AS BRUXAS DO SÉCULO XXI: COMUNIDADES TRADICIONAIS, NEOEXTRATIVISMO E A PERSISTENTE CAÇA AOS QUE DEFENDEM A TERRA

A relação entre o ser humano e o mundo natural nem sempre foi marcada pelo distanciamento e pela exploração sistemática que caracteriza a sociedade contemporânea. Durante séculos, a humanidade compreendeu-se como parte integrante de um cosmos vivo, impregnado de significado e propósito, que em tudo possuía uma força, um poder oculto. A concepção animista da natureza embasava uma visão mágica do mundo. Os espaços naturais se entrelaçavam com a vida humana de maneira orgânica e sagrada; estabelecia-se com as águas, rochas, animais, árvores, fungos, relações sociais holísticas fundadas na inseparabilidade matéria/espírito. A natureza tinha alma. 

Essa visão de mundo, profundamente enraizada na filosofia aristotélica e na tradição escolástica medieval, começou a ser desmantelada no século XVII por um pensamento que revolucionaria para sempre a forma como o homem se relaciona com a natureza: o mecanicismo cartesiano. As consequências dessa virada filosófica são profundas e multifacetadas. Em primeiro lugar, opera-se um desencantamento do mundo. A natureza, que antes era mãe, livro sagrado ou organismo vivo, perde qualquer vestígio de subjetividade. Torna-se matéria inerte, extensão desprovida de alma, propósito ou valor intrínseco. Onde antes se via um cosmos cheio de correspondências e significados, passa a ver-se apenas partículas em movimento.

Em segundo lugar, estabelece-se uma nova hierarquia epistemológica. Se a natureza é apenas matéria, o conhecimento verdadeiro não pode vir dos sentidos – que nos mostram cores, cheiros e sabores ilusórios, mas exclusivamente da razão matemática. O real identifica-se com o mensurável, com aquilo que pode ser expresso em equações. O homem conhece a natureza de fora, como um engenheiro que estuda o funcionamento de uma máquina da qual não faz parte. Por fim, e talvez mais importante, instaura-se uma relação de dominação. Se a natureza não tem alma, se é apenas um reservatório de recursos, o homem não apenas pode, como deve, tornar-se seu “mestre e possuidor”. A técnica e a ciência modernas nascem sob o signo desse projeto: conhecer para dominar, dominar para explorar, explorar para satisfazer as necessidades e os desejos humanos.

Ao reduzir a natureza a objeto, a recurso disponível, a humanidade sentiu-se autorizada a explorá-la sem limites, esquecendo-se de que, apesar de toda a técnica, ainda depende dos ciclos ecológicos para sobreviver. A ideia de que o homem é o “senhor” da natureza ocultou a verdade mais elementar: somos parte dela, e ao destruí-la, destruímos as condições de nossa própria existência. Ao transformar a natureza em máquina inerte e desprovida de alma, a revolução cartesiana não poupou o corpo humano. Pelo contrário, foi precisamente a partir da mecanização do corpo que Descartes fundamentou sua teoria do autocontrole e da soberania da alma sobre a matéria. Se a natureza tornou-se objeto de dominação, o corpo – essa porção da natureza que nos é mais íntima – tornou-se a primeira e mais imediata instância de aplicação desse projeto de controle.

A concepção cartesiana do corpo como máquina não apenas separou o homem da natureza exterior, mas também instaurou uma nova relação do homem consigo mesmo, particularmente com seu próprio corpo. Essa mecanização, longe de permanecer no âmbito da especulação filosófica, materializou-se historicamente na disciplina do trabalho, na organização fabril, na educação dos corpos e, contemporaneamente, nas múltiplas formas de otimização e performance que caracterizam a sociedade atual. A filosofia de Descartes opera uma dupla ruptura: externamente, separa o homem da natureza ao reduzir esta última a res extensa, matéria inerte desprovida de alma e propósito; internamente, separa a alma do corpo, estabelecendo entre ambos uma relação hierárquica de comando e subordinação.

O corpo-máquina não quer nada, não deseja nada, não tende a nenhum fim. As sensações de fome, sede, prazer ou dor não passam de “confusas percepções” na alma, causadas por movimentos corporais. Cabe à razão interpretar corretamente esses sinais e decidir se devem ser atendidos ou ignorados. O autocontrole, nesse quadro, é precisamente a capacidade da alma de exercer sua soberania ilimitada sobre essa máquina corporal, recusando-se a ser escravizada por suas solicitações mecânicas. No entanto, o que era inicialmente uma teoria filosófica sobre a liberdade humana rapidamente se transformou, ao longo dos séculos seguintes, em um programa de dominação e disciplina. Se o corpo é uma máquina, ele pode ser otimizado, regulado, consertado e, sobretudo, posto para funcionar de acordo com interesses que transcendem o indivíduo.

A filosofia de Descartes era, em sua intenção original, também uma busca por respostas em um mundo em colapso de velhas certezas. Seu impacto prático foi mediado por inúmeras outras invenções, disputas e contingências históricas. O mecanicismo forneceu a linguagem e a legitimidade para uma transformação que já estava em curso devido a forças econômicas e sociais. O projeto cartesiano encontrou no capitalismo industrial seu campo de realização mais completo. O filósofo e historiador Michel Foucault, em suas análises sobre o poder disciplinar, demonstrou como os séculos XVII e XVIII assistiram à descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. 

A fábrica moderna não poderia existir sem a concepção do corpo como máquina. O operário não é mais um artesão que domina todo o processo produtivo, imprimindo sua marca pessoal em cada peça; ele torna-se um apêndice da máquina, um elemento intercambiável na linha de montagem. Seu corpo deve funcionar com a regularidade de um relógio: iniciar o trabalho no mesmo horário, executar os mesmos movimentos centenas de vezes por dia, interromper-se no mesmo instante para a pausa regulamentar.

Essa mecanização do trabalho operário implicou uma progressiva alienação, termo que Marx utilizaria para descrever o estranhamento do trabalhador em relação ao produto de seu trabalho e a si mesmo. O corpo do operário não lhe pertence mais durante a jornada de trabalho; ele é alugado, posto a serviço de uma produção que não controla e cujos frutos não lhe pertencem. Seu corpo-máquina é avaliado por sua eficiência, por sua capacidade de produzir mais em menos tempo, por sua docilidade às ordens da gerência. A cronometragem dos movimentos, estudada por Taylor no início do século XX, representa o ápice dessa concepção. Trata-se de decompor o trabalho humano em gestos elementares, medir o tempo necessário para cada um deles e prescrever o método mais eficiente, como se ajustasse as engrenagens de um mecanismo. O corpo do trabalhador é reduzido a uma soma de movimentos padronizados, despojado de qualquer criatividade ou singularidade.

A revolução cartesiana se desenvolveu em consonância com transformações materiais profundas que reconfiguraram as relações de propriedade, trabalho e gênero na Europa moderna. A mecanização do mundo natural e do corpo humano estabeleceu as bases filosóficas para a exploração sem precedentes que caracterizaria o capitalismo, e se materializou historicamente em dois processos indissociáveis: a expropriação das terras comunais, que Marx denominou como “acumulação primitiva”, e a subordinação das mulheres, cuja histórica identificação com a natureza as tornou alvos privilegiados das novas formas de controle. 

CERCAMENTOS E ACUMULAÇÃO PRIMITIVA: A TERRA MÃE COMO MÁQUINA A SER EXPLORADA

Karl Marx, no capítulo XXIV de O Capital, livro 1, dedicado à “A assim chamada acumulação primitiva”, descreve o processo violento que separou os produtores diretos dos meios de produção, criando as condições necessárias para o desenvolvimento do capitalismo. Na Inglaterra, entre os séculos XV e XVIII, os chamados enclosures (cercamentos) transformaram radicalmente a paisagem e as relações sociais.

Antes dos cercamentos, vastas extensões de terra eram de uso comunal. Camponeses tinham direito a pastar seus animais, coletar lenha, caçar e cultivar pequenos lotes em terras que não pertenciam a ninguém individualmente, mas eram geridas coletivamente pela comunidade. Essa forma de organização, herdeira de tradições medievais, implicava uma relação com a terra que não era meramente instrumental: a terra era fonte de sustento, mas também espaço de sociabilidade, de transmissão de saberes, de reprodução da vida comunitária.

Os cercamentos consistiram na apropriação privada dessas terras comunais pela nobreza e pela burguesia nascente, cercando-as e transformando-as em propriedade privada exclusiva. O gado ovino, cuja lã alimentava a nascente indústria têxtil, substituiu os camponeses. Milhares de pessoas foram expulsas das terras que habitavam há gerações, tornando-se vadios, mendigos ou, finalmente, trabalhadores assalariados nas cidades industriais.

É fundamental compreender que esse processo não foi meramente econômico, mas profundamente ontológico, ou seja, transformou o próprio ser da terra. A terra comunal era viva, era mãe, era comunidade. A terra cercada, privatizada, tornou-se mercadoria, meio de produção, máquina de gerar lucro. A mesma operação filosófica que Descartes realizava no plano do pensamento – reduzir a natureza a res extensa, a matéria inerte disponível para dominação – realizava-se, no plano material, pelos cercamentos. A terra deixava de ser sujeito de relações comunitárias e tornava-se objeto de exploração capitalista.

A violência dos cercamentos não foi apenas contra as pessoas, mas contra uma forma de vida. Os saberes camponeses sobre os ciclos da natureza, sobre o manejo coletivo dos recursos, sobre as plantas medicinais e os ritmos da terra, tudo isso foi desqualificado como atraso, ignorância, superstição. A ciência nascente, herdeira do mecanicismo cartesiano, oferecia a justificativa: a natureza é máquina, e máquinas não têm saberes a transmitir; têm apenas leis a serem descobertas e exploradas.

