IMPERIALISMO NA ERA DIGITAL E TRANSIÇÃO ENERGÉTICA: MECANISMOS RENOVADOS DE TRANSFERÊNCIA DE VALOR DO SUL GLOBAL

Daniela Doms – Doutoranda em Economia Política, UFABC

“O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?” 

Eduardo Galeano

INTRODUÇÃO

No século XXI, as narrativas hegemônicas da Quarta Revolução Industrial e da transição energética apresentam-se como vetores do progresso técnico e universalmente benéfico. No entanto, estes projetos estão profundamente entrelaçados com dinâmicas geopolíticas de poder e acumulação que reconfiguram os padrões seculares de dominação. Diante dessa contradição, este artigo pretende refletir de que modo os pilares materiais deste paradigma tecno-ecológico: a extração de minerais críticos e a operação da infraestrutura digital, intensificam os mecanismos históricos de transferência de valor e dependência do Sul Global, reeditando, sob o véu ideológico da neutralidade tecnológica e da urgência climática, as estruturas clássicas do imperialismo no século XXI. A hipótese central que orienta esta análise é a de que a extração de minerais críticos e a operação da infraestrutura digital atuam como os principais vetores materiais e discursivos da reconfiguração dos padrões históricos do imperialismo no século XXI. Esta renovação opera através da institucionalização de um duplo circuito extrativo, material e imaterial, que intensifica e sofistica os mecanismos de transferência de valor e dependência do Sul Global. A extração mineral contemporânea reativa e moderniza o extrativismo colonial, criando uma dependência estratégica renovada. A demanda por minerais críticos, definidos pelas necessidades securitárias e industriais do centro do sistema, converte territórios do Sul Global em novas fronteiras essenciais de recursos. Este processo não apenas reproduz os danos socioambientais históricos, mas, cristaliza uma divisão internacional do trabalho que captura valor nas etapas de maior complexidade tecnológica (refino, fabricação de componentes, produção de bens finais), situadas no Norte Global e em polos industriais asiáticos. O Sul, por sua vez, permanece fornecedor de commodities de baixo valor agregado, preso a uma vulnerabilidade cíclica e impedido de construir cadeias industriais autônomas. A retórica da “transição verde” serve aqui para legitimar essa pressão extrativa como um imperativo planetário, obscurecendo seus fundamentos geopolíticos. Paralelamente, o controle sobre a infraestrutura concede poder de vigilância, estrangulamento e governança sobre as economias periféricas, criando uma dependência profunda que mina a soberania nacional. A infraestrutura digital, portanto, racionaliza, acelera e protege juridicamente todo o complexo extrativo global. A narrativa dupla, “verde” e “digital”, fornece a camada de legitimação ideológica. Dessa forma, o imperialismo contemporâneo aprisiona o Sul Global em uma função renovada de fornecedor de commodities, perpetuando sua condição periférica e financiando a acumulação no centro do sistema.

