AS BRUXAS DO SÉCULO XXI: COMUNIDADES TRADICIONAIS, NEOEXTRATIVISMO E A PERSISTENTE CAÇA AOS QUE DEFENDEM A TERRA

A relação entre o ser humano e o mundo natural nem sempre foi marcada pelo distanciamento e pela exploração sistemática que caracteriza a sociedade contemporânea. Durante séculos, a humanidade compreendeu-se como parte integrante de um cosmos vivo, impregnado de significado e propósito, que em tudo possuía uma força, um poder oculto. A concepção animista da natureza embasava uma visão mágica do mundo. Os espaços naturais se entrelaçavam com a vida humana de maneira orgânica e sagrada; estabelecia-se com as águas, rochas, animais, árvores, fungos, relações sociais holísticas fundadas na inseparabilidade matéria/espírito. A natureza tinha alma. 

Essa visão de mundo, profundamente enraizada na filosofia aristotélica e na tradição escolástica medieval, começou a ser desmantelada no século XVII por um pensamento que revolucionaria para sempre a forma como o homem se relaciona com a natureza: o mecanicismo cartesiano. As consequências dessa virada filosófica são profundas e multifacetadas. Em primeiro lugar, opera-se um desencantamento do mundo. A natureza, que antes era mãe, livro sagrado ou organismo vivo, perde qualquer vestígio de subjetividade. Torna-se matéria inerte, extensão desprovida de alma, propósito ou valor intrínseco. Onde antes se via um cosmos cheio de correspondências e significados, passa a ver-se apenas partículas em movimento.

Em segundo lugar, estabelece-se uma nova hierarquia epistemológica. Se a natureza é apenas matéria, o conhecimento verdadeiro não pode vir dos sentidos – que nos mostram cores, cheiros e sabores ilusórios, mas exclusivamente da razão matemática. O real identifica-se com o mensurável, com aquilo que pode ser expresso em equações. O homem conhece a natureza de fora, como um engenheiro que estuda o funcionamento de uma máquina da qual não faz parte. Por fim, e talvez mais importante, instaura-se uma relação de dominação. Se a natureza não tem alma, se é apenas um reservatório de recursos, o homem não apenas pode, como deve, tornar-se seu “mestre e possuidor”. A técnica e a ciência modernas nascem sob o signo desse projeto: conhecer para dominar, dominar para explorar, explorar para satisfazer as necessidades e os desejos humanos.

Ao reduzir a natureza a objeto, a recurso disponível, a humanidade sentiu-se autorizada a explorá-la sem limites, esquecendo-se de que, apesar de toda a técnica, ainda depende dos ciclos ecológicos para sobreviver. A ideia de que o homem é o “senhor” da natureza ocultou a verdade mais elementar: somos parte dela, e ao destruí-la, destruímos as condições de nossa própria existência. Ao transformar a natureza em máquina inerte e desprovida de alma, a revolução cartesiana não poupou o corpo humano. Pelo contrário, foi precisamente a partir da mecanização do corpo que Descartes fundamentou sua teoria do autocontrole e da soberania da alma sobre a matéria. Se a natureza tornou-se objeto de dominação, o corpo – essa porção da natureza que nos é mais íntima – tornou-se a primeira e mais imediata instância de aplicação desse projeto de controle.

A concepção cartesiana do corpo como máquina não apenas separou o homem da natureza exterior, mas também instaurou uma nova relação do homem consigo mesmo, particularmente com seu próprio corpo. Essa mecanização, longe de permanecer no âmbito da especulação filosófica, materializou-se historicamente na disciplina do trabalho, na organização fabril, na educação dos corpos e, contemporaneamente, nas múltiplas formas de otimização e performance que caracterizam a sociedade atual. A filosofia de Descartes opera uma dupla ruptura: externamente, separa o homem da natureza ao reduzir esta última a res extensa, matéria inerte desprovida de alma e propósito; internamente, separa a alma do corpo, estabelecendo entre ambos uma relação hierárquica de comando e subordinação.

O corpo-máquina não quer nada, não deseja nada, não tende a nenhum fim. As sensações de fome, sede, prazer ou dor não passam de “confusas percepções” na alma, causadas por movimentos corporais. Cabe à razão interpretar corretamente esses sinais e decidir se devem ser atendidos ou ignorados. O autocontrole, nesse quadro, é precisamente a capacidade da alma de exercer sua soberania ilimitada sobre essa máquina corporal, recusando-se a ser escravizada por suas solicitações mecânicas. No entanto, o que era inicialmente uma teoria filosófica sobre a liberdade humana rapidamente se transformou, ao longo dos séculos seguintes, em um programa de dominação e disciplina. Se o corpo é uma máquina, ele pode ser otimizado, regulado, consertado e, sobretudo, posto para funcionar de acordo com interesses que transcendem o indivíduo.

A filosofia de Descartes era, em sua intenção original, também uma busca por respostas em um mundo em colapso de velhas certezas. Seu impacto prático foi mediado por inúmeras outras invenções, disputas e contingências históricas. O mecanicismo forneceu a linguagem e a legitimidade para uma transformação que já estava em curso devido a forças econômicas e sociais. O projeto cartesiano encontrou no capitalismo industrial seu campo de realização mais completo. O filósofo e historiador Michel Foucault, em suas análises sobre o poder disciplinar, demonstrou como os séculos XVII e XVIII assistiram à descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. 

A fábrica moderna não poderia existir sem a concepção do corpo como máquina. O operário não é mais um artesão que domina todo o processo produtivo, imprimindo sua marca pessoal em cada peça; ele torna-se um apêndice da máquina, um elemento intercambiável na linha de montagem. Seu corpo deve funcionar com a regularidade de um relógio: iniciar o trabalho no mesmo horário, executar os mesmos movimentos centenas de vezes por dia, interromper-se no mesmo instante para a pausa regulamentar.

