de nutrição, cultura, afeto e saúde seja acessível a todos, é urgente que seja também um ato de igualdade. Só quando o fogão for um território de corresponsabilidade e não de sobrecarga, e quando o valor social do cuidado for plenamente reconhecido, poderemos celebrar verdadeiramente a alquimia transformadora que é preparar uma refeição, livre das lógicas opressoras e dos substitutos industriais que desumanizam tanto quem cozinha quanto quem come.
Homens no Fogão: Da Omissão à Corresponsabilidade no Ato que nos Humaniza
O debate sobre cozinhar, gênero e alimentação saudável frequentemente centra-se nos impactos sobre as mulheres – e com razão, dada a histórica e desproporcional sobrecarga que carregam. Contudo, a transformação necessária para superar a lógica dos ultraprocessados e resgatar o valor humano do cozinhar exige a participação ativa e consciente dos homens. Seu papel não é de meros “ajudantes”, mas de agentes fundamentais na desconstrução de um sistema desigual e na construção de uma nova relação com a comida e o cuidado.
Durante séculos, a socialização masculina afastou os homens da cozinha doméstica, associando o ato de cozinhar à feminilidade e ao serviço “menor”. Essa construção cultural criou gerações de homens dependentes – seja da mãe, da esposa, da irmã ou, mais recentemente, da indústria de ultraprocessados – para se alimentarem. Essa omissão sustenta a divisão sexual do trabalho que sobrecarrega as mulheres e alimenta o mercado dos alimentos prontos, vendidos como solução para a falta de tempo de quem (socialmente designado) deveria cozinhar.
O resgate do ato de cozinhar como prática humanizadora, saudável e culturalmente rica depende diretamente de os homens abraçarem sua parte nesta tarefa coletiva. Assumir a corresponsabilidade na cozinha é mais que uma questão de justiça de gênero; é um passo essencial para construir famílias mais equilibradas, sociedades mais saudáveis e reconectar-se com uma das práticas mais fundamentais que nos definem como humanos. Quando homens e mulheres dividem igualmente o fogão, o fogo que nos humanizou volta a aquecer não só os alimentos, mas também as relações, a saúde e a própria noção de cuidado como valor universal.
Agricultura Familiar: Raiz da Reconexão
No intricado debate sobre alimentação saudável, cozinhar e justiça de gênero, a agricultura familiar emerge não como mera fornecedora de alimentos, mas como um pilar estrutural e transformador. Enquanto o sistema agroindustrial massivo alimenta a lógica dos ultraprocessados, dependente de monoculturas extensivas e cadeias globais complexas, a agricultura familiar opera em outra escala e com outra lógica – uma lógica que pode nutrir comunidades, culturas alimentares e relações mais equitativas.
Esta forma de produção, caracterizada pelo trabalho familiar no campo, pela diversificação da produção e pela forte ligação com o território e os mercados locais, é a principal responsável por colocar na mesa dos brasileiros os alimentos frescos, in natura e minimamente processados que são a matéria-prima essencial para o ato de cozinhar. Hortaliças, frutas, legumes, tubérculos, ovos, leite e carnes de pequenos criadouros chegam aos consumidores, muitas vezes, por meio de circuitos curtos como feiras livres, vendas diretas e programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Sem esta produção descentralizada e diversa, o acesso a ingredientes de verdade, fundamentais para refeições preparadas em casa, seria drasticamente mais difícil e caro, especialmente para as populações mais vulneráveis.
Crucialmente, a agricultura familiar é também um espaço onde o trabalho das mulheres é intenso e visível, embora frequentemente subvalorizado. Mulheres rurais são produtoras, cuidadoras das sementes crioulas, gestoras dos quintais produtivos, processadoras de alimentos (fabricando queijos, doces, farinhas) e responsáveis pela segurança alimentar das suas próprias famílias. Elas são guardiãs de saberes tradicionais ligados ao plantio, colheita e transformação dos alimentos. No entanto, persistem desafios profundos: a desigualdade no acesso à terra (homens são a maioria nos títulos de propriedade), a sobrecarga de trabalho (que conjuga produção agrícola com trabalho doméstico e cuidados) e a falta de reconhecimento e valorização econômica justa para seu papel multifacetado. O trabalho da mulher na agricultura familiar reflete, assim, a mesma divisão sexual do trabalho que sobrecarrega as mulheres nas cozinhas urbanas.
É neste ponto que a agricultura familiar se conecta de forma potente, e necessária, ao debate sobre cozinhar, gênero e ultraprocessados. Fortalecer a agricultura familiar significa: garantir o abastecimento local, facilitando o acesso a alimentos frescos e diversos, reduzindo a barreira inicial para o cozinhar caseiro, que é a disponibilidade de ingredientes saudáveis e acessíveis. Significa valorizar os saberes e o trabalho das mulheres rurais, reconhecendo e apoiando economicamente o papel central das mulheres na produção de alimentos saudáveis, uma forma de combater a desvalorização estrutural do trabalho feminino, tanto no campo quanto na cozinha. Políticas de crédito, assistência técnica e acesso à terra voltadas especificamente para elas são fundamentais.