  1. IMPERIALISMO E A RELAÇÃO CENTRO-PERIFERIA 

A análise da mineração no Brasil colonial escravista, na obra de Jacob Gorender (2016), constitui a genealogia histórica concreta dos processos estruturais que conformaram a sociedade brasileira: a especialização primário-exportadora, a superexploração do trabalho, a transferência de valor para o centro e a constituição de um Estado funcional à espoliação. Movidos pela lógica predatória, essa dinâmica estabeleceu uma relação puramente instrumental, de esgotamento, tanto da Natureza, como do trabalho. O escravo minerador, submetido a condições brutais em galerias e bateias, era tratado como um recurso descartável para a extração de um recurso finito. A análise evidencia tanto a noção de superexploração ampliada, quanto o desgaste ecossistêmico produzido pela mineração, demonstrando que a atividade operou como um mecanismo eficientíssimo de transferência de valor. Gorender demonstra o elo direto entre a superexploração colonial e a acumulação de capital no centro dinâmico do capitalismo nascente. O processo descrito pelo autor subsidia o que Ruy Mauro Marini (1979) definiu como o padrão de reprodução do capital dependente, fundado na superexploração do trabalho como mecanismo compensatório da transferência sistemática de valor, e o que Samir Amin (2011) chamou de mundialização do mais-valor: a periferia fornecendo commodities sob relações de produção arcaicas e superexploradoras para financiar o desenvolvimento industrial alheio. Neste sentido, Amin (2005) afirma que o capitalismo nasce imperialista. Para o autor, o imperialismo não é um estágio, tão pouco um estágio superior, está inseparavelmente contido na natureza do capitalismo desde sua origem. E é no saque às Américas que ele desenvolve seu primeiro momento devastador. O segundo momento de sua devastação se expressa na Revolução Industrial e na submissão colonial da Ásia e da África, novamente motivado pela apropriação dos recursos naturais dessas regiões, mas também na busca de novos mercados para a sua expansão. Como observado por Marx e Engels no Manifesto Comunista, em  1848, a necessidade de um mercado em constante expansão persegue a burguesia por toda a superfície do globo e ela deve criar conexões em toda parte.  No entanto, até o início do século XIX criar essas conexões levava tempo, a velocidade da comunicação estava intrinsecamente limitada pela distância física. O capital necessitava de informações em tempo hábil para circular com eficiência, e essa circulação era estruturalmente impedida pela desconexão entre a velocidade da produção industrial e a lentidão das comunicações intercontinentais. Isso impedia a integração plena dos mercados globais e também constituía-se num desafio para a dominação imperial. Foi precisamente este gargalo tecnológico que tornou o telégrafo elétrico não apenas uma inovação, mas uma condição para a consolidação do capitalismo industrial em escala verdadeiramente global. Neste sentido, muito antes da internet, a invenção do telégrafo no século XIX revolucionou a comunicação mundial, “um salto quântico que colocou a metrópole em comunicação quase direta e em “tempo real” com os confins do império” (Tully, 2009, p. 560). A invenção do telégrafo contribuiu enormemente para conectar e expandir mercados como para o controle imperial das colônias. A nova tecnologia atrelava-se profundamente ao colonialismo, tanto no uso que lhe foi dado quanto na própria matéria prima que a tornou possível: a guta-percha (Tully, 2009). 

Uma árvore específica do Sudeste Asiático ocupou lugar central na infraestrutura essencial da expansão da telegrafia através de cabos submarinos transatlânticos. Encontrada principalmente na Malásia e em Singapura, a Palaquium Gutta produz um látex natural denominado como gutta-percha, que revelou-se a solução para o isolamento dos cabos subaquáticos. Através do Canal da Mancha, em 1850, os cabos revestidos com gutta-percha começaram a conectar a Inglaterra à França e, em 1865, Karachi, na Índia, já estava ligada em comunicação quase instantânea com Londres “com os sinais de código Morse voando pelos fios (…). Malta foi conectada a Alexandria em 1868; a França à Terra Nova em 1869; Índia, Hong Kong, China e Japão até 1870; a Austrália em 1871; e a América do Sul até 1874” (Tully, 2009, p. 568). Inicialmente, a tecnologia passou a operar com investimentos provenientes de capital privado, com montantes astronômicos que, hoje, equivaleriam a 10 bilhões de libras esterlinas. Não tardou, porém, para que os governos passassem a subsidiar os investimentos, especialmente por seu valor estratégico e militar. Em 1879, após a Guerra Anglo-Zulu, o governo britânico passou a subsidiar a Eastern and Southern Africa Telegraph Company (Tully, 2009). 

Tully (2009, p. 560) afirma que: “se Londres era o cérebro do Império, os cabos telegráficos eram seus nervos. Os “nervos” foram um triunfo da engenharia vitoriana”. Para o autor, esse foi um grande passo para o que hoje chama-se de globalização e a gutta-percha foi a condição indispensável para o sucesso do telégrafo submarino. Para os padrões da época, a telegrafia elétrica tratava-se de uma indústria de alta tecnologia.  No entanto, enquanto o cobre para os fios e o revestimento externo de ferro era produzido industrialmente, em empreendimentos de grande escala com trabalho organizado de mineradores e operários nas fábricas, a gutta-percha provinha de uma indústria extrativa primitiva que dependia do trabalho duro e insalubre de lenhadores que arriscavam suas vidas através de métodos rudimentares e ineficientes, devastando as florestas pela pressão implacável do mercado. A exportação de gutta-percha para a Europa começou em 1844 e, entre 1845 e 1847, quase 70 mil árvores foram derrubadas em Singapura, aumentando cada vez mais. Em Bornéu, entre 1875 e 1885, cerca de 3 milhões de árvores foram exterminadas. Em aproximadamente 50 anos a árvore estava praticamente extinta da natureza, a indústria telegráfica destruiu as árvores das quais dependia sua existência. Tully (2009, p. 576) argumenta que: 