Essa mecanização do trabalho operário implicou uma progressiva alienação, termo que Marx utilizaria para descrever o estranhamento do trabalhador em relação ao produto de seu trabalho e a si mesmo. O corpo do operário não lhe pertence mais durante a jornada de trabalho; ele é alugado, posto a serviço de uma produção que não controla e cujos frutos não lhe pertencem. Seu corpo-máquina é avaliado por sua eficiência, por sua capacidade de produzir mais em menos tempo, por sua docilidade às ordens da gerência. A cronometragem dos movimentos, estudada por Taylor no início do século XX, representa o ápice dessa concepção. Trata-se de decompor o trabalho humano em gestos elementares, medir o tempo necessário para cada um deles e prescrever o método mais eficiente, como se ajustasse as engrenagens de um mecanismo. O corpo do trabalhador é reduzido a uma soma de movimentos padronizados, despojado de qualquer criatividade ou singularidade.

A revolução cartesiana se desenvolveu em consonância com transformações materiais profundas que reconfiguraram as relações de propriedade, trabalho e gênero na Europa moderna. A mecanização do mundo natural e do corpo humano estabeleceu as bases filosóficas para a exploração sem precedentes que caracterizaria o capitalismo, e se materializou historicamente em dois processos indissociáveis: a expropriação das terras comunais, que Marx denominou como “acumulação primitiva”, e a subordinação das mulheres, cuja histórica identificação com a natureza as tornou alvos privilegiados das novas formas de controle. 

CERCAMENTOS E ACUMULAÇÃO PRIMITIVA: A TERRA MÃE COMO MÁQUINA A SER EXPLORADA

Karl Marx, no capítulo XXIV de O Capital, livro 1, dedicado à “A assim chamada acumulação primitiva”, descreve o processo violento que separou os produtores diretos dos meios de produção, criando as condições necessárias para o desenvolvimento do capitalismo. Na Inglaterra, entre os séculos XV e XVIII, os chamados enclosures (cercamentos) transformaram radicalmente a paisagem e as relações sociais.

Antes dos cercamentos, vastas extensões de terra eram de uso comunal. Camponeses tinham direito a pastar seus animais, coletar lenha, caçar e cultivar pequenos lotes em terras que não pertenciam a ninguém individualmente, mas eram geridas coletivamente pela comunidade. Essa forma de organização, herdeira de tradições medievais, implicava uma relação com a terra que não era meramente instrumental: a terra era fonte de sustento, mas também espaço de sociabilidade, de transmissão de saberes, de reprodução da vida comunitária.

Os cercamentos consistiram na apropriação privada dessas terras comunais pela nobreza e pela burguesia nascente, cercando-as e transformando-as em propriedade privada exclusiva. O gado ovino, cuja lã alimentava a nascente indústria têxtil, substituiu os camponeses. Milhares de pessoas foram expulsas das terras que habitavam há gerações, tornando-se vadios, mendigos ou, finalmente, trabalhadores assalariados nas cidades industriais.

É fundamental compreender que esse processo não foi meramente econômico, mas profundamente ontológico, ou seja, transformou o próprio ser da terra. A terra comunal era viva, era mãe, era comunidade. A terra cercada, privatizada, tornou-se mercadoria, meio de produção, máquina de gerar lucro. A mesma operação filosófica que Descartes realizava no plano do pensamento – reduzir a natureza a res extensa, a matéria inerte disponível para dominação – realizava-se, no plano material, pelos cercamentos. A terra deixava de ser sujeito de relações comunitárias e tornava-se objeto de exploração capitalista.

A violência dos cercamentos não foi apenas contra as pessoas, mas contra uma forma de vida. Os saberes camponeses sobre os ciclos da natureza, sobre o manejo coletivo dos recursos, sobre as plantas medicinais e os ritmos da terra, tudo isso foi desqualificado como atraso, ignorância, superstição. A ciência nascente, herdeira do mecanicismo cartesiano, oferecia a justificativa: a natureza é máquina, e máquinas não têm saberes a transmitir; têm apenas leis a serem descobertas e exploradas.

Se a terra foi violentamente expropriada e transformada em mercadoria, as mulheres sofreram um processo análogo, mas com especificidades cruciais. A associação entre mulher e natureza é um dos temas mais antigos e persistentes da cultura ocidental. A filósofa ecológica Carolyn Merchant, em sua obra fundamental A Morte da Natureza, demonstra como, antes da Revolução Científica, predominava uma imagem orgânica do cosmos frequentemente associada ao feminino: a Terra era mãe, nutriz, provedora. Havia, nessa associação, um certo limite implícito à exploração: não se viola impunemente o corpo da mãe.

A Revolução Científica e o mecanicismo cartesiano operaram uma dupla transformação dessa imagem. Por um lado, a natureza-mãe foi substituída pela natureza-máquina, autorizando sua exploração sem culpa. Por outro lado, a associação entre mulher e natureza, longe de desaparecer, foi reconfigurada como justificativa para a dominação feminina. Se as mulheres são “mais próximas da natureza”,  seja por sua capacidade reprodutiva, seja por seu histórico envolvimento com atividades ligadas à terra e ao corpo, então, elas também devem ser controladas, disciplinadas e dominadas. A mesma razão que se propunha a dominar a natureza exterior propunha-se a dominar a natureza interior, e as mulheres, identificadas com essa natureza, tornaram-se objetos privilegiados desse domínio.

O exemplo mais brutal dessa articulação entre a dominação da natureza e o controle das mulheres é a caça às bruxas que assolou a Europa entre os séculos XV e XVII, atingindo seu ápice justamente no período de consolidação do capitalismo e da ciência moderna. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas, a grande maioria mulheres, foram executadas acusadas de bruxaria. Essas mulheres eram, frequentemente, camponesas pobres, viúvas, parteiras, curandeiras, herbalistas,  mulheres que detinham saberes tradicionais sobre o corpo, sobre as plantas, sobre os ciclos da natureza. Eram mulheres que, de certa forma, “controlavam” a natureza: sabiam quais ervas induziam o aborto, quais aliviavam a dor do parto, quais curavam feridas, quais provocavam sonhos.