Ao aproximar quem produz de quem consome (como nas feiras agroecológicas), fortalece-se uma relação mais transparente e justa. Consumidores (muitas vezes mulheres urbanas) ganham acesso a alimentos de qualidade e informação sobre sua origem, enquanto agricultoras e agricultores recebem valorização justa. Isso desafia a lógica anônima e massificada da indústria de ultraprocessados, promovendo circuitos curtos de consumo consciente. A importância de construir sistemas alimentares resilientes e saudáveis, através da diversidade da agricultura familiar, é antídoto contra a uniformização dos paladares e a dependência de insumos industriais. Ela sustenta a biodiversidade e oferece alternativas concretas ao modelo que produz comida barata em termos monetários, mas cara em termos de saúde pública e impacto socioambiental.
Fortalecer a agricultura familiar é uma estratégia vital para reconectar as pessoas à origem de sua comida, para valorizar o trabalho invisibilizado das mulheres na cadeia alimentar e para criar as condições materiais que permitem resgatar o ato de cozinhar como prática saudável, prazerosa e culturalmente rica. Investir nela, com foco na equidade de gênero e na agroecologia, significa atacar as raízes da dependência dos ultraprocessados, apoiar quem produz comida de verdade e criar um ambiente onde cozinhar, como expressão de cuidado coletivo, possa ser um ato compartilhado e valorizado por todos, livres das amarras do tempo escasso e da desigual distribuição de tarefas. É na roça e no quintal diverso, tanto quanto no fogão, que se constrói a soberania alimentar e se planta a semente de um sistema alimentar verdadeiramente humano e justo.
A Revolução Verde, iniciada no século XX sob a promessa de erradicar a fome global, consolidou um modelo agrícola centrado na produtividade de arroz, milho e trigo. Esses grãos, hoje base da dieta de mais de 4 milhões de pessoas, simbolizam um paradoxo: enquanto o relatório do Kew Royal Botanic Gardens (2020) registra mais de 7 mil espécies vegetais comestíveis, 90% da alimentação humana depende de apenas 15 culturas. Essa homogeneização não se limita às plantas. A produção de proteína animal também está submetida a sistemas intensivos, nos quais o confinamento e a dependência de rações artificiais — enriquecidas com aditivos químicos — exigem o uso massivo de medicamentos para conter doenças decorrentes da baixa diversidade genética e das condições precárias de criação (Abramovay, 2021).
Produtividade versus Colapso Ecológico
Entre 1961 e 1999, a produtividade agrícola global saltou 106%, mas esse avanço teve um custo: a produção de agrotóxicos aumentou 854%, e o uso de fertilizantes nitrogenados e fosfatados por unidade de alimento tornou-se insustentável. Esses insumos, essenciais para a agropecuária industrial, estão no centro de uma crise planetária. Segundo Rockstrom et al., o excesso de nitrogênio e fósforo já ultrapassou os limites seguros para a manutenção dos ecossistemas, corroendo a biodiversidade e contaminando solos e água. Não por acaso, o sistema alimentar global é hoje o principal vetor de destruição da biodiversidade e o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas, atrás apenas dos combustíveis fósseis (Abramovay, 2021).
Globalização e Corporações: O Domínio da Cadeia Alimentar
A transformação de alimentos em commodities globais redefiniu radicalmente a agricultura. Se antes os sistemas agroalimentares estavam enraizados em práticas locais e ciclos ecológicos, hoje são controlados por megacorporações transnacionais que monopolizam desde sementes patenteadas até as prateleiras de supermercados. Essas empresas não apenas ditam o que é produzido e consumido, mas também influenciam políticas públicas, marginalizando pequenos produtores e impondo monoculturas dependentes de agrotóxicos. O resultado é um sistema concentrado, que prioriza eficiência econômica em detrimento da resiliência ambiental e da diversidade cultural alimentar.
Endividamento e Reprodução Social: O Custo Oculto da Alimentação
A financeirização da vida cotidiana tornou o endividamento familiar um pilar da reprodução social. Salários estagnados, serviços públicos precarizados e a volatilidade dos preços dos alimentos — agravada por crises climáticas e especulação financeira — forçam milhões a recorrerem ao crédito para cobrir despesas básicas, como alimentação. Esse ciclo vicioso é especialmente perverso: enquanto famílias comprometem até 70% de sua renda com comida em alguns países, corporações lucram duas vezes — na venda de alimentos ultraprocessados e na oferta de crédito para consumi-los.
A reprodução social, historicamente sustentada por trabalho não remunerado (majoritariamente feminino), enfrenta pressões adicionais. A padronização das dietas, impulsionada por produtos baratos e ultraprocessados, reduz o tempo de preparo das refeições, mas compromete a segurança nutricional. Doenças como obesidade e diabetes proliferam, sobrecarregando sistemas de saúde e aprofundando desigualdades.