“(…) foi o colonialismo que remodelou a face do Sudeste Asiático, removendo as florestas e erguendo novas cidades como Singapura no processo. A cor das mãos que empunhavam o machado e o parang era irrelevante neste aspecto. Podemos ao menos ser gratos, no entanto, que não foi considerado necessário submeter os malaios ao tipo de escravidão e violência que acompanhou a exploração das árvores e cipós de borracha silvestres no chamado Estado Livre do Congo sob Leopoldo II dos Belgas e no rio Putumayo, no Peru”. 

Se o telégrafo foi o “sistema nervoso” do imperialismo vitoriano, a extração mineral nos primeiros ciclos de exploração colonial forneceu o sangue vital, o fluxo de metais preciosos que irrigou e alimentou o imperialismo nascente. A destruição material das fontes de riqueza é a expressão concreta da contradição fundamental do capitalismo desde sua origem, que se manifesta historicamente de forma contínua e escalonada, e tende a canibalizar sua própria base, levando a degradação ecológica, política e social (Fraser, 2024). Em O Capital (Livro I), Marx demonstra que o desenvolvimento histórico do capitalismo está intrinsecamente ligado ao aumento contínuo da produtividade, impulsionado, sobretudo, pelo avanço tecnológico. Contudo, não deixa de reconhecer que as fontes originais de toda a riqueza são o trabalho e a Natureza. Neste sentido, citando William Petty, Marx diz: “se o trabalho é o pai da riqueza material, a terra é a mãe” (Marx, 2013, p. 167). Ao submeter o trabalho a relações de exploração e alienação, esgota a vitalidade e a capacidade criativa dos trabalhadores. Paralelamente, ao tratar a Natureza como mero recurso a ser explorado, degrada os ecossistemas e rompe o metabolismo entre sociedade e meio ambiente. Dessa forma, o capital, movido pela lógica da valorização, acaba por corroer as bases que o originam: o trabalho vivo e a terra. Para Fanon (2022) o colonialismo é violência em Estado puro, violência estrutural que desumaniza, aliena, confisca e reduz a existência  do colonizado à coisificação. Mas, mesmo após os processos de descolonização política no século XX, isso não representou o fim da dominação imperial, e sim a sua transformação em um mecanismo mais sofisticado e eficaz: o neocolonialismo (N’Krumah, 1967). Se no modelo colonial, descrito por Gorender, o controle era direto (administração metropolitana, monopólios comerciais, escravidão), no neocolonialismo ele se torna indireto, porém mais abrangente. A economia e a política da ex-colônia são dirigidas de fora. A dominação não é mais imposta por um governo colonial, mas pela ação combinada de corporações transnacionais que controlam setores-chave (mineração, petróleo, plantações), por instituições financeiras internacionais (FMI, Banco Mundial) que condicionam políticas através da dívida e dos ajustes estruturais, pelo aparato de “assistência” técnica e militar que vincula as elites locais aos interesses do centro (N’Krumah, 1967). 

O capitalismo imperialista, em si, é violência em estado puro. O colonialismo ou o neocolonialismo são fases dessa violência que se manifesta ora direta, ora indiretamente, mas coexistem de forma permanente. O sistema centro-periferia é, portanto, estrutura perene do imperialismo. A periferia é moldada para se especializar na produção primária (commodities) e fornecer recursos a baixo custo, enquanto o centro monopoliza a tecnologia, a indústria de alto valor e o poder financeiro (Amin, 1976; Patnaik&Patnaik, 2024). Assim, na era do capitalismo monopolista globalizado, a lei do valor de Marx só pode ser plenamente compreendida em sua escala efetiva de operação: a escala mundial. A articulação entre a superexploração do trabalho e a gestão predatória dos recursos naturais da periferia são mecanismos que, combinados, permitem a extração sistemática de uma renda imperialista para o centro do sistema (Amin, 2011). A lei do valor mundializada constitui, portanto, uma forma de regulação do sistema capitalista, evidenciando as assimetrias estruturais da economia-mundo. A transferência de valor da periferia para o centro é um mecanismo constitutivo da reprodução do capital.