A emergência da medicina profissional, exclusivamente masculina e formada nas universidades, viu nessas mulheres uma concorrência perigosa. O saber feminino, transmitido oralmente de geração em geração, foi sistematicamente desqualificado como superstição, feitiçaria, pacto com o diabo. Ao mesmo tempo, a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica disputavam o controle das almas e dos corpos, e a figura da bruxa serviu perfeitamente para demonizar qualquer forma de resistência à nova ordem. A caça às bruxas foi, portanto, um processo de expropriação de saberes análogo à expropriação das terras comunais. Assim como os camponeses foram expulsos da terra que lhes garantia a subsistência, as mulheres foram expulsas do corpo, do conhecimento sobre seu próprio corpo, sobre a reprodução, sobre a saúde. 

É importante notar que as acusações de bruxaria frequentemente recaíam sobre mulheres que resistiam aos cercamentos. Camponesas que protestavam contra a expropriação de terras comunais, que coletavam lenha em florestas recém-cercadas, que mantinham vivas as práticas comunitárias, eram particularmente visadas. A bruxa era, nesse sentido, a figura da resistência: resistência à nova ordem econômica que privatizava o comum, resistência à nova ordem científica que desqualificava saberes ancestrais, resistência à nova ordem religiosa que disciplinava corpos e almas. Os voos noturnos, os encontros no sabá, os pactos com o diabo, tudo isso era, aos olhos dos perseguidores, a prova de que essas mulheres estavam em conluio com forças que desafiavam o controle racional. Mas podemos ler esses mesmos elementos como metáforas de uma liberdade que precisava ser aniquilada: a liberdade de circular fora dos espaços permitidos, de se reunir fora do controle masculino, de possuir saberes que escapavam à nova ciência.

A relação entre a mecanização da natureza e o controle das mulheres é uma relação estrutural e orgânica. Ambas são faces do mesmo processo histórico: a instauração de uma ordem patriarcal-capitalista que transforma tudo em recurso, tudo em objeto, tudo em mercadoria. A terra comunal, viva e nutriz, precisava ser cercada, privatizada, transformada em máquina de produzir lucro. O corpo feminino, com seus ciclos, seus saberes, sua capacidade de gerar vida, precisava ser controlado, medicalizado, transformado em máquina de reproduzir a força de trabalho e de consumir mercadorias. Em ambos os casos, a violência foi justificada por uma ideologia que naturalizava a submissão: assim como a natureza deveria ser dominada pelo homem, a mulher, sua suposta extensão, também deveria ser alvo desse mesmo controle. A filosofia cartesiana forneceu as ferramentas conceituais para essa dupla sujeição.

Ao separar radicalmente mente e corpo, razão e emoção, cultura e natureza, Descartes não apenas estabeleceu a soberania da alma racional sobre o corpo-máquina, mas também, implicitamente, a soberania do homem (associado à razão, à cultura, ao espírito) sobre a mulher (associada ao corpo, à natureza, à emoção). O dualismo cartesiano é, nesse sentido, profundamente generificado: a res cogitans é masculina; a res extensa é feminina.

COMUNIDADES TRADICIONAIS: AS BRUXAS DO SÉCULO XXI

A violência que expropriou terras comunais e queimou mulheres acusadas de bruxaria entre os séculos XVI e XVIII não é um capítulo encerrado da história. Ela persiste, reconfigurada, nas dinâmicas contemporâneas do capitalismo global. A análise de Rosa Luxemburgo em A Acumulação do Capital, oferece uma contribuição fundamental ao debate sobre a expansão capitalista ao demonstrar que o capitalismo, para se reproduzir, necessita constantemente de relações não capitalistas de produção. Ela argumenta que a acumulação ampliada – o processo pelo qual o capital se valoriza e se expande – não pode ocorrer exclusivamente no interior das relações capitalistas. É necessário um “fora”, um espaço externo onde o capital possa encontrar novos mercados, novas fontes de matérias-primas, novos reservatórios de força de trabalho.

Esse “fora”, contudo, não é simplesmente exterior geográfico. É, sobretudo, um exterior social, formas de organização da vida que não estão ainda inteiramente submetidas à lógica capitalista: economias camponesas de subsistência, terras de uso comunal, saberes tradicionais, práticas de cuidado e reprodução. O capital precisa invadir esses espaços, destruí-los e incorporá-los, transformando terra em mercadoria, trabalho em força de trabalho assalariada, saberes em propriedade intelectual, natureza em recursos. O que Luxemburgo argumenta é que a violência da acumulação primitiva, a expropriação violenta dos meios de produção, não é um momento superado na história do capitalismo, mas uma necessidade permanente. O capital precisa constantemente cercar os comuns.

O neoextrativismo é uma das expressões contemporâneas desse processo. Diferentemente do extrativismo clássico, baseado na exploração de recursos minerais e vegetais nas colônias, o neoextrativismo caracteriza-se por sua escala industrial, sua integração aos mercados globais e sua penetração em territórios antes considerados marginais. Na América Latina, particularmente, o neoextrativismo avançou nas últimas décadas como modelo dominante de desenvolvimento: mineração a céu aberto, megaprojetos hidrelétricos, monoculturas de soja e eucalipto, exploração de petróleo em áreas sensíveis, garimpo ilegal em terras indígenas. Esses empreendimentos incidem precisamente sobre os territórios ocupados por comunidades tradicionais, aqueles mesmos espaços onde persistem formas não capitalistas de organização da vida.