Alternativas em Disputa: Rumo à Soberania Alimentar
O sistema atual beneficia uma minoria enquanto transfere custos ambientais e sociais para as populações mais vulneráveis. Romper essa lógica exige enfrentar o poder corporativo e investir em modelos alternativos. A agroecologia, por exemplo, demonstra que é possível conciliar produtividade com diversidade biológica, reduzindo a dependência de insumos químicos. Redes de economia solidária e o fortalecimento da agricultura familiar podem reconectar consumidores e produtores, garantindo acesso a alimentos saudáveis e preços justos.
Além disso, políticas públicas são cruciais para regular preços, combater a especulação e garantir renda digna — reduzindo a dependência do crédito predatório. A soberania alimentar, concebida como o direito dos povos a definir seus próprios sistemas alimentares, emerge não apenas como alternativa, mas como urgência civilizatória.
Quem Paga a Conta?
A encruzilhada atual revela uma contradição central do capitalismo: a busca por lucro ilimitado colide com os limites finitos da natureza e da dignidade humana. Enquanto corporações acumulam riqueza, famílias pagam com dívidas, saúde precária e um planeta em colapso. A transformação do sistema agroalimentar não é apenas técnica, mas profundamente política — requer desmontar estruturas de poder e reimaginar a alimentação como um direito, não como mercadoria. O futuro da vida na Terra depende dessa escolha.
A agricultura brasileira tem se destacado mundialmente pelo expressivo aumento de sua produção nas últimas décadas. Gasques et al. (2022), afirmam que a principal fonte de crescimento da produção agrícola, a partir da década de 1980, foi a evolução da Produtividade Total dos Fatores (PTF), ou seja, a medida do grau de eficiência na utilização de recursos para a produção, que é dada entre os índices de produto total e insumos. Simplificadamente, se a produção cresce mais rapidamente do que os insumos utilizados, a PTF aumenta, indicando maior eficiência, influenciada por fatores como tecnologia, conhecimento técnico, inovação, gestão e políticas públicas.
Contudo, tal interpretação do rural brasileiro prioriza o avanço econômico monetário e, sob o viés economicista, ignora dimensões igualmente fundamentais, como os aspectos biofísicos, sociais, políticos e culturais, reduzindo a complexidade da dinâmica agropecuária a uma visão puramente mercadológica, e tratando como meras externalidades os inúmeros fatores que influenciam e são influenciados pelo setor (Garcia, 2023). Embora seja amplamente difundida a ideia de que o destaque da agricultura brasileira reside no avanço tecnológico como principal motor da produtividade, é essencial reconhecer também o papel da incorporação de novas áreas e da expansão das fronteiras agrícolas nesse crescimento.
Entre 1975 e 2000, a produção agrícola cresceu 400% (Mapbiomas, 2023), e isso foi possível tanto pela incorporação de tecnologias que contribuíram para elevar a produtividade, quanto pela expansão das áreas de cultivo, com impactos diretos sobre os biomas brasileiros e, consequentemente, sobre as comunidades rurais. Além de agravar os problemas decorrentes das mudanças climáticas.
Segundo o último Censo Agropecuário realizado pelo IBGE (2017), o Brasil conta com um total de 5.073.324 estabelecimentos agrícolas. Destes, mais de 4,5 milhões foram classificados como pequenos, com área menor de 10 hectares. Outros 231.430 estabelecimentos foram classificados como médios, com área entre 10 a 1000 hectares. E 92.806 estabelecimentos foram classificados como grandes, com área maior que 1000 hectares, de acordo com o critério do módulo fiscal.
A área total ocupada por esses estabelecimentos agrícolas foi de 351.289.816 hectares, o equivalente a 41.3% do território do país. Os pequenos estabelecimentos, embora sejam maioria, ocupam 96.597.717 hectares, os médios ocupam 66.332.617 hectares, enquanto os grandes dominam 188.359.482 hectares. O Censo Agropecuário de 2017 registrou uma redução de 2% no número total de estabelecimentos em comparação ao Censo de 2006. Apesar dessa queda, houve um aumento de 5,8% na área total ocupada, concentrado principalmente em estabelecimentos com mais de 1.000 hectares. Também observou-se uma mudança na composição dos estabelecimentos agrícolas: aqueles classificados como agricultura familiar reduziram sua participação de 83,2% em 2006 para 76,8% em 2017, enquanto os estabelecimentos não familiares cresceram de 16,8% para 23,2% no mesmo período.
Esse dado reforça a continuidade do processo de concentração de terras, mantendo inalterado o padrão histórico do Brasil, no qual grandes propriedades seguem expandindo enquanto os pequenos produtores enfrentam desafios para manter suas atividades.