  1.  TECNO-OTIMISMO: O VÉU DA DEGRADAÇÃO

O avanço tecnológico transformou a vida cotidiana no século XXI sob o mesmo princípio predatório que estrutura o capitalismo desde sua origem, que persiste e se sofistica, agora de maneira ainda mais parasita, tal qual a Vespa de Darwin, capaz de manipular o comportamento de seu hospedeiro enquanto o consome até a morte. A dominação imperialista segue operando em um espectro que alterna entre o controle direto e indireto. E o horizonte temporal crítico aponta para um dos desafios mais complexos e existenciais da história humana, a crise ecológica e a degradação acelerada das condições sistêmicas que sustentam a vida, resultado direto do acúmulo histórico do padrão de exploração e esgotamento. Paradoxalmente, o mesmo setor de tecnologia que promoveu uma onda de inovações provocando transformações no mundo do trabalho (Figueiras e Cavalcante, 2020; Antunes, 2018), na produção e no padrão de acumulação no século XXI (Schincariol et al., 2024), propagandeia planos para o enfrentamento da crise climática através do uso das tecnologias como ferramentas de resolução de problemas (Crawford, 2025), ao mesmo tempo em que transforma também a experiência humana em matéria-prima gratuita, manipulada pelas Big Techs (Google, Meta, Amazon, Microsoft, Nvidia, Tesla, Apple). Essas empresas, majoritariamente localizadas em território norte-americano, personificam hoje o núcleo de comando de monopólios que controlam os fluxos globais de dados, a arquitetura das redes de comunicação, os sistemas operacionais da experiência social e os algoritmos que moldam a percepção da realidade (Zuboff, 2021). O valor de mercado dessas empresas supera o PIB de toda a América Latina (Feldmann, 2024). 

O tecno-otimismo tornou-se o evangelho do Vale do Silício, assim como exposto no Manifesto de Marc Andreesen (2023), bilionário que fez fortuna na década de 1990 no setor de tecnologia: “Acreditamos que não há nenhum problema material, seja ele criado pela natureza ou pela tecnologia, que não possa ser resolvido com mais tecnologia”, encapsulando, assim, o desejo público de um futuro melhor. Do mesmo modo, a narrativa da transição energética é vendida como uma evolução na maneira de gerenciar o futuro, substituindo o alarme do colapso ecológico iminente pela narrativa confortante da obtenção de energia renovável, proveniente do sol e do vento. Essa narrativa, no entanto, esconde mais do que revela. Mesmo após a descoberta do petróleo e da energia nuclear, a humanidade nunca abandonou completamente a lenha ou o carvão. Historicamente, o que observa-se, é uma sobreposição de fontes energéticas e não uma substituição pura e simples (Fressoz, 2024). O mesmo ocorre com a “desmaterialização” na Era Digital; a ideia de que progressos como a nuvem, o streaming, as inovações das Big Techs, nos libertam dos limites do mundo físico e nossa existência tecnológica flutua livre de lastro material. Para Crawford (2024) “tudo isso é parte da imagem pública cuidadosamente produzida de uma indústria de tecnologia sustentável e zero emissão de carbono”. Na realidade, segundo a autora, estima-se que até 2040 o setor de tecnologia contribuirá com 14% das emissões de gases do efeito estufa, e até 2030, a demanda de energia dos data centers aumentará até 15 vezes.  A pesquisa de Emma Strubell et. al. (2019) revelou que o treinamento de um único modelo de processamento de linguagem natural (PLN) de IA produz mais de 300 toneladas de emissões de dióxido de carbono, que Crawford (2025, p. 56) compara ao “equivalente a toda a vida útil de 5 carros movidos a gasolina, ou 125 voos ida e volta de Nova York a Pequim”. Na China, 73% da energia dos data centers é proveniente da queima de carvão que, apenas em 2018, emitiu 99 milhões de toneladas de CO². A estimativa é que haja um aumento de ⅔ dessas emissões até 2030 (Crawford, 2025). Além da demanda colossal de energia, a água é outro recurso indispensável para a indústria de data centers. Nos EUA, um dos maiores data centers pertence à NSA (National Security Agency), localizado no Estado de Utah, a estimativa de consumo diário de água é de 6,4 milhões de litros, a NSA não apenas não confirmou os dados públicos, como os censurou, alegando ser uma questão de segurança nacional (Crawford, 2025). 