A lógica é a mesma dos cercamentos ingleses: terras que eram de uso comum, geridas coletivamente por comunidades que nelas habitam há séculos, são repentinamente “descobertas” como reservas de valor, como jazidas a serem exploradas, como fronteiras agrícolas a serem abertas. O Estado, frequentemente em aliança com corporações nacionais e transnacionais, atua para remover os obstáculos, ou seja, para remover as comunidades. Os argumentos são os mesmos de sempre: desenvolvimento, progresso, geração de empregos, modernização. As comunidades tradicionais são apresentadas como entraves a esse projeto, são “pobres”, “atrasadas”, “ignorantes”, “inimigas do progresso”. Seus modos de vida, baseados em relações de reciprocidade, em saberes transmitidos oralmente, em práticas de baixo impacto ambiental, são sistematicamente desqualificados. O que não se diz é que essas comunidades representam exatamente aquilo que Luxemburgo identificou: o “fora” que o capital precisa destruir para continuar se expandindo.

A analogia com a caça às bruxas não é meramente retórica. As comunidades tradicionais contemporâneas ocupam, no imaginário do desenvolvimento, o mesmo lugar que as mulheres acusadas de feitiçaria ocupavam na Europa moderna: são figuras demonizadas, associadas à ignorância e ao atraso, cuja eliminação se justifica em nome de uma ordem superior. Os povos indígenas, por exemplo, são frequentemente retratados pela grande mídia e por setores do agronegócio como “obstáculos ao desenvolvimento”. Suas terras, ricas em minérios, em madeira, em potencial agrícola, são cobiçadas por empresas que não reconhecem qualquer legitimidade nos modos de vida tradicionais. Os saberes indígenas sobre a floresta, sobre as plantas medicinais, sobre os ciclos da natureza – saberes que a ciência moderna apenas começa a redescobrir – são desqualificados como “folclore” ou “superstição”, exatamente como os saberes das parteiras e curandeiras eram desqualificados como bruxaria.

Os quilombolas, herdeiros da resistência negra à escravidão, enfrentam processo análogo. Seus territórios, conquistados por séculos de luta e ocupação, são constantemente ameaçados por grileiros, madeireiros, grandes proprietários. A memória da escravidão, que os transformava em propriedade, em corpos a serem possuídos e explorados, retorna sob novas formas: agora são as terras que devem ser possuídas, os recursos que devem ser extraídos, as comunidades que devem ser deslocadas. Os ribeirinhos, os seringueiros, os castanheiros, os quebradeiras de coco, todos esses grupos que desenvolveram formas de vida adaptadas aos ecossistemas específicos, que manejam a floresta sem destruí-la, que reproduzem saberes ancestrais sobre a natureza, todos eles são, aos olhos do capital extrativista, o que as bruxas eram aos olhos da Inquisição: figuras a serem eliminadas em nome de uma verdade superior.

E, assim como na caça às bruxas, a violência não é apenas simbólica. Líderes indígenas e quilombolas são assassinados impunemente em taxas crescentes. Comunidades inteiras são deslocadas à força para dar lugar a hidrelétricas e minas. Crianças adoecem pelo mercúrio despejado nos rios pelo garimpo. Mulheres são violentadas em regiões de fronteira extrativista. A terra é envenenada, os rios são mortos, as florestas são derrubadas e, com elas, morrem também modos de vida, línguas, saberes, cosmologias. O que está em jogo no neoextrativismo é o ataque sistemático aos comuns, aquilo que é de todos e de ninguém, que é gerido coletivamente, que escapa à lógica da propriedade privada e da mercadoria.

A terra comunal, que os cercamentos ingleses começaram a destruir no século XVI, ainda persiste em muitas comunidades tradicionais; terras indígenas, territórios quilombolas, fundos de pasto, faxinais, babaçuais. São terras usadas coletivamente, segundo regras transmitidas por gerações. O neoextrativismo avança sobre essas terras exatamente como os cercamentos avançaram sobre os commons ingleses: privatizando, concentrando, expulsando. A água, bem comum por excelência, é crescentemente apropriada por hidrelétricas, mineradoras, monoculturas. Comunidades ribeirinhas veem seus rios morrerem contaminados ou terem seu fluxo alterado por barragens. A água, fonte de vida e de reprodução material e simbólica, transforma-se em recurso hídrico, em insumo industrial, em mercadoria.

Os saberes tradicionais sobre plantas medicinais, sobre técnicas de cultivo, sobre manejo florestal, são sistematicamente apropriados pela indústria farmacêutica e biotecnológica, transformados em patentes, em propriedade intelectual, sem qualquer reconhecimento ou compensação às comunidades que os desenvolveram ao longo de séculos. É a expropriação do conhecimento, análoga à expropriação da terra e à expropriação do corpo. Até o ar, bem comum por excelência, é afetado: as queimadas para abertura de novas áreas agrícolas, a poeira das minerações, a fumaça das indústrias, tudo isso incide desproporcionalmente sobre as comunidades tradicionais, que veem sua saúde e seu modo de vida comprometidos por externalidades das quais não se beneficiam.

Assim como na caça às bruxas, as mulheres das comunidades tradicionais são particularmente visadas pela violência neoextrativista. São elas, frequentemente, as guardiãs dos saberes sobre sementes, sobre plantas medicinais, sobre os ciclos da água. São elas que garantem a reprodução da vida comunitária, o cuidado com as crianças, com os doentes, com os idosos, exatamente aquelas atividades que o capitalismo desvaloriza como “não produtivas”. Quando a mineradora contamina o rio, são as mulheres que precisam caminhar mais longe para buscar água. Quando a hidrelétrica alaga o território, são as mulheres que perdem não apenas a casa, mas a horta, as plantas medicinais, o local de encontro com outras mulheres. Quando o agronegócio avança, são as mulheres que perdem as sementes crioulas que guardavam há gerações.

Não por acaso, são também as mulheres que estão na linha de frente da resistência ao neoextrativismo. Movimentos como o das Quebradeiras de Coco Babaçu, das camponesas da Via Campesina, ou as mulheres indígenas que lideram lutas territoriais em toda a América Latina, todas elas retomam, sem necessariamente saber, a tradição das mulheres queimadas como bruxas por resistirem aos cercamentos e à expropriação dos saberes. Essas mulheres compreendem, na prática, o que a análise teórica demonstra: que a defesa da terra é defesa do corpo, que a defesa da floresta é defesa da vida, que a defesa dos saberes tradicionais é defesa da autonomia. Elas encarnam a recusa do projeto moderno-colonial que separou natureza e cultura, razão e emoção, público e privado, e que fez dessa separação instrumento de dominação.