Se a terra foi violentamente expropriada e transformada em mercadoria, as mulheres sofreram um processo análogo, mas com especificidades cruciais. A associação entre mulher e natureza é um dos temas mais antigos e persistentes da cultura ocidental. A filósofa ecológica Carolyn Merchant, em sua obra fundamental A Morte da Natureza, demonstra como, antes da Revolução Científica, predominava uma imagem orgânica do cosmos frequentemente associada ao feminino: a Terra era mãe, nutriz, provedora. Havia, nessa associação, um certo limite implícito à exploração: não se viola impunemente o corpo da mãe.

A Revolução Científica e o mecanicismo cartesiano operaram uma dupla transformação dessa imagem. Por um lado, a natureza-mãe foi substituída pela natureza-máquina, autorizando sua exploração sem culpa. Por outro lado, a associação entre mulher e natureza, longe de desaparecer, foi reconfigurada como justificativa para a dominação feminina. Se as mulheres são “mais próximas da natureza”,  seja por sua capacidade reprodutiva, seja por seu histórico envolvimento com atividades ligadas à terra e ao corpo, então, elas também devem ser controladas, disciplinadas e dominadas. A mesma razão que se propunha a dominar a natureza exterior propunha-se a dominar a natureza interior, e as mulheres, identificadas com essa natureza, tornaram-se objetos privilegiados desse domínio.

O exemplo mais brutal dessa articulação entre a dominação da natureza e o controle das mulheres é a caça às bruxas que assolou a Europa entre os séculos XV e XVII, atingindo seu ápice justamente no período de consolidação do capitalismo e da ciência moderna. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas, a grande maioria mulheres, foram executadas acusadas de bruxaria. Essas mulheres eram, frequentemente, camponesas pobres, viúvas, parteiras, curandeiras, herbalistas,  mulheres que detinham saberes tradicionais sobre o corpo, sobre as plantas, sobre os ciclos da natureza. Eram mulheres que, de certa forma, “controlavam” a natureza: sabiam quais ervas induziam o aborto, quais aliviavam a dor do parto, quais curavam feridas, quais provocavam sonhos.

A emergência da medicina profissional, exclusivamente masculina e formada nas universidades, viu nessas mulheres uma concorrência perigosa. O saber feminino, transmitido oralmente de geração em geração, foi sistematicamente desqualificado como superstição, feitiçaria, pacto com o diabo. Ao mesmo tempo, a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica disputavam o controle das almas e dos corpos, e a figura da bruxa serviu perfeitamente para demonizar qualquer forma de resistência à nova ordem. A caça às bruxas foi, portanto, um processo de expropriação de saberes análogo à expropriação das terras comunais. Assim como os camponeses foram expulsos da terra que lhes garantia a subsistência, as mulheres foram expulsas do corpo, do conhecimento sobre seu próprio corpo, sobre a reprodução, sobre a saúde. 

É importante notar que as acusações de bruxaria frequentemente recaíam sobre mulheres que resistiam aos cercamentos. Camponesas que protestavam contra a expropriação de terras comunais, que coletavam lenha em florestas recém-cercadas, que mantinham vivas as práticas comunitárias, eram particularmente visadas. A bruxa era, nesse sentido, a figura da resistência: resistência à nova ordem econômica que privatizava o comum, resistência à nova ordem científica que desqualificava saberes ancestrais, resistência à nova ordem religiosa que disciplinava corpos e almas. Os voos noturnos, os encontros no sabá, os pactos com o diabo, tudo isso era, aos olhos dos perseguidores, a prova de que essas mulheres estavam em conluio com forças que desafiavam o controle racional. Mas podemos ler esses mesmos elementos como metáforas de uma liberdade que precisava ser aniquilada: a liberdade de circular fora dos espaços permitidos, de se reunir fora do controle masculino, de possuir saberes que escapavam à nova ciência.

A relação entre a mecanização da natureza e o controle das mulheres é uma relação estrutural e orgânica. Ambas são faces do mesmo processo histórico: a instauração de uma ordem patriarcal-capitalista que transforma tudo em recurso, tudo em objeto, tudo em mercadoria. A terra comunal, viva e nutriz, precisava ser cercada, privatizada, transformada em máquina de produzir lucro. O corpo feminino, com seus ciclos, seus saberes, sua capacidade de gerar vida, precisava ser controlado, medicalizado, transformado em máquina de reproduzir a força de trabalho e de consumir mercadorias. Em ambos os casos, a violência foi justificada por uma ideologia que naturalizava a submissão: assim como a natureza deveria ser dominada pelo homem, a mulher, sua suposta extensão, também deveria ser alvo desse mesmo controle. A filosofia cartesiana forneceu as ferramentas conceituais para essa dupla sujeição.

Ao separar radicalmente mente e corpo, razão e emoção, cultura e natureza, Descartes não apenas estabeleceu a soberania da alma racional sobre o corpo-máquina, mas também, implicitamente, a soberania do homem (associado à razão, à cultura, ao espírito) sobre a mulher (associada ao corpo, à natureza, à emoção). O dualismo cartesiano é, nesse sentido, profundamente generificado: a res cogitans é masculina; a res extensa é feminina.

COMUNIDADES TRADICIONAIS: AS BRUXAS DO SÉCULO XXI

A violência que expropriou terras comunais e queimou mulheres acusadas de bruxaria entre os séculos XVI e XVIII não é um capítulo encerrado da história. Ela persiste, reconfigurada, nas dinâmicas contemporâneas do capitalismo global. A análise de Rosa Luxemburgo em A Acumulação do Capital, oferece uma contribuição fundamental ao debate sobre a expansão capitalista ao demonstrar que o capitalismo, para se reproduzir, necessita constantemente de relações não capitalistas de produção. Ela argumenta que a acumulação ampliada – o processo pelo qual o capital se valoriza e se expande – não pode ocorrer exclusivamente no interior das relações capitalistas. É necessário um “fora”, um espaço externo onde o capital possa encontrar novos mercados, novas fontes de matérias-primas, novos reservatórios de força de trabalho.

Esse “fora”, contudo, não é simplesmente exterior geográfico. É, sobretudo, um exterior social, formas de organização da vida que não estão ainda inteiramente submetidas à lógica capitalista: economias camponesas de subsistência, terras de uso comunal, saberes tradicionais, práticas de cuidado e reprodução. O capital precisa invadir esses espaços, destruí-los e incorporá-los, transformando terra em mercadoria, trabalho em força de trabalho assalariada, saberes em propriedade intelectual, natureza em recursos. O que Luxemburgo argumenta é que a violência da acumulação primitiva, a expropriação violenta dos meios de produção, não é um momento superado na história do capitalismo, mas uma necessidade permanente. O capital precisa constantemente cercar os comuns.

O neoextrativismo é uma das expressões contemporâneas desse processo. Diferentemente do extrativismo clássico, baseado na exploração de recursos minerais e vegetais nas colônias, o neoextrativismo caracteriza-se por sua escala industrial, sua integração aos mercados globais e sua penetração em territórios antes considerados marginais. Na América Latina, particularmente, o neoextrativismo avançou nas últimas décadas como modelo dominante de desenvolvimento: mineração a céu aberto, megaprojetos hidrelétricos, monoculturas de soja e eucalipto, exploração de petróleo em áreas sensíveis, garimpo ilegal em terras indígenas. Esses empreendimentos incidem precisamente sobre os territórios ocupados por comunidades tradicionais, aqueles mesmos espaços onde persistem formas não capitalistas de organização da vida.

A lógica é a mesma dos cercamentos ingleses: terras que eram de uso comum, geridas coletivamente por comunidades que nelas habitam há séculos, são repentinamente “descobertas” como reservas de valor, como jazidas a serem exploradas, como fronteiras agrícolas a serem abertas. O Estado, frequentemente em aliança com corporações nacionais e transnacionais, atua para remover os obstáculos, ou seja, para remover as comunidades. Os argumentos são os mesmos de sempre: desenvolvimento, progresso, geração de empregos, modernização. As comunidades tradicionais são apresentadas como entraves a esse projeto, são “pobres”, “atrasadas”, “ignorantes”, “inimigas do progresso”. Seus modos de vida, baseados em relações de reciprocidade, em saberes transmitidos oralmente, em práticas de baixo impacto ambiental, são sistematicamente desqualificados. O que não se diz é que essas comunidades representam exatamente aquilo que Luxemburgo identificou: o “fora” que o capital precisa destruir para continuar se expandindo.

A analogia com a caça às bruxas não é meramente retórica. As comunidades tradicionais contemporâneas ocupam, no imaginário do desenvolvimento, o mesmo lugar que as mulheres acusadas de feitiçaria ocupavam na Europa moderna: são figuras demonizadas, associadas à ignorância e ao atraso, cuja eliminação se justifica em nome de uma ordem superior. Os povos indígenas, por exemplo, são frequentemente retratados pela grande mídia e por setores do agronegócio como “obstáculos ao desenvolvimento”. Suas terras, ricas em minérios, em madeira, em potencial agrícola, são cobiçadas por empresas que não reconhecem qualquer legitimidade nos modos de vida tradicionais. Os saberes indígenas sobre a floresta, sobre as plantas medicinais, sobre os ciclos da natureza – saberes que a ciência moderna apenas começa a redescobrir – são desqualificados como “folclore” ou “superstição”, exatamente como os saberes das parteiras e curandeiras eram desqualificados como bruxaria.

Os quilombolas, herdeiros da resistência negra à escravidão, enfrentam processo análogo. Seus territórios, conquistados por séculos de luta e ocupação, são constantemente ameaçados por grileiros, madeireiros, grandes proprietários. A memória da escravidão, que os transformava em propriedade, em corpos a serem possuídos e explorados, retorna sob novas formas: agora são as terras que devem ser possuídas, os recursos que devem ser extraídos, as comunidades que devem ser deslocadas. Os ribeirinhos, os seringueiros, os castanheiros, os quebradeiras de coco, todos esses grupos que desenvolveram formas de vida adaptadas aos ecossistemas específicos, que manejam a floresta sem destruí-la, que reproduzem saberes ancestrais sobre a natureza, todos eles são, aos olhos do capital extrativista, o que as bruxas eram aos olhos da Inquisição: figuras a serem eliminadas em nome de uma verdade superior.