Mesmo com a diminuição no número de estabelecimentos familiares, eles continuam sendo os principais responsáveis pela ocupação da mão de obra no setor. Em 2017, 15,1 milhões de pessoas estavam empregadas na agropecuária, sendo 10,1 milhões na agricultura familiar e 4,9 milhões na não familiar. Dados que reforçam a importância da agricultura familiar para a geração de emprego e a estrutura socioeconômica do meio rural brasileiro.
Contudo, como apontou Celso Furtado, a abundância de terras no Brasil, aliada ao reduzido contingente de população livre, foi determinante para a consolidação do latifúndio monocultor escravista. Esse modelo, por sua vez, resultou em um processo contínuo de concentração fundiária, posteriormente reforçado pela Lei de Terras de 1850, que restringiu o acesso à terra, favorecendo grandes proprietários e aprofundando a exclusão dos pequenos produtores.
Dessa forma, consolidou-se uma agricultura mercantil exportadora, que ao longo da história brasileira subordinou a agricultura de subsistência e impôs severas limitações aos pequenos produtores. O domínio da terra tornou-se sinônimo de poder político e econômico, perpetuando relações sociais marcadas pelo patrimonialismo, pela submissão e pela marginalização daqueles que ficaram à margem desse sistema excludente.
Apesar do corte de mais de 50% do orçamento destinado para a realização do Censo Agropecuário de 2017, no governo de Jair Bolsonaro, as informações do documento divulgado pelo IBGE contribuem para evidenciar a manutenção do processo de concentração fundiária: apenas 1,0% do total concentrava 47,6% da área ocupada pelos estabelecimentos.
AGRICULTURA E CRISE CLIMÁTICA
No estágio neoliberal, a apropriação capitalista da natureza tornou-se uma estratégia central para a reprodução do capitalismo moderno. Esse processo ocorre por meio da complexa interação entre Estado e empresas, em um cenário dinâmico onde multinacionais, bancos, fundos de investimento e outros atores econômicos exercem influência direta sobre as instituições nacionais e internacionais. O objetivo é claro: alinha-las a seus interesses econômicos, garantindo que decisões públicas favoreçam a lógica do mercado em detrimento do bem comum. Nesse jogo desigual, o interesse das sociedades é sistematicamente silenciado, sem verdadeira representação no sistema político. O espaço democrático, capturado pelo poder corporativo, transforma-se em uma arena onde predominam os interesses dos grandes agentes econômicos, aprofundando desigualdades e consolidando a subordinação da natureza e da coletividade ao capital.
Observa-se, portanto, uma crescente privatização da democracia, à medida que grandes empresas passam a controlar os principais mecanismos do processo democrático. Eleições, decisões parlamentares, programas de governo, obras públicas e até mesmo o poder judiciário tornam-se instrumentos moldados para atender aos interesses econômicos dessa elite corporativa. O resultado é a consolidação de um sistema que favorece a concentração de riqueza e poder, aprofundando desigualdades e marginalizando grande parte da sociedade. O interesse público é relegado a segundo plano, enquanto a lógica do mercado domina as decisões políticas, perpetuando um modelo que gera sociedades cada vez mais desiguais e vulneráveis.
Essa captura dos espaços democráticos pelos interesses econômicos se reflete diretamente na apropriação da natureza, que no modelo neoliberal não é vista como um bem comum, mas como um ativo a ser explorado. O avanço da fronteira agrícola, a expansão da mineração, a privatização de recursos hídricos e a mercantilização dos ecossistemas são expressões desse processo, onde a lógica do lucro imediato se sobrepõe à preservação ambiental e ao equilíbrio socioecológico.
A crise climática é, em grande parte, um reflexo dessa apropriação predatória. As emissões de gases de efeito estufa, impulsionadas pelo desmatamento, pela pecuária intensiva e pela queima de combustíveis fósseis, são tratadas como externalidades do sistema econômico, quando, na realidade, deveriam estar no centro das decisões políticas e estratégicas globais. Contudo, os mecanismos de mercado, como os créditos de carbono, frequentemente servem mais para gerar novas oportunidades de lucro do que para enfrentar efetivamente as causas da degradação ambiental.
Ao transformar florestas, rios e até a atmosfera em mercadorias negociáveis, os grandes agentes econômicos não apenas perpetuam a exploração dos recursos naturais, mas também reforçam a desigualdade climática. As populações mais vulneráveis – camponeses, povos indígenas e comunidades tradicionais – são as primeiras a sofrer os impactos da crise ambiental, enquanto aqueles que lucram com a destruição seguem expandindo seus negócios sob a proteção de políticas permissivas e acordos internacionais frágeis.
Diante desse cenário, é fundamental questionar quem se beneficia da crise climática e quem paga por seus impactos. O combate ao colapso ambiental não pode ser delegado exclusivamente ao mercado; é preciso repensar a estrutura econômica que sustenta essa destruição e construir alternativas baseadas na justiça climática, na governança coletiva dos bens comuns e na subordinação da economia aos limites ecológicos do planeta.