O capitalismo precisa constantemente do “fora” para se reproduzir. Mas esse “fora”, as relações não capitalistas de produção, não é apenas reservatório a ser saqueado. É também, e sobretudo, a memória viva de que outro mundo é possível. As comunidades tradicionais que resistem ao neoextrativismo não são apenas vítimas; são portadoras de alternativas. Seus modos de vida baseados no comum, na terra de uso coletivo, na gestão compartilhada dos recursos, na transmissão oral dos saberes, no cuidado como valor central, apontam para formas de organização social que escapam à lógica destrutiva do capital.

O desafio contemporâneo é duplo. Por um lado, é necessário defender essas comunidades da violência do neoextrativismo, defender seus territórios, seus corpos, seus saberes. Por outro lado, é preciso aprender com elas, reconhecer que seus modos de vida contêm elementos fundamentais para a construção de uma sociedade pós-capitalista, ecológica, feminista, decolonial. A bruxa queimada na fogueira não era apenas uma vítima; era a portadora de um saber que a nova ordem precisava destruir. A indígena assassinada na luta pela terra não é apenas mártir; é testemunha de que é possível viver na floresta sem destruí-la. A quilombola que lidera a ocupação de um território ameaçado não é apenas militante; é a guardiã de uma memória de resistência que vem dos navios negreiros e que aponta para o futuro.

Reconhecer essas lutas, compreender sua centralidade para a crítica do capitalismo contemporâneo, é tarefa urgente. Pois o que está em jogo no neoextrativismo não é apenas a exploração de recursos naturais ou a expropriação de comunidades. O que está em jogo é a própria possibilidade de imaginar e construir formas de vida baseadas no comum, na reciprocidade, no cuidado, na integração com a natureza. Os cercamentos não terminaram. A caça às bruxas não terminou. Mas a resistência também não. E é dessa resistência, das mulheres, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais, que pode vir a semente de um mundo onde a terra não seja mercadoria, o corpo não seja máquina, a natureza não seja recurso. Um mundo onde, enfim, possamos habitar a Terra como quem pertence a ela, e não como quem a possui. Um ponto de partida ético e político fundamental.

NEOLIBERALISMO, FOME E DESTRUIÇÃO: O COLAPSO DE UM SISTEMA

Na esfera econômica, os anos 1980 ficaram conhecidos como a “Década Perdida” na América Latina, um período marcado por baixas taxas de crescimento, alta inflação e declínio em diversos indicadores socioeconômicos. No Brasil, a desaceleração da produção industrial, o aumento do desemprego e a perda do poder de compra dos salários aprofundaram a crise, consolidando a ideia de uma década de estagnação econômica em contraste com os períodos anteriores. No entanto, do ponto de vista político, os anos 1980 também foram marcados pelo fim da ditadura militar e pelo processo de redemocratização do país, trazendo consigo um conjunto de contradições. 

A elaboração da Constituição Federal de 1988 abriu espaço para o debate sobre direitos básicos, enquanto importantes movimentos sociais e partidos populares ganharam força. Contudo, os governos que assumiram o poder após sua promulgação adotaram uma agenda neoliberal, o que impediu a plena efetivação das garantias de proteção social previstas no texto constitucional. Além disso, as condições materiais e históricas necessárias para assegurar esses direitos nunca foram plenamente consolidadas, uma vez que o Brasil jamais estruturou um verdadeiro Estado de Bem-Estar Social, mantendo a população vulnerável às desigualdades e às limitações impostas pela lógica do capital.

Um exemplo das contradições entre as garantias formais da Constituição de 1988 e a realidade imposta pela hegemonia do capital, é a Reforma Agrária, agravada ainda mais durante a ditadura militar. Embora prevista na Constituição, ela nunca foi implementada de maneira estruturante e eficaz.

“Isso porque, conforme afirma Martins (1999, p. 102), a questão agrária brasileira é uma questão sob controle, administrada, que aparece de modo residual, como um problema social e não como uma questão estrutural, ela não se revela comprometedora para o funcionamento dos diferentes níveis do sistema econômico e do sistema político”. 

De fato, a questão agrária brasileira permanece inextricavelmente vinculada à incapacidade das elites econômicas – historicamente alicerçadas no latifúndio – de superarem a contradição estrutural entre terra como bem comum e capital como mecanismo de acumulação privada, reproduzindo uma lógica anacrônica que obstrui o desenvolvimento soberano do país, e até hoje tratada em segundo plano apenas como um problema social. No entanto, ainda conforme afirma o autor, a questão agrária é, essencialmente, uma questão histórica e, portanto, “o tempo de referência destas considerações é o tempo da conjuntura histórica” (Martins, 1999, p.99).

Dessa forma, a questão agrária brasileira precisa ser analisada no contexto das crises globais contemporâneas, que ultrapassam fronteiras geográficas e se intensificam desde os anos 1990. A crise climática, a crise da reprodução social e a crise do sistema alimentar avançam em ritmo acelerado, evidenciando as contradições de um modelo econômico que compromete tanto os ecossistemas quanto às condições de vida da população. A convergência entre crise climática, crise da reprodução social e crise do sistema alimentar é consequência direta de um modelo econômico que subordina tanto os recursos naturais quanto a vida humana à lógica da acumulação e do lucro.

Essas crises, que se intensificaram nas últimas décadas, não podem ser analisadas isoladamente, pois estão profundamente interligadas em um ciclo de exploração e degradação. 