E, assim como na caça às bruxas, a violência não é apenas simbólica. Líderes indígenas e quilombolas são assassinados impunemente em taxas crescentes. Comunidades inteiras são deslocadas à força para dar lugar a hidrelétricas e minas. Crianças adoecem pelo mercúrio despejado nos rios pelo garimpo. Mulheres são violentadas em regiões de fronteira extrativista. A terra é envenenada, os rios são mortos, as florestas são derrubadas e, com elas, morrem também modos de vida, línguas, saberes, cosmologias. O que está em jogo no neoextrativismo é o ataque sistemático aos comuns, aquilo que é de todos e de ninguém, que é gerido coletivamente, que escapa à lógica da propriedade privada e da mercadoria.

A terra comunal, que os cercamentos ingleses começaram a destruir no século XVI, ainda persiste em muitas comunidades tradicionais; terras indígenas, territórios quilombolas, fundos de pasto, faxinais, babaçuais. São terras usadas coletivamente, segundo regras transmitidas por gerações. O neoextrativismo avança sobre essas terras exatamente como os cercamentos avançaram sobre os commons ingleses: privatizando, concentrando, expulsando. A água, bem comum por excelência, é crescentemente apropriada por hidrelétricas, mineradoras, monoculturas. Comunidades ribeirinhas veem seus rios morrerem contaminados ou terem seu fluxo alterado por barragens. A água, fonte de vida e de reprodução material e simbólica, transforma-se em recurso hídrico, em insumo industrial, em mercadoria.

Os saberes tradicionais sobre plantas medicinais, sobre técnicas de cultivo, sobre manejo florestal, são sistematicamente apropriados pela indústria farmacêutica e biotecnológica, transformados em patentes, em propriedade intelectual, sem qualquer reconhecimento ou compensação às comunidades que os desenvolveram ao longo de séculos. É a expropriação do conhecimento, análoga à expropriação da terra e à expropriação do corpo. Até o ar, bem comum por excelência, é afetado: as queimadas para abertura de novas áreas agrícolas, a poeira das minerações, a fumaça das indústrias, tudo isso incide desproporcionalmente sobre as comunidades tradicionais, que veem sua saúde e seu modo de vida comprometidos por externalidades das quais não se beneficiam.

Assim como na caça às bruxas, as mulheres das comunidades tradicionais são particularmente visadas pela violência neoextrativista. São elas, frequentemente, as guardiãs dos saberes sobre sementes, sobre plantas medicinais, sobre os ciclos da água. São elas que garantem a reprodução da vida comunitária, o cuidado com as crianças, com os doentes, com os idosos, exatamente aquelas atividades que o capitalismo desvaloriza como “não produtivas”. Quando a mineradora contamina o rio, são as mulheres que precisam caminhar mais longe para buscar água. Quando a hidrelétrica alaga o território, são as mulheres que perdem não apenas a casa, mas a horta, as plantas medicinais, o local de encontro com outras mulheres. Quando o agronegócio avança, são as mulheres que perdem as sementes crioulas que guardavam há gerações.

Não por acaso, são também as mulheres que estão na linha de frente da resistência ao neoextrativismo. Movimentos como o das Quebradeiras de Coco Babaçu, das camponesas da Via Campesina, ou as mulheres indígenas que lideram lutas territoriais em toda a América Latina, todas elas retomam, sem necessariamente saber, a tradição das mulheres queimadas como bruxas por resistirem aos cercamentos e à expropriação dos saberes. Essas mulheres compreendem, na prática, o que a análise teórica demonstra: que a defesa da terra é defesa do corpo, que a defesa da floresta é defesa da vida, que a defesa dos saberes tradicionais é defesa da autonomia. Elas encarnam a recusa do projeto moderno-colonial que separou natureza e cultura, razão e emoção, público e privado, e que fez dessa separação instrumento de dominação.

O capitalismo precisa constantemente do “fora” para se reproduzir. Mas esse “fora”, as relações não capitalistas de produção, não é apenas reservatório a ser saqueado. É também, e sobretudo, a memória viva de que outro mundo é possível. As comunidades tradicionais que resistem ao neoextrativismo não são apenas vítimas; são portadoras de alternativas. Seus modos de vida baseados no comum, na terra de uso coletivo, na gestão compartilhada dos recursos, na transmissão oral dos saberes, no cuidado como valor central, apontam para formas de organização social que escapam à lógica destrutiva do capital.

O desafio contemporâneo é duplo. Por um lado, é necessário defender essas comunidades da violência do neoextrativismo, defender seus territórios, seus corpos, seus saberes. Por outro lado, é preciso aprender com elas, reconhecer que seus modos de vida contêm elementos fundamentais para a construção de uma sociedade pós-capitalista, ecológica, feminista, decolonial. A bruxa queimada na fogueira não era apenas uma vítima; era a portadora de um saber que a nova ordem precisava destruir. A indígena assassinada na luta pela terra não é apenas mártir; é testemunha de que é possível viver na floresta sem destruí-la. A quilombola que lidera a ocupação de um território ameaçado não é apenas militante; é a guardiã de uma memória de resistência que vem dos navios negreiros e que aponta para o futuro.

Reconhecer essas lutas, compreender sua centralidade para a crítica do capitalismo contemporâneo, é tarefa urgente. Pois o que está em jogo no neoextrativismo não é apenas a exploração de recursos naturais ou a expropriação de comunidades. O que está em jogo é a própria possibilidade de imaginar e construir formas de vida baseadas no comum, na reciprocidade, no cuidado, na integração com a natureza. Os cercamentos não terminaram. A caça às bruxas não terminou. Mas a resistência também não. E é dessa resistência, das mulheres, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais, que pode vir a semente de um mundo onde a terra não seja mercadoria, o corpo não seja máquina, a natureza não seja recurso. Um mundo onde, enfim, possamos habitar a Terra como quem pertence a ela, e não como quem a possui. Um ponto de partida ético e político fundamental.

NOTA DE REPÚDIO

Manifesto com veemência o meu repúdio aos ataques misóginos e a violência política de gênero sofridos pela ministra Marina Silva durante sua participação na 5º Conferência Nacional do Meio Ambiente (CNMA), em Audiência Pública da Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal, nesta terça feira, 27/05/2025.

De modo incompatível com o mandato de Senador da República, os senadores Marcos Rogério (PL-RO), presidente da Comissão, Plínio Valério (PSDB-AM) e Omar Aziz (PSD-AM) agiram com total desrespeito durante a sessão, reproduzindo práticas que deslegitimam não apenas a figura pública da ministra Marina Silva, mas todas as mulheres. Violando o princípio básico do diálogo democrático, reforçaram estereótipos misóginos que associam autoridade feminina a algo a ser “contido” ou “corrigido”.

O tratamento desrespeitoso e a tentativa de silenciar sua fala não são apenas um ataque a trajetória pública de Marina, mas também uma expressão da estrutura patriarcal que busca invalidar a voz das mulheres, desqualificando suas contribuições com ataques pessoais e interrupções intimidatórias, uma tática de deslegitimação comum contra mulheres, que têm sua expertise constantemente questionada e sua autoridade reduzida a estereótipos.

O machismo estrutural, como fenômeno, não se resume a ações individuais, mas à normalização de práticas que silenciam e marginalizam as mulheres, buscando restringi-las a “lugares” pré-determinados, negando-lhes autonomia e autoridade.

Quando uma liderança como Marina Silva, mulher, negra e de origem humilde, é confrontada com gestos ou discursos que buscam reduzi-la a estereótipos, evidencia-se não apenas um ataque individual, mas a perpetuação de um sistema que resiste à equidade. Sua expertise, trajetória e direito de ocupar espaços de decisão não podem ser subjugados por preconceitos enraizados.

É fundamental reafirmar que é inaceitável que alguém exija submissão, imponha silêncio, intimide ou defina arbitrariamente o papel que uma mulher deve ocupar. Seja em sua atuação pública, em suas escolhas pessoais ou em qualquer dimensão de sua existência, nenhuma mulher deve ter sua voz sufocada ou sua legitimidade questionada sob o pretexto de hierarquias abusivas ou normas sociais retrógradas.

Nenhum cargo, tradição ou posição de poder justifica a violência simbólica ou a tentativa de delimitar o “lugar” de uma mulher.

Quando senadores, investidos de poder institucional, utilizam suas vozes para silenciar, humilhar ou inferiorizar uma ministra mulher, negra e com décadas de experiência em sua área, estão enviando uma mensagem perversa à sociedade: a de que certos corpos e identidades não pertencem a espaços decisórios. Enquanto esses comportamentos forem tolerados, o Senado seguirá sendo um ambiente hostil para mulheres, especialmente aquelas que, como Marina Silva, desafiam o status quo com competência e coragem.

NEOLIBERALISMO, FOME E DESTRUIÇÃO: O COLAPSO DE UM SISTEMA

Na esfera econômica, os anos 1980 ficaram conhecidos como a “Década Perdida” na América Latina, um período marcado por baixas taxas de crescimento, alta inflação e declínio em diversos indicadores socioeconômicos. No Brasil, a desaceleração da produção industrial, o aumento do desemprego e a perda do poder de compra dos salários aprofundaram a crise, consolidando a ideia de uma década de estagnação econômica em contraste com os períodos anteriores. No entanto, do ponto de vista político, os anos 1980 também foram marcados pelo fim da ditadura militar e pelo processo de redemocratização do país, trazendo consigo um conjunto de contradições. 