Dado os desafios impostos pelas mudanças climáticas, para além da crítica ao modelo de produção no campo, é imprescindível desenvolver estratégias que não apenas enfrentam os problemas ambientais, mas que também criem oportunidades para as populações do rural brasileiro, promovendo um desenvolvimento justo e sustentável.
RECURSOS HÍDRICOS
O Brasil é atravessado por 12 grandes regiões hidrográficas que não apenas moldam a geografia das águas brasileiras, mas também desempenham um papel essencial no desenvolvimento agrícola, na geração de energia e no abastecimento humano, na sustentação da vida em geral. Essas regiões hidrográficas, como a Amazônica, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná, entre outras, abrigam cerca de 12% de toda a água doce disponível no planeta, consolidando o país como uma das nações mais ricas em recursos hídricos.
Em 2023, 2% do território brasileiro esteve coberto por água, o equivalente a 18,3 milhões de hectares, uma área comparável a duas vezes o território de Portugal. Entretanto, houve uma redução de 1,5% na superfície de água do país em relação à média histórica (1985-2023). Todos os meses do ano de 2023, incluindo os meses da estação chuvosa, apresentaram redução no volume de água em comparação ao ano de 2022, refletindo uma preocupante tendência de diminuição dos recursos hídricos.
De acordo com dados do MapBiomas, desde 1985 a superfície de água dos corpos hídricos naturais no Brasil sofreu uma redução de aproximadamente 30,8%, o que equivale a uma perda de 6,3 milhões de hectares. Esse processo de diminuição tem se intensificado desde o ano 2000, com uma queda ainda mais acentuada a partir de 2010, impactando significativamente os biomas brasileiros.
Figura 1. Série histórica de superfície de água no Brasil, 2023, MapBiomas Água
Em 2023, a superfície de água no Brasil ficou abaixo da média histórica em mais de um terço dos estados, com destaque para Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que perderam, respectivamente, 274 mil e 263 mil hectares de superfície de água. A situação se repetiu em mais da metade dos municípios brasileiros, sendo Corumbá um dos mais afetados, com uma redução de 261 mil hectares da sua superfície de água. Além disso, mais da metade das bacias e sub-bacias hidrográficas do país também apresentaram níveis inferiores à média histórica, evidenciando a amplitude e a gravidade desse fenômeno.
Biomas historicamente ricos em recursos hídricos, como a Amazônia e o Pantanal, têm enfrentado severas reduções na superfície de água. Em 2023, a Amazônia registrou uma perda de 3,3 milhões de hectares, consequência direta da seca extrema que atingiu a região. Já o Pantanal, ao longo de toda a série histórica (1985-2023), foi o bioma mais afetado, apresentando uma redução impressionante de 61% em sua superfície de água, como ilustrado nas figuras a seguir:
Figura 2. Superfície De Água Mensal Nos Biomas, MapBiomas Água, 2023.
Figura 3. Redução da área alagada e do tempo de permanência da água no Pantanal, MapBiomas Água, 2023.
As mudanças climáticas estão profundamente conectadas à crise hídrica global, exacerbando os desafios de disponibilidade, qualidade e gestão da água em diversas regiões do mundo. Essa conexão se dá por meio de mecanismos interligados, como alterações no ciclo hidrológico, que modificam padrões de precipitação e podem resultar tanto em secas prolongadas quanto em chuvas intensas e irregulares, muitas vezes acompanhadas por inundações. Aumento da evaporação de rios, lagos e reservatórios, reduzindo a disponibilidade de água doce. Derretimento de glaciares e redução da neve permanente, impactando regiões que dependem dessas formações como fontes essenciais de água, resultando em uma perda gradual e irreversível dessas reservas.
A crise hídrica não ocorre de forma isolada. Pelo contrário, ela desencadeia um efeito cascata que amplifica outros problemas relacionados às mudanças climáticas, como a perda de biodiversidade, conflitos por recursos e deslocamentos populacionais. Segundo projeções da UNESCO (2023), 2,4 bilhões de pessoas podem ser afetadas pela crise hídrica até o ano de 2050, agravando ainda mais os impactos sociais, econômicos e ambientais associados às mudanças climáticas.
Entre as principais consequências da escassez de água, destacam-se os impactos sociais, como o aumento da insegurança alimentar e hídrica, intensificação das desigualdades sociais e migração forçada de populações vulneráveis, denominadas como migrantes climáticos. Impactos ambientais, como a degradação de ecossistemas aquáticos, perda de biodiversidade, comprometimento de aquíferos subterrâneos e intensificação de eventos extremos, como secas prolongadas e desertificação de áreas férteis. E, consequentemente, impactos econômicos, com a redução na produtividade agrícola, elevação dos custos de produção, prejuízos à indústria e ao comércio, além de perdas significativas no setor de energia, especialmente nas regiões que dependem de hidrelétricas. No Brasil, por exemplo, 64% da eletricidade é produzida por cerca de 1,5 mil usinas hidrelétricas, de acordo com o Ministério de Minas e Energia.