No Brasil, a atual conjuntura configura-se como desdobramento crítico do projeto econômico neoliberal implementado a partir dos anos 1990, quando o Estado, em condição de subalternidade às diretrizes do capital globalizado, reestruturou-se como fiador da acumulação privada. Esse processo, alinhado ao Consenso de Washington, operou uma tripla metamorfose: austeridade fiscal permanente, com cortes seletivos que privilegiaram rentistas em detrimento de políticas sociais; desmonte de setores estratégicos (energia, telecomunicações, mineração) via privatizações que transferiram patrimônio público a conglomerados transnacionais; mercantilização de direitos, com a terceirização de saúde e educação, convertendo necessidades humanas em nichos de lucro.

A partir de 2016, com a imposição da Emenda Constitucional 95, a financeirização ascendeu a um patamar sistêmico: o teto de gastos públicos, ao congelar investimentos sociais por 20 anos, institucionalizou a austeridade como dogma, estrangulando políticas agrárias e aprofundando a captura do Estado por interesses rentistas. Não por acaso, enquanto o orçamento para reforma agrária encolhia 83% entre 2016 e 2022, o setor do agronegócio recebeu R$ 364 bilhões em crédito subsidiado em 2023/24, evidenciando a seletividade classista do projeto.

Nesse contexto, a questão agrária brasileira revela-se intrínseca à geopolítica do capitalismo tardio: a expansão de commodities sobre biomas (Amazônia, Cerrado) atende menos a demandas alimentares do que à lógica da acumulação por despossessão, onde territórios são desterritorializados para alimentar fluxos financeiros. A cada hectare de soja destinado à exportação (73% da produção nacional, segundo a CONAB, 2023), consolida-se um modelo que conjuga superexploração ecológica com exclusão social — paradoxo onde a fome (33 milhões em 2022, FAO) coexiste com recordes de safras.

DO LATIFÚNDIO AO ULTRAPROCESSADO

A globalização redefiniu radicalmente os sistemas agroalimentares ao longo do último século, transformando alimentos em commodities circulantes em redes transnacionais de produção, comércio e consumo (Abramovay, 2021). Se, no passado, a agricultura estava ancorada em relações locais e ciclos ecológicos, hoje ela opera sob a lógica de um mercado globalizado, dominado por corporações que controlam desde sementes até as prateleiras de supermercados (Schneider, 2016). Esse processo carrega contradições profundas entre a busca por eficiência econômica e a crise socioambiental que ameaça ecossistemas, culturas alimentares e a própria segurança nutricional de populações inteiras.

No Brasil, a partir da década de 1990, o avanço neoliberal desmontou políticas públicas de apoio à agricultura familiar e consolidou um modelo agroexportador dependente de monoculturas, que ocupa 76% das terras agricultáveis do país, mas alimenta apenas uma fração da população. Enquanto isso, pequenos produtores, responsáveis por 70% dos alimentos consumidos nacionalmente, são expulsos de seus territórios ou submetidos a contratos leoninos com corporações que controlam sementes transgênicas e insumos químicos (ABRAMOVAY, 2019).

A agricultura industrial é responsável por 34% das emissões globais de gases de efeito estufa (Crippa, et. al, 2021), além de ser a maior causadora de desmatamento e perda de biodiversidade. No Brasil, o avanço da soja e da pecuária sobre biomas como a Amazônia e o Cerrado não apenas acelera a crise climática, mas destrói modos de vida ancestrais. O uso de 1,2 milhão de toneladas de agrotóxicos ao ano contamina aquíferos, extermina polinizadores e intoxica trabalhadores rurais — muitos deles mulheres grávidas, cujos filhos nascem com malformações (ABRASCO, 2023), violando as fronteiras planetárias identificadas por Rockström (et al., 2023), como os ciclos do nitrogênio e a integridade da biosfera, por exemplo.  

Esse modelo depende de monoculturas em larga escala, que demandam desmatamento, irrigação intensiva e químicos sintéticos. A soja, por exemplo, ocupa 43 milhões de hectares no Brasil, mas apenas 5% é destinada ao consumo humano direto. O restante vira ração animal ou biocombustível, alimentando cadeias globais de valor que privilegiam exportação sobre soberania alimentar.    

A crise climática, a escalada das desigualdades socioeconômicas e a financeirização da reprodução social representam desafios estruturais do século XXI, interligados por uma lógica comum: a subordinação da reprodução da vida aos imperativos de acumulação capitalista (Ruas, 2021; Bhattacharya, 2017, Fraser, 2024). Superá-la demanda não apenas reformas, mas a construção de um sistema que valorize a sustentabilidade da vida sobre a ganância destrutiva do capital. 

A escalada do consumo de ultraprocessados está intrinsecamente ligada ao domínio de conglomerados como Nestlé, PepsiCo e JBS, que controlam 75% do mercado global de alimentos. Essas corporações operam sob uma lógica de comoditização, transformando grãos, água e até sementes em ativos financeiros. A fusão Bayer-Monsanto em 2018 consolidou um oligopólio que controla sementes transgênicas e agrotóxicos utilizados no Brasil (ABRASCO, 2023). 

No contexto atual, a crise de reprodução social — aprofundada pelo neoliberalismo e pelo domínio corporativo sobre os sistemas alimentares — revela-se como um eixo central da degradação socioambiental. No Brasil e no mundo, a agricultura industrial, controlada por megacorporações como Bayer, Cargill e JBS, opera sob uma lógica que prioriza a acumulação de capital em detrimento da vida, gerando um ciclo perverso de exploração humana e destruição ecológica. 

CRISE DA REPRODUÇÃO SOCIAL

Nas últimas décadas, o regime alimentar global passou por uma transição paradigmática: de sistemas locais e diversificados para um modelo industrializado, centralizado e ancorado na lógica das commodities. Essa metamorfose reconfigurou não apenas os padrões nutricionais, mas as próprias relações entre sociedade, natureza e trabalho. Impulsionadas pela expansão neoliberal e pelo poder oligopólico de conglomerados transnacionais, tais mudanças produzem impactos complexos e interligados, manifestando-se em três dimensões fundamentais: socioeconômica, ambiental e cultural.