A elaboração da Constituição Federal de 1988 abriu espaço para o debate sobre direitos básicos, enquanto importantes movimentos sociais e partidos populares ganharam força. Contudo, os governos que assumiram o poder após sua promulgação adotaram uma agenda neoliberal, o que impediu a plena efetivação das garantias de proteção social previstas no texto constitucional. Além disso, as condições materiais e históricas necessárias para assegurar esses direitos nunca foram plenamente consolidadas, uma vez que o Brasil jamais estruturou um verdadeiro Estado de Bem-Estar Social, mantendo a população vulnerável às desigualdades e às limitações impostas pela lógica do capital.

Um exemplo das contradições entre as garantias formais da Constituição de 1988 e a realidade imposta pela hegemonia do capital, é a Reforma Agrária, agravada ainda mais durante a ditadura militar. Embora prevista na Constituição, ela nunca foi implementada de maneira estruturante e eficaz.

“Isso porque, conforme afirma Martins (1999, p. 102), a questão agrária brasileira é uma questão sob controle, administrada, que aparece de modo residual, como um problema social e não como uma questão estrutural, ela não se revela comprometedora para o funcionamento dos diferentes níveis do sistema econômico e do sistema político”. 

De fato, a questão agrária brasileira permanece inextricavelmente vinculada à incapacidade das elites econômicas – historicamente alicerçadas no latifúndio – de superarem a contradição estrutural entre terra como bem comum e capital como mecanismo de acumulação privada, reproduzindo uma lógica anacrônica que obstrui o desenvolvimento soberano do país, e até hoje tratada em segundo plano apenas como um problema social. No entanto, ainda conforme afirma o autor, a questão agrária é, essencialmente, uma questão histórica e, portanto, “o tempo de referência destas considerações é o tempo da conjuntura histórica” (Martins, 1999, p.99).

Dessa forma, a questão agrária brasileira precisa ser analisada no contexto das crises globais contemporâneas, que ultrapassam fronteiras geográficas e se intensificam desde os anos 1990. A crise climática, a crise da reprodução social e a crise do sistema alimentar avançam em ritmo acelerado, evidenciando as contradições de um modelo econômico que compromete tanto os ecossistemas quanto às condições de vida da população. A convergência entre crise climática, crise da reprodução social e crise do sistema alimentar é consequência direta de um modelo econômico que subordina tanto os recursos naturais quanto a vida humana à lógica da acumulação e do lucro.

Essas crises, que se intensificaram nas últimas décadas, não podem ser analisadas isoladamente, pois estão profundamente interligadas em um ciclo de exploração e degradação. 

No Brasil, a atual conjuntura configura-se como desdobramento crítico do projeto econômico neoliberal implementado a partir dos anos 1990, quando o Estado, em condição de subalternidade às diretrizes do capital globalizado, reestruturou-se como fiador da acumulação privada. Esse processo, alinhado ao Consenso de Washington, operou uma tripla metamorfose: austeridade fiscal permanente, com cortes seletivos que privilegiaram rentistas em detrimento de políticas sociais; desmonte de setores estratégicos (energia, telecomunicações, mineração) via privatizações que transferiram patrimônio público a conglomerados transnacionais; mercantilização de direitos, com a terceirização de saúde e educação, convertendo necessidades humanas em nichos de lucro.

A partir de 2016, com a imposição da Emenda Constitucional 95, a financeirização ascendeu a um patamar sistêmico: o teto de gastos públicos, ao congelar investimentos sociais por 20 anos, institucionalizou a austeridade como dogma, estrangulando políticas agrárias e aprofundando a captura do Estado por interesses rentistas. Não por acaso, enquanto o orçamento para reforma agrária encolhia 83% entre 2016 e 2022, o setor do agronegócio recebeu R$ 364 bilhões em crédito subsidiado em 2023/24, evidenciando a seletividade classista do projeto.

Nesse contexto, a questão agrária brasileira revela-se intrínseca à geopolítica do capitalismo tardio: a expansão de commodities sobre biomas (Amazônia, Cerrado) atende menos a demandas alimentares do que à lógica da acumulação por despossessão, onde territórios são desterritorializados para alimentar fluxos financeiros. A cada hectare de soja destinado à exportação (73% da produção nacional, segundo a CONAB, 2023), consolida-se um modelo que conjuga superexploração ecológica com exclusão social — paradoxo onde a fome (33 milhões em 2022, FAO) coexiste com recordes de safras.

DO LATIFÚNDIO AO ULTRAPROCESSADO

A globalização redefiniu radicalmente os sistemas agroalimentares ao longo do último século, transformando alimentos em commodities circulantes em redes transnacionais de produção, comércio e consumo (Abramovay, 2021). Se, no passado, a agricultura estava ancorada em relações locais e ciclos ecológicos, hoje ela opera sob a lógica de um mercado globalizado, dominado por corporações que controlam desde sementes até as prateleiras de supermercados (Schneider, 2016). Esse processo carrega contradições profundas entre a busca por eficiência econômica e a crise socioambiental que ameaça ecossistemas, culturas alimentares e a própria segurança nutricional de populações inteiras.

No Brasil, a partir da década de 1990, o avanço neoliberal desmontou políticas públicas de apoio à agricultura familiar e consolidou um modelo agroexportador dependente de monoculturas, que ocupa 76% das terras agricultáveis do país, mas alimenta apenas uma fração da população. Enquanto isso, pequenos produtores, responsáveis por 70% dos alimentos consumidos nacionalmente, são expulsos de seus territórios ou submetidos a contratos leoninos com corporações que controlam sementes transgênicas e insumos químicos (ABRAMOVAY, 2019).

A agricultura industrial é responsável por 34% das emissões globais de gases de efeito estufa (Crippa, et. al, 2021), além de ser a maior causadora de desmatamento e perda de biodiversidade. No Brasil, o avanço da soja e da pecuária sobre biomas como a Amazônia e o Cerrado não apenas acelera a crise climática, mas destrói modos de vida ancestrais. O uso de 1,2 milhão de toneladas de agrotóxicos ao ano contamina aquíferos, extermina polinizadores e intoxica trabalhadores rurais — muitos deles mulheres grávidas, cujos filhos nascem com malformações (ABRASCO, 2023), violando as fronteiras planetárias identificadas por Rockström (et al., 2023), como os ciclos do nitrogênio e a integridade da biosfera, por exemplo.  

Esse modelo depende de monoculturas em larga escala, que demandam desmatamento, irrigação intensiva e químicos sintéticos. A soja, por exemplo, ocupa 43 milhões de hectares no Brasil, mas apenas 5% é destinada ao consumo humano direto. O restante vira ração animal ou biocombustível, alimentando cadeias globais de valor que privilegiam exportação sobre soberania alimentar.    

A crise climática, a escalada das desigualdades socioeconômicas e a financeirização da reprodução social representam desafios estruturais do século XXI, interligados por uma lógica comum: a subordinação da reprodução da vida aos imperativos de acumulação capitalista (Ruas, 2021; Bhattacharya, 2017, Fraser, 2024). Superá-la demanda não apenas reformas, mas a construção de um sistema que valorize a sustentabilidade da vida sobre a ganância destrutiva do capital. 

A escalada do consumo de ultraprocessados está intrinsecamente ligada ao domínio de conglomerados como Nestlé, PepsiCo e JBS, que controlam 75% do mercado global de alimentos. Essas corporações operam sob uma lógica de comoditização, transformando grãos, água e até sementes em ativos financeiros. A fusão Bayer-Monsanto em 2018 consolidou um oligopólio que controla sementes transgênicas e agrotóxicos utilizados no Brasil (ABRASCO, 2023). 

No contexto atual, a crise de reprodução social — aprofundada pelo neoliberalismo e pelo domínio corporativo sobre os sistemas alimentares — revela-se como um eixo central da degradação socioambiental. No Brasil e no mundo, a agricultura industrial, controlada por megacorporações como Bayer, Cargill e JBS, opera sob uma lógica que prioriza a acumulação de capital em detrimento da vida, gerando um ciclo perverso de exploração humana e destruição ecológica. 

CRISE DA REPRODUÇÃO SOCIAL

Nas últimas décadas, o regime alimentar global passou por uma transição paradigmática: de sistemas locais e diversificados para um modelo industrializado, centralizado e ancorado na lógica das commodities. Essa metamorfose reconfigurou não apenas os padrões nutricionais, mas as próprias relações entre sociedade, natureza e trabalho. Impulsionadas pela expansão neoliberal e pelo poder oligopólico de conglomerados transnacionais, tais mudanças produzem impactos complexos e interligados, manifestando-se em três dimensões fundamentais: socioeconômica, ambiental e cultural.

A substituição de dietas tradicionais por ultraprocessados está associada ao crescimento exponencial de doenças crônicas. No Brasil, a prevalência de obesidade saltou de 12% para 26% da população entre 2006 e 2022, enquanto os gastos do SUS com diabetes e hipertensão ultrapassaram R$ 3,4 bilhões (Ministério da Saúde, 2023). Paralelamente, o uso de toneladas de agrotóxicos anuais contamina aquíferos como o Guarani, responsável por abastecer 90 milhões de pessoas (Abrasco, 2023). A crise ecológica é igualmente alarmante: a pecuária industrial emite 65% do metano global, gás 28 vezes mais poluente que o CO₂ (IPCC, 2023). Na Amazônia, 90% do desmatamento está vinculado à expansão de pastos e soja, ameaçando 40% das espécies endêmicas (INPE, 2023).

Ao promover a flexibilização das relações de trabalho e a desregulamentação de direitos sociais, o neoliberalismo intensificou a pressão por produtividade e a precarização laboral. Jornadas extensas, terceirizações e a necessidade de múltiplos empregos para garantir sustento tornaram o tempo um recurso escasso para a classe trabalhadora. No Brasil, 44% dos trabalhadores urbanos cumprem mais de 40 horas semanais, enquanto 24% atuam em ocupações informais, sem garantias como férias ou descanso remunerado (IBGE, 2023). 