A crise hídrica não é apenas um problema local, mas uma questão global que exige ações urgentes e coordenadas. Políticas públicas voltadas para a gestão eficiente dos recursos hídricos, investimentos em infraestrutura sustentável e tecnologias de reaproveitamento, além da conscientização coletiva, são fundamentais para mitigar esses impactos e garantir o acesso equitativo à água para as gerações atuais e futuras. De acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), cerca de 50% da água retirada dos corpos d’água brasileiros é destinada à irrigação, o que evidencia o impacto significativo da agricultura irrigada sobre os recursos hídricos.
Ainda de acordo com os dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2017), o total da área irrigada passou de 4,5 para 6,69 milhões de hectares entre 2006 e 2017, aumento de 47,6%. Neste período, houve aumento de 52,6% no número de estabelecimentos que fizeram uso de irrigação.
Figura 4: Utilização de irrigação no Brasil, 2006/2017, IBGE, 2017.
Na economia brasileira, a água é tratada como um recurso escasso, isso porque embora o país possua as maiores reservas de água doce do planeta, elas são distribuídas geograficamente de maneira desigual. É na região Norte do país que há a maior concentração, especialmente por conta da Bacia do Rio Amazonas e do Aquífero de Alter do Chão. Além disso, a região também possui menor densidade populacional, já que grande parte da população brasileira concentra-se nas regiões Nordeste e Sudeste, as quais, historicamente, sofrem com secas e escassez do recurso.
A água é um dos pilares fundamentais da agropecuária brasileira. Seja para irrigação, dessedentação animal ou manutenção dos ecossistemas que sustentam a produção agrícola, a disponibilidade hídrica define a capacidade do país de garantir alimentos para sua população e para os mercados internacionais. No entanto, os impactos da crise climática sobre os recursos hídricos ameaçam a segurança alimentar do Brasil, tornando urgente a adoção de estratégias para evitar um colapso produtivo no setor.
A segurança alimentar, portanto, está diretamente ligada ao acesso à água. Culturas como soja, milho, arroz e feijão, essenciais para a economia e para o consumo interno, precisam de um suprimento regular e previsível de água para manter seus níveis de produtividade. Qualquer alteração nesse equilíbrio, seja por escassez ou excesso de água, pode impactar a oferta de alimentos e elevar os preços, afetando toda a cadeia de abastecimento.
Os impactos da crise climática sobre os recursos hídricos já são visíveis e tendem a se intensificar nos próximos anos. A redução dos níveis de chuvas e a irregularidade no regime hídrico diminuem a disponibilidade de água para irrigação e para a recarga dos aquíferos, afetando a produtividade agrícola. Ondas de calor e tempestades severas comprometem lavouras e rebanhos, aumentando as perdas no campo. A escassez hídrica pode acelerar processos de degradação do solo, tornando áreas produtivas inviáveis para a agricultura. Com menos água disponível, produtores precisam recorrer a sistemas de irrigação mais caros, o que pode inviabilizar a produção de pequenos e médios agricultores. A falta de água afeta polinizadores, a fertilidade do solo e a regeneração das florestas que auxiliam na regulação climática.
Se esses desafios não forem enfrentados com políticas eficazes e mudanças estruturais no setor agropecuário, o Brasil pode enfrentar um cenário de insegurança alimentar, com queda na produção, aumento nos preços dos alimentos e impactos socioeconômicos graves, especialmente para as populações mais vulneráveis.
A crise climática não é um problema futuro — ela já compromete a agropecuária e a segurança hídrica do Brasil, escancarando as fragilidades de um modelo agrícola baseado na expansão predatória e no uso intensivo de recursos naturais. Ainda assim, as respostas do setor e do poder público seguem insuficientes, presas a soluções paliativas que ignoram a raiz do problema: um sistema produtivo que privilegia o agronegócio exportador em detrimento da sustentabilidade e da soberania alimentar.
Para evitar um colapso na oferta de alimentos, não basta mitigar danos — é preciso questionar a lógica produtiva vigente, que transforma água e solo em meras commodities e desconsidera os impactos ambientais e sociais dessa exploração. Reduzir a dependência de grandes volumes de água, garantir a recuperação de nascentes e bacias hidrográficas, e fortalecer a agroecologia e a agricultura familiar são medidas essenciais para construir um modelo agrícola verdadeiramente resiliente.
Sem políticas públicas estruturantes e um rompimento com a lógica do lucro acima do equilíbrio ambiental, o Brasil seguirá refém de secas cada vez mais severas, crises alimentares e desigualdade no acesso à água e à terra. O futuro da produção de alimentos não será garantido por tecnologia e eficiência sozinhas, mas por uma mudança de paradigma que coloque a sustentabilidade e a justiça socioambiental no centro das decisões.