A substituição de dietas tradicionais por ultraprocessados está associada ao crescimento exponencial de doenças crônicas. No Brasil, a prevalência de obesidade saltou de 12% para 26% da população entre 2006 e 2022, enquanto os gastos do SUS com diabetes e hipertensão ultrapassaram R$ 3,4 bilhões (Ministério da Saúde, 2023). Paralelamente, o uso de toneladas de agrotóxicos anuais contamina aquíferos como o Guarani, responsável por abastecer 90 milhões de pessoas (Abrasco, 2023). A crise ecológica é igualmente alarmante: a pecuária industrial emite 65% do metano global, gás 28 vezes mais poluente que o CO₂ (IPCC, 2023). Na Amazônia, 90% do desmatamento está vinculado à expansão de pastos e soja, ameaçando 40% das espécies endêmicas (INPE, 2023).

Ao promover a flexibilização das relações de trabalho e a desregulamentação de direitos sociais, o neoliberalismo intensificou a pressão por produtividade e a precarização laboral. Jornadas extensas, terceirizações e a necessidade de múltiplos empregos para garantir sustento tornaram o tempo um recurso escasso para a classe trabalhadora. No Brasil, 44% dos trabalhadores urbanos cumprem mais de 40 horas semanais, enquanto 24% atuam em ocupações informais, sem garantias como férias ou descanso remunerado (IBGE, 2023). 

Essa dinâmica é ainda mais perversa para mulheres, que acumulam duplas ou triplas jornadas devido à divisão sexual do trabalho. A média de horas trabalhadas por família subiu 15% entre 2000 e 2020, enquanto o poder de compra do salário mínimo caiu 30% no mesmo período (IBGE, 2023). Essa dinâmica forçou famílias a substituírem alimentos in natura por produtos prontos, cujo preparo demanda menos tempo. Consequentemente, o consumo de ultraprocessados saltou de 18% para 25% das calorias diárias entre brasileiros na última década (Monteiro et al., 2023).

A carga desigual de trabalho reprodutivo agrava o cenário: mulheres, mesmo empregadas formalmente, dedicam 21 horas semanais a tarefas domésticas, contra 11 horas dos homens (IPEA, 2023). Essa sobrecarga as impede de cozinhar, reforçando a dependência de alimentos industrializados e perpetuando um ciclo de má nutrição. Em comunidades periféricas, onde o acesso a equipamentos como geladeiras e fogões é limitado, a situação é ainda mais crítica: 40% das mães solo relatam substituir refeições por biscoitos ou salgadinhos devido à falta de tempo e recursos (REDE PENSSAN, 2022).

Ao longo da história, as mulheres desempenharam um papel central na garantia da segurança alimentar de suas comunidades, atuando como produtoras, gestoras e protagonistas de lutas políticas contra a fome, a desigualdade e a exploração ambiental. Sua atuação está intrinsecamente ligada à reprodução social — trabalho não remunerado de cuidado, alimentação e manutenção da vida —, posicionando-as como as primeiras a enfrentar os impactos da escassez e as mais mobilizadas para combatê-la (Federici, 2004). Essa relação transcende o espaço doméstico, manifestando-se em protestos públicos, ocupações de terra e redes de solidariedade que desafiam estruturas de poder e redefinem modelos de produção e consumo.  

Desde a Marcha das Mulheres sobre Versalhes (1789), quando trabalhadoras francesas desafiaram a monarquia para exigir pão e justiça social, até a Greve “Pão e Paz” (1917), que acelerou a Revolução Russa, e a Revolta do Arroz no Japão (1918), liderada por mulheres de pescadores em Uozu, esses movimentos revelam um padrão: a escassez alimentar não é uma mera questão de abastecimento, mas um campo de disputa pelo direito à vida digna (Abramovay, 2019). Na Nigéria colonial, a Revolta das Mulheres de Abeokuta (1940), liderada por Funmilayo Ransome-Kuti, uniu vendedoras de mercado contra impostos abusivos que inviabilizavam o acesso a alimentos básicos, demonstrando como a fome é um instrumento de opressão colonial e de gênero (OXFAM, 2020).  

O trabalho reprodutivo — cozinhar, cuidar, garantir a alimentação — é historicamente delegado às mulheres, especialmente em sociedades patriarcais. Quando sistemas econômicos ou ambientais falham, como em guerras, crises climáticas ou ajustes neoliberais, elas são as primeiras a enfrentar a escassez e a organizar respostas coletivas.

A filósofa Silvia Federici (2004) argumenta que a exploração desse trabalho gratuito é a base do capitalismo, tornando as mulheres agentes naturais de resistência. Globalmente, as mulheres representam 43% da força de trabalho agrícola, mas possuem menos de 15% das terras cultiváveis (FAO, 2021). Essa disparidade não as impediu de liderar práticas sustentáveis: na América Latina, agricultoras familiares são pioneiras na agroecologia, sistema que combate a dependência de agrotóxicos e prioriza a biodiversidade. Movimentos como a Marcha das Margaridas, no Brasil, evidenciam como a defesa da terra e da soberania alimentar é inseparável da luta por direitos das mulheres (VIA CAMPESINA, 1996).  

A mercantilização dos alimentos — controlada por corporações que especulam com preços e patenteiam sementes — aprofunda a dependência de crédito para comer. Mulheres, especialmente negras e periféricas, são as mais afetadas: no Brasil, 62% das famílias chefiadas por mulheres vivem em insegurança alimentar (REDE PENSSAN, 2022). Suas lutas, como as ocupações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), não exigem apenas comida, mas um modelo econômico que não transforme necessidades vitais em mercadorias. 

Mulheres indígenas, quilombolas e camponesas estão na linha de frente contra o avanço do agronegócio e do extrativismo, que destroem ecossistemas e ameaçam culturas alimentares tradicionais. A líder indígena Berta Cáceres, assassinada em Honduras por defender rios e territórios, simboliza essa resistência. Suas lutas mostram que a crise climática é também uma crise de gênero: enquanto corporações lucram com commodities, mulheres protegem 80% da biodiversidade global (ONU MULHERES, 2020).  