Essa dinâmica é ainda mais perversa para mulheres, que acumulam duplas ou triplas jornadas devido à divisão sexual do trabalho. A média de horas trabalhadas por família subiu 15% entre 2000 e 2020, enquanto o poder de compra do salário mínimo caiu 30% no mesmo período (IBGE, 2023). Essa dinâmica forçou famílias a substituírem alimentos in natura por produtos prontos, cujo preparo demanda menos tempo. Consequentemente, o consumo de ultraprocessados saltou de 18% para 25% das calorias diárias entre brasileiros na última década (Monteiro et al., 2023).

A carga desigual de trabalho reprodutivo agrava o cenário: mulheres, mesmo empregadas formalmente, dedicam 21 horas semanais a tarefas domésticas, contra 11 horas dos homens (IPEA, 2023). Essa sobrecarga as impede de cozinhar, reforçando a dependência de alimentos industrializados e perpetuando um ciclo de má nutrição. Em comunidades periféricas, onde o acesso a equipamentos como geladeiras e fogões é limitado, a situação é ainda mais crítica: 40% das mães solo relatam substituir refeições por biscoitos ou salgadinhos devido à falta de tempo e recursos (REDE PENSSAN, 2022).

Ao longo da história, as mulheres desempenharam um papel central na garantia da segurança alimentar de suas comunidades, atuando como produtoras, gestoras e protagonistas de lutas políticas contra a fome, a desigualdade e a exploração ambiental. Sua atuação está intrinsecamente ligada à reprodução social — trabalho não remunerado de cuidado, alimentação e manutenção da vida —, posicionando-as como as primeiras a enfrentar os impactos da escassez e as mais mobilizadas para combatê-la (Federici, 2004). Essa relação transcende o espaço doméstico, manifestando-se em protestos públicos, ocupações de terra e redes de solidariedade que desafiam estruturas de poder e redefinem modelos de produção e consumo.  

Desde a Marcha das Mulheres sobre Versalhes (1789), quando trabalhadoras francesas desafiaram a monarquia para exigir pão e justiça social, até a Greve “Pão e Paz” (1917), que acelerou a Revolução Russa, e a Revolta do Arroz no Japão (1918), liderada por mulheres de pescadores em Uozu, esses movimentos revelam um padrão: a escassez alimentar não é uma mera questão de abastecimento, mas um campo de disputa pelo direito à vida digna (Abramovay, 2019). Na Nigéria colonial, a Revolta das Mulheres de Abeokuta (1940), liderada por Funmilayo Ransome-Kuti, uniu vendedoras de mercado contra impostos abusivos que inviabilizavam o acesso a alimentos básicos, demonstrando como a fome é um instrumento de opressão colonial e de gênero (OXFAM, 2020).  

O trabalho reprodutivo — cozinhar, cuidar, garantir a alimentação — é historicamente delegado às mulheres, especialmente em sociedades patriarcais. Quando sistemas econômicos ou ambientais falham, como em guerras, crises climáticas ou ajustes neoliberais, elas são as primeiras a enfrentar a escassez e a organizar respostas coletivas.

A filósofa Silvia Federici (2004) argumenta que a exploração desse trabalho gratuito é a base do capitalismo, tornando as mulheres agentes naturais de resistência. Globalmente, as mulheres representam 43% da força de trabalho agrícola, mas possuem menos de 15% das terras cultiváveis (FAO, 2021). Essa disparidade não as impediu de liderar práticas sustentáveis: na América Latina, agricultoras familiares são pioneiras na agroecologia, sistema que combate a dependência de agrotóxicos e prioriza a biodiversidade. Movimentos como a Marcha das Margaridas, no Brasil, evidenciam como a defesa da terra e da soberania alimentar é inseparável da luta por direitos das mulheres (VIA CAMPESINA, 1996).  

A mercantilização dos alimentos — controlada por corporações que especulam com preços e patenteiam sementes — aprofunda a dependência de crédito para comer. Mulheres, especialmente negras e periféricas, são as mais afetadas: no Brasil, 62% das famílias chefiadas por mulheres vivem em insegurança alimentar (REDE PENSSAN, 2022). Suas lutas, como as ocupações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), não exigem apenas comida, mas um modelo econômico que não transforme necessidades vitais em mercadorias. 

Mulheres indígenas, quilombolas e camponesas estão na linha de frente contra o avanço do agronegócio e do extrativismo, que destroem ecossistemas e ameaçam culturas alimentares tradicionais. A líder indígena Berta Cáceres, assassinada em Honduras por defender rios e territórios, simboliza essa resistência. Suas lutas mostram que a crise climática é também uma crise de gênero: enquanto corporações lucram com commodities, mulheres protegem 80% da biodiversidade global (ONU MULHERES, 2020).  

Diante desse cenário, movimentos liderados por mulheres — como a Marcha das Margaridas e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) no Brasil — propõem alternativas radicais. A agroecologia, que integra produção diversificada, justiça social e equilíbrio ecológico, já é praticada por 1,3 milhão de famílias camponesas no país, garantindo alimentos saudáveis e reduzindo a dependência de insumos externos (ANA, 2023). No plano global, a Via Campesina defende a soberania alimentar como antídoto ao controle corporativo, promovendo a reforma agrária e o direito à terra. Experiências como as das mulheres do MST, que ocupam latifúndios para cultivar alimentos sem veneno, mostram que outro modelo é possível.  

A encruzilhada atual exige escolher entre dois projetos: um que transforma alimentos em commodities e pessoas em consumidores endividados, e outro que os reconhece como direitos e bases da vida. A crise de reprodução social, o neoliberalismo e o colapso ecológico não são acidentes, mas resultados de uma lógica que subordina tudo ao lucro. Romper com ela exige fortalecer as alternativas que já florescem nas mãos de quem sempre sustentou o mundo: as mulheres.

 

  

 

A Encruzilhada do Sistema Agroalimentar Global: Lucro, Dívida e Degradação Humana e Ambiental

The Funeral – George Grosz

A Revolução Verde, iniciada no século XX sob a promessa de erradicar a fome global, consolidou um modelo agrícola centrado na produtividade de arroz, milho e trigo. Esses grãos, hoje base da dieta de mais de 4 milhões de pessoas, simbolizam um paradoxo: enquanto o relatório do Kew Royal Botanic Gardens (2020) registra mais de 7 mil espécies vegetais comestíveis, 90% da alimentação humana depende de apenas 15 culturas. Essa homogeneização não se limita às plantas. A produção de proteína animal também está submetida a sistemas intensivos, nos quais o confinamento e a dependência de rações artificiais — enriquecidas com aditivos químicos — exigem o uso massivo de medicamentos para conter doenças decorrentes da baixa diversidade genética e das condições precárias de criação (Abramovay, 2021).  

Produtividade versus Colapso Ecológico

Entre 1961 e 1999, a produtividade agrícola global saltou 106%, mas esse avanço teve um custo: a produção de agrotóxicos aumentou 854%, e o uso de fertilizantes nitrogenados e fosfatados por unidade de alimento tornou-se insustentável. Esses insumos, essenciais para a agropecuária industrial, estão no centro de uma crise planetária. Segundo Rockstrom et al., o excesso de nitrogênio e fósforo já ultrapassou os limites seguros para a manutenção dos ecossistemas, corroendo a biodiversidade e contaminando solos e água. Não por acaso, o sistema alimentar global é hoje o principal vetor de destruição da biodiversidade e o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas, atrás apenas dos combustíveis fósseis (Abramovay, 2021).  

Globalização e Corporações: O Domínio da Cadeia Alimentar  

A transformação de alimentos em commodities globais redefiniu radicalmente a agricultura. Se antes os sistemas agroalimentares estavam enraizados em práticas locais e ciclos ecológicos, hoje são controlados por megacorporações transnacionais que monopolizam desde sementes patenteadas até as prateleiras de supermercados. Essas empresas não apenas ditam o que é produzido e consumido, mas também influenciam políticas públicas, marginalizando pequenos produtores e impondo monoculturas dependentes de agrotóxicos. O resultado é um sistema concentrado, que prioriza eficiência econômica em detrimento da resiliência ambiental e da diversidade cultural alimentar.  

Endividamento e Reprodução Social: O Custo Oculto da Alimentação

A financeirização da vida cotidiana tornou o endividamento familiar um pilar da reprodução social. Salários estagnados, serviços públicos precarizados e a volatilidade dos preços dos alimentos — agravada por crises climáticas e especulação financeira — forçam milhões a recorrerem ao crédito para cobrir despesas básicas, como alimentação. Esse ciclo vicioso é especialmente perverso: enquanto famílias comprometem até 70% de sua renda com comida em alguns países, corporações lucram duas vezes — na venda de alimentos ultraprocessados e na oferta de crédito para consumi-los.  

A reprodução social, historicamente sustentada por trabalho não remunerado (majoritariamente feminino), enfrenta pressões adicionais. A padronização das dietas, impulsionada por produtos baratos e ultraprocessados, reduz o tempo de preparo das refeições, mas compromete a segurança nutricional. Doenças como obesidade e diabetes proliferam, sobrecarregando sistemas de saúde e aprofundando desigualdades.  

Alternativas em Disputa: Rumo à Soberania Alimentar

  

O sistema atual beneficia uma minoria enquanto transfere custos ambientais e sociais para as populações mais vulneráveis. Romper essa lógica exige enfrentar o poder corporativo e investir em modelos alternativos. A agroecologia, por exemplo, demonstra que é possível conciliar produtividade com diversidade biológica, reduzindo a dependência de insumos químicos. Redes de economia solidária e o fortalecimento da agricultura familiar podem reconectar consumidores e produtores, garantindo acesso a alimentos saudáveis e preços justos.  

Além disso, políticas públicas são cruciais para regular preços, combater a especulação e garantir renda digna — reduzindo a dependência do crédito predatório. A soberania alimentar, concebida como o direito dos povos a definir seus próprios sistemas alimentares, emerge não apenas como alternativa, mas como urgência civilizatória. 