AUSTERIDADE EM TEMPOS DE CRISE: A CONTRADIÇÃO DA POLÍTICA ECONÔMICA DE HADDAD
O Brasil enfrenta desafios estruturais profundos que exigem investimentos massivos em infraestrutura, políticas sociais e desenvolvimento sustentável. No entanto, a política econômica do governo Lula, sob a liderança de Fernando Haddad, tem seguido uma lógica austericida, priorizando o ajuste fiscal e a responsabilidade com o mercado financeiro em detrimento das urgências sociais e ambientais do país. Em um momento em que o Brasil precisa reduzir desigualdades, fortalecer sua base produtiva e enfrentar os impactos da crise climática, a opção pela austeridade fiscal soa como um erro estratégico que pode comprometer o futuro do desenvolvimento nacional.
Haddad tem defendido uma política de controle de gastos, buscando manter o equilíbrio fiscal e tranquilizar os investidores. O novo arcabouço fiscal, aprovado em 2023, substituiu o teto de gastos, mas manteve a lógica de contenção orçamentária, impondo limites rígidos para investimentos públicos e subordinando o crescimento do país à arrecadação estatal. Esse modelo impõe restrições severas à ampliação de políticas públicas essenciais, como a assistência técnica rural, a reforma agrária e os investimentos em adaptação climática e infraestrutura hídrica, que são fundamentais para garantir um futuro mais equilibrado e sustentável.
O paradoxo dessa política é evidente: enquanto o governo busca reconstruir programas sociais e reverter os retrocessos da gestão anterior, a obsessão pelo equilíbrio fiscal impede que essas políticas avancem na escala necessária. A crise climática exige planos robustos de investimento em resiliência hídrica, transição energética e sustentabilidade agrícola, mas os cortes orçamentários e o controle rígido dos gastos impedem que o Estado exerça seu papel estratégico na condução dessas transformações. O resultado é um governo que se vê preso entre a necessidade de cumprir promessas eleitorais e a tentativa de manter credibilidade junto ao mercado financeiro, acabando por adotar medidas tímidas e insuficientes diante da dimensão dos desafios nacionais.
A insistência na austeridade também perpetua um ciclo de dependência do capital privado para projetos estratégicos, muitas vezes em condições desfavoráveis para o Estado. Setores como infraestrutura verde, saneamento e logística rural acabam sendo entregues a concessões e parcerias público-privadas, nas quais os interesses do lucro se sobrepõem às necessidades coletivas. Esse modelo aprofunda a desigualdade no acesso a serviços essenciais e enfraquece a soberania do país sobre suas políticas de desenvolvimento.
Se o governo Lula realmente deseja reconstruir o Brasil e enfrentar os desafios do século XXI, precisa romper com essa lógica de contenção fiscal e assumir um papel mais ativo na transformação da economia. O desenvolvimento sustentável exige investimentos estratégicos, não cortes orçamentários. A política econômica não pode continuar refém da lógica do mercado financeiro, mas sim estar a serviço da sociedade e do enfrentamento das desigualdades. Sem essa mudança de rumo, o Brasil corre o risco de perder mais uma década estagnado, assistindo à degradação ambiental e social enquanto se mantém preso a uma agenda econômica que beneficia poucos e compromete o futuro da maioria.
O GOVERNO LULA E A QUESTÃO AGRÁRIA
O governo Lula voltou ao poder com o discurso de reconstrução e de retomada das políticas sociais e ambientais desmontadas nos últimos anos. No entanto, apesar de avanços pontuais, o Brasil segue sem medidas estruturantes para enfrentar os desafios da crise climática, da segurança hídrica e da soberania alimentar. Enquanto o governo mantém acenos ao agronegócio, a estrutura produtiva continua baseada na concentração de terras, na degradação ambiental e na exportação de commodities, reforçando um modelo que beneficia poucos e fragiliza a resiliência do país diante das mudanças climáticas.
Embora o governo tenha anunciado programas para fortalecer a agricultura familiar e a agroecologia, essas iniciativas ainda são limitadas em alcance e orçamento. Enquanto isso, o modelo do agronegócio predatório segue intacto, com incentivos estatais, crédito subsidiado e uma bancada ruralista que influencia diretamente as decisões do governo. A aprovação de novas áreas para exploração agrícola na Amazônia e no Cerrado, por exemplo, contradiz a retórica oficial de preservação ambiental e reforça a lógica da destruição.
A crise hídrica e os impactos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola também não receberam a devida atenção. Mesmo diante de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, como secas prolongadas e inundações devastadoras, o governo ainda não implementou um plano nacional robusto de adaptação climática. Falta um esforço concreto para reverter o colapso dos recursos hídricos e criar estratégias eficazes de gestão da água, em vez de apenas reagir a desastres já instalados.
A política ambiental do governo segue marcada por um paradoxo: ao mesmo tempo em que defende a preservação da Amazônia e dos biomas ameaçados, mantém compromissos com setores do agronegócio que impulsionam o desmatamento, o uso indiscriminado de água e a destruição dos solos. O Plano Safra, por exemplo, destinou bilhões ao setor agrícola, mas a maior parte dos recursos ainda beneficia grandes produtores voltados para exportação, enquanto a agricultura familiar, que efetivamente alimenta a população, recebe uma fatia menor do financiamento.