Diante desse cenário, movimentos liderados por mulheres — como a Marcha das Margaridas e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) no Brasil — propõem alternativas radicais. A agroecologia, que integra produção diversificada, justiça social e equilíbrio ecológico, já é praticada por 1,3 milhão de famílias camponesas no país, garantindo alimentos saudáveis e reduzindo a dependência de insumos externos (ANA, 2023). No plano global, a Via Campesina defende a soberania alimentar como antídoto ao controle corporativo, promovendo a reforma agrária e o direito à terra. Experiências como as das mulheres do MST, que ocupam latifúndios para cultivar alimentos sem veneno, mostram que outro modelo é possível.  

A encruzilhada atual exige escolher entre dois projetos: um que transforma alimentos em commodities e pessoas em consumidores endividados, e outro que os reconhece como direitos e bases da vida. A crise de reprodução social, o neoliberalismo e o colapso ecológico não são acidentes, mas resultados de uma lógica que subordina tudo ao lucro. Romper com ela exige fortalecer as alternativas que já florescem nas mãos de quem sempre sustentou o mundo: as mulheres.

 

  

 

A Encruzilhada do Sistema Agroalimentar Global: Lucro, Dívida e Degradação Humana e Ambiental

The Funeral – George Grosz

A Revolução Verde, iniciada no século XX sob a promessa de erradicar a fome global, consolidou um modelo agrícola centrado na produtividade de arroz, milho e trigo. Esses grãos, hoje base da dieta de mais de 4 milhões de pessoas, simbolizam um paradoxo: enquanto o relatório do Kew Royal Botanic Gardens (2020) registra mais de 7 mil espécies vegetais comestíveis, 90% da alimentação humana depende de apenas 15 culturas. Essa homogeneização não se limita às plantas. A produção de proteína animal também está submetida a sistemas intensivos, nos quais o confinamento e a dependência de rações artificiais — enriquecidas com aditivos químicos — exigem o uso massivo de medicamentos para conter doenças decorrentes da baixa diversidade genética e das condições precárias de criação (Abramovay, 2021).  

Produtividade versus Colapso Ecológico

Entre 1961 e 1999, a produtividade agrícola global saltou 106%, mas esse avanço teve um custo: a produção de agrotóxicos aumentou 854%, e o uso de fertilizantes nitrogenados e fosfatados por unidade de alimento tornou-se insustentável. Esses insumos, essenciais para a agropecuária industrial, estão no centro de uma crise planetária. Segundo Rockstrom et al., o excesso de nitrogênio e fósforo já ultrapassou os limites seguros para a manutenção dos ecossistemas, corroendo a biodiversidade e contaminando solos e água. Não por acaso, o sistema alimentar global é hoje o principal vetor de destruição da biodiversidade e o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas, atrás apenas dos combustíveis fósseis (Abramovay, 2021).  

Globalização e Corporações: O Domínio da Cadeia Alimentar  

A transformação de alimentos em commodities globais redefiniu radicalmente a agricultura. Se antes os sistemas agroalimentares estavam enraizados em práticas locais e ciclos ecológicos, hoje são controlados por megacorporações transnacionais que monopolizam desde sementes patenteadas até as prateleiras de supermercados. Essas empresas não apenas ditam o que é produzido e consumido, mas também influenciam políticas públicas, marginalizando pequenos produtores e impondo monoculturas dependentes de agrotóxicos. O resultado é um sistema concentrado, que prioriza eficiência econômica em detrimento da resiliência ambiental e da diversidade cultural alimentar.  

Endividamento e Reprodução Social: O Custo Oculto da Alimentação

A financeirização da vida cotidiana tornou o endividamento familiar um pilar da reprodução social. Salários estagnados, serviços públicos precarizados e a volatilidade dos preços dos alimentos — agravada por crises climáticas e especulação financeira — forçam milhões a recorrerem ao crédito para cobrir despesas básicas, como alimentação. Esse ciclo vicioso é especialmente perverso: enquanto famílias comprometem até 70% de sua renda com comida em alguns países, corporações lucram duas vezes — na venda de alimentos ultraprocessados e na oferta de crédito para consumi-los.  

A reprodução social, historicamente sustentada por trabalho não remunerado (majoritariamente feminino), enfrenta pressões adicionais. A padronização das dietas, impulsionada por produtos baratos e ultraprocessados, reduz o tempo de preparo das refeições, mas compromete a segurança nutricional. Doenças como obesidade e diabetes proliferam, sobrecarregando sistemas de saúde e aprofundando desigualdades.  

Alternativas em Disputa: Rumo à Soberania Alimentar

  

O sistema atual beneficia uma minoria enquanto transfere custos ambientais e sociais para as populações mais vulneráveis. Romper essa lógica exige enfrentar o poder corporativo e investir em modelos alternativos. A agroecologia, por exemplo, demonstra que é possível conciliar produtividade com diversidade biológica, reduzindo a dependência de insumos químicos. Redes de economia solidária e o fortalecimento da agricultura familiar podem reconectar consumidores e produtores, garantindo acesso a alimentos saudáveis e preços justos.  

Além disso, políticas públicas são cruciais para regular preços, combater a especulação e garantir renda digna — reduzindo a dependência do crédito predatório. A soberania alimentar, concebida como o direito dos povos a definir seus próprios sistemas alimentares, emerge não apenas como alternativa, mas como urgência civilizatória. 

 

Quem Paga a Conta?  

A encruzilhada atual revela uma contradição central do capitalismo: a busca por lucro ilimitado colide com os limites finitos da natureza e da dignidade humana. Enquanto corporações acumulam riqueza, famílias pagam com dívidas, saúde precária e um planeta em colapso. A transformação do sistema agroalimentar não é apenas técnica, mas profundamente política — requer desmontar estruturas de poder e reimaginar a alimentação como um direito, não como mercadoria. O futuro da vida na Terra depende dessa escolha.