 

Quem Paga a Conta?  

A encruzilhada atual revela uma contradição central do capitalismo: a busca por lucro ilimitado colide com os limites finitos da natureza e da dignidade humana. Enquanto corporações acumulam riqueza, famílias pagam com dívidas, saúde precária e um planeta em colapso. A transformação do sistema agroalimentar não é apenas técnica, mas profundamente política — requer desmontar estruturas de poder e reimaginar a alimentação como um direito, não como mercadoria. O futuro da vida na Terra depende dessa escolha.

O BRASIL E A FALTA DE POLÍTICAS ESTRUTURANTES PARA A CRISE CLIMÁTICA E SEGURANÇA ALIMENTAR

A agricultura brasileira tem se destacado mundialmente pelo expressivo aumento de sua produção nas últimas décadas. Gasques et al. (2022), afirmam que a principal fonte de crescimento da produção agrícola, a partir da década de 1980, foi a evolução da Produtividade Total dos Fatores (PTF), ou seja, a medida do grau de eficiência na utilização de recursos para a produção, que é dada entre os índices de produto total e insumos. Simplificadamente, se a produção cresce mais rapidamente do que os insumos utilizados, a PTF aumenta, indicando maior eficiência, influenciada por fatores como tecnologia, conhecimento técnico, inovação, gestão e políticas públicas. 

Contudo, tal interpretação do rural brasileiro prioriza o avanço econômico monetário e, sob o viés economicista, ignora dimensões igualmente fundamentais, como os aspectos biofísicos, sociais, políticos e culturais, reduzindo a complexidade da dinâmica agropecuária a uma visão puramente mercadológica, e tratando como meras externalidades os inúmeros fatores que influenciam e são influenciados pelo setor (Garcia, 2023). Embora seja amplamente difundida a ideia de que o destaque da agricultura brasileira reside no avanço tecnológico como principal motor da produtividade, é essencial reconhecer também o papel da incorporação de novas áreas e da expansão das fronteiras agrícolas nesse crescimento.

Entre 1975 e 2000, a produção agrícola cresceu 400% (Mapbiomas, 2023), e isso foi possível tanto pela incorporação de tecnologias que contribuíram para elevar a produtividade, quanto pela expansão das áreas de cultivo, com impactos diretos sobre os biomas brasileiros e, consequentemente, sobre as comunidades rurais. Além de agravar os problemas decorrentes das mudanças climáticas.

Segundo o último Censo Agropecuário realizado pelo IBGE (2017), o Brasil conta com um total de 5.073.324 estabelecimentos agrícolas. Destes, mais de 4,5 milhões foram classificados como pequenos, com área menor de 10 hectares. Outros 231.430 estabelecimentos foram classificados como médios, com área entre 10 a 1000 hectares. E 92.806 estabelecimentos foram classificados como grandes, com área maior que 1000 hectares, de acordo com o critério do módulo fiscal.

A área total ocupada por esses estabelecimentos agrícolas foi de 351.289.816 hectares, o equivalente a 41.3% do território do país. Os pequenos estabelecimentos, embora sejam maioria, ocupam 96.597.717 hectares, os médios ocupam 66.332.617 hectares, enquanto os grandes dominam 188.359.482 hectares. O Censo Agropecuário de 2017 registrou uma redução de 2% no número total de estabelecimentos em comparação ao Censo de 2006. Apesar dessa queda, houve um aumento de 5,8% na área total ocupada, concentrado principalmente em estabelecimentos com mais de 1.000 hectares. Também observou-se uma mudança na composição dos estabelecimentos agrícolas: aqueles classificados como agricultura familiar reduziram sua participação de 83,2% em 2006 para 76,8% em 2017, enquanto os estabelecimentos não familiares cresceram de 16,8% para 23,2% no mesmo período.

Esse dado reforça a continuidade do processo de concentração de terras, mantendo inalterado o padrão histórico do Brasil, no qual grandes propriedades seguem expandindo enquanto os pequenos produtores enfrentam desafios para manter suas atividades.

Mesmo com a diminuição no número de estabelecimentos familiares, eles continuam sendo os principais responsáveis pela ocupação da mão de obra no setor. Em 2017, 15,1 milhões de pessoas estavam empregadas na agropecuária, sendo 10,1 milhões na agricultura familiar e 4,9 milhões na não familiar. Dados que reforçam a importância da agricultura familiar para a geração de emprego e a estrutura socioeconômica do meio rural brasileiro.

Contudo, como apontou Celso Furtado, a abundância de terras no Brasil, aliada ao reduzido contingente de população livre, foi determinante para a consolidação do latifúndio monocultor escravista. Esse modelo, por sua vez, resultou em um processo contínuo de concentração fundiária, posteriormente reforçado pela Lei de Terras de 1850, que restringiu o acesso à terra, favorecendo grandes proprietários e aprofundando a exclusão dos pequenos produtores.

Dessa forma, consolidou-se uma agricultura mercantil exportadora, que ao longo da história brasileira subordinou a agricultura de subsistência e impôs severas limitações aos pequenos produtores. O domínio da terra tornou-se sinônimo de poder político e econômico, perpetuando relações sociais marcadas pelo patrimonialismo, pela submissão e pela marginalização daqueles que ficaram à margem desse sistema excludente.

Apesar do corte de mais de 50% do orçamento destinado para a realização do Censo Agropecuário de 2017, no governo de Jair Bolsonaro, as informações do documento divulgado pelo IBGE contribuem para evidenciar a manutenção do processo de concentração fundiária: apenas 1,0% do total concentrava 47,6% da área ocupada pelos estabelecimentos.

AGRICULTURA E CRISE CLIMÁTICA

No estágio neoliberal, a apropriação capitalista da natureza tornou-se uma estratégia central para a reprodução do capitalismo moderno. Esse processo ocorre por meio da complexa interação entre Estado e empresas, em um cenário dinâmico onde multinacionais, bancos, fundos de investimento e outros atores econômicos exercem influência direta sobre as instituições nacionais e internacionais. O objetivo é claro: alinha-las a seus interesses econômicos, garantindo que decisões públicas favoreçam a lógica do mercado em detrimento do bem comum. Nesse jogo desigual, o interesse das sociedades é sistematicamente silenciado, sem verdadeira representação no sistema político. O espaço democrático, capturado pelo poder corporativo, transforma-se em uma arena onde predominam os interesses dos grandes agentes econômicos, aprofundando desigualdades e consolidando a subordinação da natureza e da coletividade ao capital. 

Observa-se, portanto, uma crescente privatização da democracia, à medida que grandes empresas passam a controlar os principais mecanismos do processo democrático. Eleições, decisões parlamentares, programas de governo, obras públicas e até mesmo o poder judiciário tornam-se instrumentos moldados para atender aos interesses econômicos dessa elite corporativa. O resultado é a consolidação de um sistema que favorece a concentração de riqueza e poder, aprofundando desigualdades e marginalizando grande parte da sociedade. O interesse público é relegado a segundo plano, enquanto a lógica do mercado domina as decisões políticas, perpetuando um modelo que gera sociedades cada vez mais desiguais e vulneráveis.

Essa captura dos espaços democráticos pelos interesses econômicos se reflete diretamente na apropriação da natureza, que no modelo neoliberal não é vista como um bem comum, mas como um ativo a ser explorado. O avanço da fronteira agrícola, a expansão da mineração, a privatização de recursos hídricos e a mercantilização dos ecossistemas são expressões desse processo, onde a lógica do lucro imediato se sobrepõe à preservação ambiental e ao equilíbrio socioecológico.

A crise climática é, em grande parte, um reflexo dessa apropriação predatória. As emissões de gases de efeito estufa, impulsionadas pelo desmatamento, pela pecuária intensiva e pela queima de combustíveis fósseis, são tratadas como externalidades do sistema econômico, quando, na realidade, deveriam estar no centro das decisões políticas e estratégicas globais. Contudo, os mecanismos de mercado, como os créditos de carbono, frequentemente servem mais para gerar novas oportunidades de lucro do que para enfrentar efetivamente as causas da degradação ambiental.

Ao transformar florestas, rios e até a atmosfera em mercadorias negociáveis, os grandes agentes econômicos não apenas perpetuam a exploração dos recursos naturais, mas também reforçam a desigualdade climática. As populações mais vulneráveis – camponeses, povos indígenas e comunidades tradicionais – são as primeiras a sofrer os impactos da crise ambiental, enquanto aqueles que lucram com a destruição seguem expandindo seus negócios sob a proteção de políticas permissivas e acordos internacionais frágeis.

Diante desse cenário, é fundamental questionar quem se beneficia da crise climática e quem paga por seus impactos. O combate ao colapso ambiental não pode ser delegado exclusivamente ao mercado; é preciso repensar a estrutura econômica que sustenta essa destruição e construir alternativas baseadas na justiça climática, na governança coletiva dos bens comuns e na subordinação da economia aos limites ecológicos do planeta.

Dado os desafios impostos pelas mudanças climáticas, para além da crítica ao modelo de produção no campo, é imprescindível desenvolver estratégias que não apenas enfrentam os problemas ambientais, mas que também criem oportunidades para as populações do rural brasileiro, promovendo um desenvolvimento justo e sustentável.

RECURSOS HÍDRICOS

O Brasil é atravessado por 12 grandes regiões hidrográficas que não apenas moldam a geografia das águas brasileiras, mas também desempenham um papel essencial no desenvolvimento agrícola, na geração de energia e no abastecimento humano, na sustentação da vida em geral. Essas regiões hidrográficas, como a Amazônica, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná, entre outras, abrigam cerca de 12% de toda a água doce disponível no planeta, consolidando o país como uma das nações mais ricas em recursos hídricos. 