Além disso, o governo não rompeu com a lógica de compensações ambientais frágeis, como os créditos de carbono, que muitas vezes servem apenas para “maquiar” a destruição ambiental sem enfrentar as causas estruturais da crise climática. Esse modelo favorece grandes corporações e fundos de investimento, mas não garante uma transição ecológica real nem justiça ambiental para as populações mais afetadas pelas mudanças climáticas.
O governo Lula tem duas opções: continuar fazendo concessões ao agronegócio e lidando de forma superficial com a crise climática, ou liderar uma transformação estrutural, enfrentando o problema de frente e colocando a sustentabilidade no centro da política econômica e agrícola do país. Sem essa mudança de rumo, o Brasil seguirá refém de um modelo que destrói sua biodiversidade, agrava a insegurança hídrica e compromete a soberania alimentar, beneficiando apenas os mesmos grupos de sempre. Se o governo quer de fato reconstruir o Brasil, precisa ir além do discurso e romper com a lógica colonial extrativista que há séculos define o destino do país.
Para consolidar um Brasil sustentável e resiliente, é necessário adotar medidas urgentes que enfrentem a crise ambiental e a desigualdade no campo. A política agrícola deve ser revista para priorizar a produção sustentável e a redistribuição de terras, reduzindo a dependência de monoculturas e do modelo exportador de commodities. Ao mesmo tempo, é essencial estabelecer uma regulação mais rígida sobre o uso da água na agropecuária, com políticas voltadas para a preservação dos aquíferos e nascentes, garantindo a segurança hídrica a longo prazo.
Além disso, o investimento massivo em agroecologia e agricultura familiar precisa ser uma realidade, assegurando que políticas de financiamento e assistência técnica sejam ampliadas e estruturadas para fortalecer esse setor essencial à segurança alimentar do país. Paralelamente, a criação de um plano nacional de adaptação climática se torna indispensável, com medidas concretas para mitigar os impactos sobre a produção de alimentos e o abastecimento de água.
A retomada da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER) é uma necessidade urgente para o desenvolvimento rural sustentável no Brasil. Nos últimos anos, a assistência técnica rural sofreu desmonte e negligência, deixando milhões de pequenos produtores desamparados em um momento crítico, marcado pelos impactos crescentes da crise climática e pela intensificação da concentração fundiária. Sem políticas públicas estruturadas que garantam suporte técnico e acesso ao conhecimento, a agricultura familiar enfrenta dificuldades cada vez maiores para se manter produtiva, sustentável e competitiva diante do modelo agroexportador baseado na monocultura e na exploração intensiva dos recursos naturais.
A assistência técnica rural tem um papel fundamental na difusão de práticas agroecológicas, no manejo sustentável dos solos e da água e na adaptação às mudanças climáticas. Com orientação adequada, pequenos produtores podem melhorar sua produtividade sem recorrer ao desmatamento ou ao uso excessivo de insumos químicos, garantindo a preservação ambiental e a segurança alimentar das populações locais. Além disso, políticas de extensão rural fortalecem a organização comunitária, o cooperativismo e o acesso a mercados, permitindo que agricultores familiares tenham maior autonomia e consigam competir em melhores condições dentro da economia nacional.
O desmonte da assistência técnica nos últimos anos resultou em um enfraquecimento da agricultura familiar e em um avanço ainda maior da lógica do agronegócio, que recebe incentivos milionários enquanto os pequenos produtores são deixados à própria sorte. Esse desequilíbrio não apenas aprofunda a desigualdade no campo, mas também compromete a segurança alimentar do país, já que a maior parte dos alimentos que abastecem a população brasileira vem da agricultura familiar, e não do agronegócio voltado à exportação. Sem assistência técnica, milhões de agricultores perdem acesso a tecnologias mais sustentáveis, tornando-se mais vulneráveis à degradação do solo, ao uso ineficiente da água e às oscilações climáticas.
O governo precisa ir além de discursos e reconstruir uma política nacional sólida de assistência técnica rural, garantindo financiamento adequado, equipes capacitadas e presença constante nos territórios. A retomada da PNATER não pode ser apenas um aceno simbólico, mas um compromisso real com um modelo de desenvolvimento rural que seja socialmente justo e ambientalmente responsável. Enquanto a assistência técnica continuar sendo tratada como secundária, o Brasil seguirá refém de um modelo agrícola excludente, destrutivo e insustentável, que compromete não apenas o presente dos agricultores familiares, mas o próprio futuro da produção de alimentos e da preservação ambiental no país.
Por fim, é fundamental que o governo enfrente de maneira real e decisiva o poder econômico do agronegócio, impedindo que as decisões ambientais e climáticas continuem sendo reféns dos interesses desse setor. Somente com mudanças estruturais será possível garantir um futuro sustentável e justo para o Brasil.