Em 2023, 2% do território brasileiro esteve coberto por água, o equivalente a 18,3 milhões de hectares, uma área comparável a duas vezes o território de Portugal. Entretanto,  houve uma redução de 1,5% na superfície de água do país em relação à média histórica (1985-2023). Todos os meses do ano de 2023, incluindo os meses da estação chuvosa, apresentaram redução no volume de água em comparação ao ano de 2022, refletindo uma preocupante tendência de diminuição dos recursos hídricos.

De acordo com dados do MapBiomas, desde 1985 a superfície de água dos corpos hídricos naturais no Brasil sofreu uma redução de aproximadamente 30,8%, o que equivale a uma perda de 6,3 milhões de hectares. Esse processo de diminuição tem se intensificado desde o ano 2000, com uma queda ainda mais acentuada a partir de 2010, impactando significativamente os biomas brasileiros.

Figura 1. Série histórica de superfície de água no Brasil, 2023, MapBiomas Água

Em 2023, a superfície de água no Brasil ficou abaixo da média histórica em mais de um terço dos estados, com destaque para Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que perderam, respectivamente, 274 mil e 263 mil hectares de superfície de água. A situação se repetiu em mais da metade dos municípios brasileiros, sendo Corumbá um dos mais afetados, com uma redução de 261 mil hectares da sua superfície de água. Além disso, mais da metade das bacias e sub-bacias hidrográficas do país também apresentaram níveis inferiores à média histórica, evidenciando a amplitude e a gravidade desse fenômeno.

Biomas historicamente ricos em recursos hídricos, como a Amazônia e o Pantanal, têm enfrentado severas reduções na superfície de água. Em 2023, a Amazônia registrou uma perda de 3,3 milhões de hectares, consequência direta da seca extrema que atingiu a região. Já o Pantanal, ao longo de toda a série histórica (1985-2023), foi o bioma mais afetado, apresentando uma redução impressionante de 61% em sua superfície de água, como ilustrado nas figuras a seguir:

Figura 2. Superfície De Água Mensal Nos Biomas, MapBiomas Água, 2023.

Figura 3. Redução da área alagada e do tempo de permanência da água no Pantanal, MapBiomas Água, 2023.

As mudanças climáticas estão profundamente conectadas à crise hídrica global, exacerbando os desafios de disponibilidade, qualidade e gestão da água em diversas regiões do mundo. Essa conexão se dá por meio de mecanismos interligados, como alterações no ciclo hidrológico, que modificam padrões de precipitação e podem resultar tanto em secas prolongadas quanto em chuvas intensas e irregulares, muitas vezes acompanhadas por inundações. Aumento da evaporação de rios, lagos e reservatórios, reduzindo a disponibilidade de água doce. Derretimento de glaciares e redução da neve permanente, impactando regiões que dependem dessas formações como fontes essenciais de água, resultando em uma perda gradual e irreversível dessas reservas. 

A crise hídrica não ocorre de forma isolada. Pelo contrário, ela desencadeia um efeito cascata que amplifica outros problemas relacionados às mudanças climáticas, como a perda de biodiversidade, conflitos por recursos e deslocamentos populacionais. Segundo projeções da UNESCO (2023), 2,4 bilhões de pessoas podem ser afetadas pela crise hídrica até o ano de 2050, agravando ainda mais os impactos sociais, econômicos e ambientais associados às mudanças climáticas. 

Entre as principais consequências da escassez de água, destacam-se os impactos sociais, como o aumento da insegurança alimentar e hídrica, intensificação das desigualdades sociais e migração forçada de populações vulneráveis, denominadas como migrantes climáticos. Impactos ambientais, como a degradação de ecossistemas aquáticos, perda de biodiversidade, comprometimento de aquíferos subterrâneos e intensificação de eventos extremos, como secas prolongadas e desertificação de áreas férteis. E, consequentemente, impactos econômicos, com a redução na produtividade agrícola, elevação dos custos de produção, prejuízos à indústria e ao comércio, além de perdas significativas no setor de energia, especialmente nas regiões que dependem de hidrelétricas. No Brasil, por exemplo, 64% da eletricidade é produzida por cerca de 1,5 mil usinas hidrelétricas, de acordo com o Ministério de Minas e Energia. 

A crise hídrica não é apenas um problema local, mas uma questão global que exige ações urgentes e coordenadas. Políticas públicas voltadas para a gestão eficiente dos recursos hídricos, investimentos em infraestrutura sustentável e tecnologias de reaproveitamento, além da conscientização coletiva, são fundamentais para mitigar esses impactos e garantir o acesso equitativo à água para as gerações atuais e futuras. De acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), cerca de 50% da água retirada dos corpos d’água brasileiros é destinada à irrigação, o que evidencia o impacto significativo da agricultura irrigada sobre os recursos hídricos.  

Ainda de acordo com os dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2017), o total da área irrigada passou de 4,5 para 6,69 milhões de hectares entre 2006 e 2017, aumento de 47,6%. Neste período, houve aumento de 52,6% no número de estabelecimentos que fizeram uso de irrigação.

Figura 4: Utilização de irrigação no Brasil, 2006/2017, IBGE, 2017.

Na economia brasileira, a água é tratada como um recurso escasso, isso porque embora o país possua as maiores reservas de água doce do planeta, elas são distribuídas geograficamente de maneira desigual. É na região Norte do país que há a maior concentração, especialmente por conta da Bacia do Rio Amazonas e do Aquífero de Alter do Chão. Além disso, a região também possui menor densidade populacional, já que grande parte da população brasileira concentra-se nas regiões Nordeste e Sudeste, as quais, historicamente, sofrem com secas e escassez do recurso.

A água é um dos pilares fundamentais da agropecuária brasileira. Seja para irrigação, dessedentação animal ou manutenção dos ecossistemas que sustentam a produção agrícola, a disponibilidade hídrica define a capacidade do país de garantir alimentos para sua população e para os mercados internacionais. No entanto, os impactos da crise climática sobre os recursos hídricos ameaçam a segurança alimentar do Brasil, tornando urgente a adoção de estratégias para evitar um colapso produtivo no setor.

A segurança alimentar, portanto, está diretamente ligada ao acesso à água. Culturas como soja, milho, arroz e feijão, essenciais para a economia e para o consumo interno, precisam de um suprimento regular e previsível de água para manter seus níveis de produtividade. Qualquer alteração nesse equilíbrio, seja por escassez ou excesso de água, pode impactar a oferta de alimentos e elevar os preços, afetando toda a cadeia de abastecimento.

Os impactos da crise climática sobre os recursos hídricos já são visíveis e tendem a se intensificar nos próximos anos. A redução dos níveis de chuvas e a irregularidade no regime hídrico diminuem a disponibilidade de água para irrigação e para a recarga dos aquíferos, afetando a produtividade agrícola. Ondas de calor e tempestades severas comprometem lavouras e rebanhos, aumentando as perdas no campo. A escassez hídrica pode acelerar processos de degradação do solo, tornando áreas produtivas inviáveis para a agricultura. Com menos água disponível, produtores precisam recorrer a sistemas de irrigação mais caros, o que pode inviabilizar a produção de pequenos e médios agricultores. A falta de água afeta polinizadores, a fertilidade do solo e a regeneração das florestas que auxiliam na regulação climática.

Se esses desafios não forem enfrentados com políticas eficazes e mudanças estruturais no setor agropecuário, o Brasil pode enfrentar um cenário de insegurança alimentar, com queda na produção, aumento nos preços dos alimentos e impactos socioeconômicos graves, especialmente para as populações mais vulneráveis.

A crise climática não é um problema futuro — ela já compromete a agropecuária e a segurança hídrica do Brasil, escancarando as fragilidades de um modelo agrícola baseado na expansão predatória e no uso intensivo de recursos naturais. Ainda assim, as respostas do setor e do poder público seguem insuficientes, presas a soluções paliativas que ignoram a raiz do problema: um sistema produtivo que privilegia o agronegócio exportador em detrimento da sustentabilidade e da soberania alimentar.

Para evitar um colapso na oferta de alimentos, não basta mitigar danos — é preciso questionar a lógica produtiva vigente, que transforma água e solo em meras commodities e desconsidera os impactos ambientais e sociais dessa exploração. Reduzir a dependência de grandes volumes de água, garantir a recuperação de nascentes e bacias hidrográficas, e fortalecer a agroecologia e a agricultura familiar são medidas essenciais para construir um modelo agrícola verdadeiramente resiliente.

Sem políticas públicas estruturantes e um rompimento com a lógica do lucro acima do equilíbrio ambiental, o Brasil seguirá refém de secas cada vez mais severas, crises alimentares e desigualdade no acesso à água e à terra. O futuro da produção de alimentos não será garantido por tecnologia e eficiência sozinhas, mas por uma mudança de paradigma que coloque a sustentabilidade e a justiça socioambiental no centro das decisões.

AUSTERIDADE EM TEMPOS DE CRISE: A CONTRADIÇÃO DA POLÍTICA ECONÔMICA DE HADDAD

O Brasil enfrenta desafios estruturais profundos que exigem investimentos massivos em infraestrutura, políticas sociais e desenvolvimento sustentável. No entanto, a política econômica do governo Lula, sob a liderança de Fernando Haddad, tem seguido uma lógica austericida, priorizando o ajuste fiscal e a responsabilidade com o mercado financeiro em detrimento das urgências sociais e ambientais do país. Em um momento em que o Brasil precisa reduzir desigualdades, fortalecer sua base produtiva e enfrentar os impactos da crise climática, a opção pela austeridade fiscal soa como um erro estratégico que pode comprometer o futuro do desenvolvimento nacional.

Haddad tem defendido uma política de controle de gastos, buscando manter o equilíbrio fiscal e tranquilizar os investidores. O novo arcabouço fiscal, aprovado em 2023, substituiu o teto de gastos, mas manteve a lógica de contenção orçamentária, impondo limites rígidos para investimentos públicos e subordinando o crescimento do país à arrecadação estatal. Esse modelo impõe restrições severas à ampliação de políticas públicas essenciais, como a assistência técnica rural, a reforma agrária e os investimentos em adaptação climática e infraestrutura hídrica, que são fundamentais para garantir um futuro mais equilibrado e sustentável.

O paradoxo dessa política é evidente: enquanto o governo busca reconstruir programas sociais e reverter os retrocessos da gestão anterior, a obsessão pelo equilíbrio fiscal impede que essas políticas avancem na escala necessária. A crise climática exige planos robustos de investimento em resiliência hídrica, transição energética e sustentabilidade agrícola, mas os cortes orçamentários e o controle rígido dos gastos impedem que o Estado exerça seu papel estratégico na condução dessas transformações. O resultado é um governo que se vê preso entre a necessidade de cumprir promessas eleitorais e a tentativa de manter credibilidade junto ao mercado financeiro, acabando por adotar medidas tímidas e insuficientes diante da dimensão dos desafios nacionais.

A insistência na austeridade também perpetua um ciclo de dependência do capital privado para projetos estratégicos, muitas vezes em condições desfavoráveis para o Estado. Setores como infraestrutura verde, saneamento e logística rural acabam sendo entregues a concessões e parcerias público-privadas, nas quais os interesses do lucro se sobrepõem às necessidades coletivas. Esse modelo aprofunda a desigualdade no acesso a serviços essenciais e enfraquece a soberania do país sobre suas políticas de desenvolvimento.

Se o governo Lula realmente deseja reconstruir o Brasil e enfrentar os desafios do século XXI, precisa romper com essa lógica de contenção fiscal e assumir um papel mais ativo na transformação da economia. O desenvolvimento sustentável exige investimentos estratégicos, não cortes orçamentários. A política econômica não pode continuar refém da lógica do mercado financeiro, mas sim estar a serviço da sociedade e do enfrentamento das desigualdades. Sem essa mudança de rumo, o Brasil corre o risco de perder mais uma década estagnado, assistindo à degradação ambiental e social enquanto se mantém preso a uma agenda econômica que beneficia poucos e compromete o futuro da maioria.

O GOVERNO LULA E A QUESTÃO AGRÁRIA

O governo Lula voltou ao poder com o discurso de reconstrução e de retomada das políticas sociais e ambientais desmontadas nos últimos anos. No entanto, apesar de avanços pontuais, o Brasil segue sem medidas estruturantes para enfrentar os desafios da crise climática, da segurança hídrica e da soberania alimentar. Enquanto o governo mantém acenos ao agronegócio, a estrutura produtiva continua baseada na concentração de terras, na degradação ambiental e na exportação de commodities, reforçando um modelo que beneficia poucos e fragiliza a resiliência do país diante das mudanças climáticas.

Embora o governo tenha anunciado programas para fortalecer a agricultura familiar e a agroecologia, essas iniciativas ainda são limitadas em alcance e orçamento. Enquanto isso, o modelo do agronegócio predatório segue intacto, com incentivos estatais, crédito subsidiado e uma bancada ruralista que influencia diretamente as decisões do governo. A aprovação de novas áreas para exploração agrícola na Amazônia e no Cerrado, por exemplo, contradiz a retórica oficial de preservação ambiental e reforça a lógica da destruição.

A crise hídrica e os impactos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola também não receberam a devida atenção. Mesmo diante de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, como secas prolongadas e inundações devastadoras, o governo ainda não implementou um plano nacional robusto de adaptação climática. Falta um esforço concreto para reverter o colapso dos recursos hídricos e criar estratégias eficazes de gestão da água, em vez de apenas reagir a desastres já instalados.

A política ambiental do governo segue marcada por um paradoxo: ao mesmo tempo em que defende a preservação da Amazônia e dos biomas ameaçados, mantém compromissos com setores do agronegócio que impulsionam o desmatamento, o uso indiscriminado de água e a destruição dos solos. O Plano Safra, por exemplo, destinou bilhões ao setor agrícola, mas a maior parte dos recursos ainda beneficia grandes produtores voltados para exportação, enquanto a agricultura familiar, que efetivamente alimenta a população, recebe uma fatia menor do financiamento.

Além disso, o governo não rompeu com a lógica de compensações ambientais frágeis, como os créditos de carbono, que muitas vezes servem apenas para “maquiar” a destruição ambiental sem enfrentar as causas estruturais da crise climática. Esse modelo favorece grandes corporações e fundos de investimento, mas não garante uma transição ecológica real nem justiça ambiental para as populações mais afetadas pelas mudanças climáticas.

O governo Lula tem duas opções: continuar fazendo concessões ao agronegócio e lidando de forma superficial com a crise climática, ou liderar uma transformação estrutural, enfrentando o problema de frente e colocando a sustentabilidade no centro da política econômica e agrícola do país. Sem essa mudança de rumo, o Brasil seguirá refém de um modelo que destrói sua biodiversidade, agrava a insegurança hídrica e compromete a soberania alimentar, beneficiando apenas os mesmos grupos de sempre. Se o governo quer de fato reconstruir o Brasil, precisa ir além do discurso e romper com a lógica colonial extrativista que há séculos define o destino do país.

Para consolidar um Brasil sustentável e resiliente, é necessário adotar medidas urgentes que enfrentem a crise ambiental e a desigualdade no campo. A política agrícola deve ser revista para priorizar a produção sustentável e a redistribuição de terras, reduzindo a dependência de monoculturas e do modelo exportador de commodities. Ao mesmo tempo, é essencial estabelecer uma regulação mais rígida sobre o uso da água na agropecuária, com políticas voltadas para a preservação dos aquíferos e nascentes, garantindo a segurança hídrica a longo prazo.

Além disso, o investimento massivo em agroecologia e agricultura familiar precisa ser uma realidade, assegurando que políticas de financiamento e assistência técnica sejam ampliadas e estruturadas para fortalecer esse setor essencial à segurança alimentar do país. Paralelamente, a criação de um plano nacional de adaptação climática se torna indispensável, com medidas concretas para mitigar os impactos sobre a produção de alimentos e o abastecimento de água.

A retomada da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER) é uma necessidade urgente para o desenvolvimento rural sustentável no Brasil. Nos últimos anos, a assistência técnica rural sofreu desmonte e negligência, deixando milhões de pequenos produtores desamparados em um momento crítico, marcado pelos impactos crescentes da crise climática e pela intensificação da concentração fundiária. Sem políticas públicas estruturadas que garantam suporte técnico e acesso ao conhecimento, a agricultura familiar enfrenta dificuldades cada vez maiores para se manter produtiva, sustentável e competitiva diante do modelo agroexportador baseado na monocultura e na exploração intensiva dos recursos naturais.

A assistência técnica rural tem um papel fundamental na difusão de práticas agroecológicas, no manejo sustentável dos solos e da água e na adaptação às mudanças climáticas. Com orientação adequada, pequenos produtores podem melhorar sua produtividade sem recorrer ao desmatamento ou ao uso excessivo de insumos químicos, garantindo a preservação ambiental e a segurança alimentar das populações locais. Além disso, políticas de extensão rural fortalecem a organização comunitária, o cooperativismo e o acesso a mercados, permitindo que agricultores familiares tenham maior autonomia e consigam competir em melhores condições dentro da economia nacional.

O desmonte da assistência técnica nos últimos anos resultou em um enfraquecimento da agricultura familiar e em um avanço ainda maior da lógica do agronegócio, que recebe incentivos milionários enquanto os pequenos produtores são deixados à própria sorte. Esse desequilíbrio não apenas aprofunda a desigualdade no campo, mas também compromete a segurança alimentar do país, já que a maior parte dos alimentos que abastecem a população brasileira vem da agricultura familiar, e não do agronegócio voltado à exportação. Sem assistência técnica, milhões de agricultores perdem acesso a tecnologias mais sustentáveis, tornando-se mais vulneráveis à degradação do solo, ao uso ineficiente da água e às oscilações climáticas.

O governo precisa ir além de discursos e reconstruir uma política nacional sólida de assistência técnica rural, garantindo financiamento adequado, equipes capacitadas e presença constante nos territórios. A retomada da PNATER não pode ser apenas um aceno simbólico, mas um compromisso real com um modelo de desenvolvimento rural que seja socialmente justo e ambientalmente responsável. Enquanto a assistência técnica continuar sendo tratada como secundária, o Brasil seguirá refém de um modelo agrícola excludente, destrutivo e insustentável, que compromete não apenas o presente dos agricultores familiares, mas o próprio futuro da produção de alimentos e da preservação ambiental no país.

Por fim, é fundamental que o governo enfrente de maneira real e decisiva o poder econômico do agronegócio, impedindo que as decisões ambientais e climáticas continuem sendo reféns dos interesses desse setor. Somente com mudanças estruturais será possível garantir um futuro sustentável e justo para o Brasil.

Para situar a “esquerda governista” na realidade:

Neste vídeo, Patrícia Valim, Professora do Departamento de História e do PPGH/UFBA, faz uma análise crítica sobre a forma como o sociólogo Jessé Souza adota uma abordagem moralista para explicar as desigualdades sociais. Para ela, essa perspectiva tende a reduzir problemas estruturais a falhas individuais, desconsiderando os fatores históricos, econômicos e políticos que moldam a sociedade.

Ela argumenta que essa visão simplista não apenas distorce a realidade, mas também reforça discursos que culpabilizam os mais pobres por sua condição, desviando o foco das verdadeiras raízes da desigualdade no Brasil. Para a professora, é essencial uma sociologia que vá além da moralização dos problemas sociais, compreendendo as estruturas de poder e os mecanismos que perpetuam privilégios e exclusões.

Seu pensamento desafia narrativas tradicionais e propõe um olhar mais profundo sobre as dinâmicas sociais, convidando à reflexão sobre como construímos conhecimento e sobre quem se beneficia das interpretações dominantes da realidade brasileira.