O que se vende como imaterial e renovável é, na verdade, a manifestação do extrativismo que repete os mesmos padrões de exploração da natureza, mas agora “vestido de verde”. De 2013 a 2022, foram investidos, aproximadamente, 3,4 trilhões de dólares em energia renovável. Solar e eólica, fundamentais para a transição energética, representaram quase 90% do total dos investimentos, essas tecnologias renováveis dependem, de modo essencial, dos minerais críticos e estratégicos. Uma única turbina eólica terrestre demanda até 9 vezes mais recursos minerais que uma usina de gás natural de capacidade equivalente e os veículos elétricos até 6 vezes mais minerais que os convencionais (Stacciarini;Gonçalves, 2025). De 2015 até 2050, Watari et al. (2019) estimam que, no setor energético, o fluxo de minerais críticos aumente de 200-900%, e no setor de transportes de 350-700%. Segundo Stacciarini e Gonçalves (2025), a grande maioria da exploração desses minerais ocorre no Sul Global. Os autores reforçam que:

“Esses países, caracterizados por baixos níveis de renda, desenvolvimento limitado e condições de vida precárias, frequentemente flexibilizam suas regulamentações ambientais e sociais em troca de benefícios mínimos, como royalties e investimentos diretos. As corporações, por sua vez, aproveitam-se desse cenário para maximizar seus lucros, sem esforços significativos para mudar a realidade local. Além disso, grande parte da infraestrutura tecnológica e das principais empresas envolvidas em toda a cadeia de produção é originária de países ricos, que se beneficiam dos maiores lucros gerados pelo processamento mineral, pela manufatura de tecnologias de ponta e por sua comercialização. Enquanto isso, os trabalhadores e as comunidades nas áreas de extração enfrentam as consequências mais severas dessas atividade” (Stacciarini; Gonçalves, 2025, p. 2). 

A demanda por minerais críticos e estratégicos não se limita à transição energética, mas se estende para a Inteligência Artificial, a indústria militar, a indústria 4.0, entre outras que constituem a base tecnológica do nosso tempo, eles são a coluna vertebral que sustenta o novo padrão de acumulação; a energia, é o coração que mantém o sistema; e os dados, o sistema nervoso central que comanda e coordena a dominação social em escala global. Nas palavras de Amin (2005, p. 85), “os objetivos do capital dominante permanecem os mesmos, o controle da expansão dos mercados, a pilhagem dos recursos naturais do planeta, a superexploração das reservas de mão-de-obra da periferia, ainda que operando em novas condições e, em certos aspectos, muito diferentes daquelas que caracterizaram a fase precedente do imperialismo”. O contraste centro/periferia, agora, não aparece mais apenas no monopólio da indústria, como no século XX, mas sob outras formas, fundado em outros monopólios (tecnologia, acesso aos recursos naturais, comunicações e informação, controle do sistema financeiro mundial, armas de destruição em massa) articulados dos centros do sistema (Amin, 2005).   

Schincariol et al. (2024) argumentam que a economia norte-americana parece estar ingressando em um novo regime de acumulação e regulação, que conceituam provisoriamente como “Capitalismo 4.0”. Esse movimento seria uma reação à queda dos níveis de produtividade, especialmente após 2001. A partir de mutações no capitalismo pós-fordista, emerge no centro da economia mundial um modelo de organização global ainda mais flexível, que ganhou força com a pandemia de COVID-19. A crise sanitária acelerou processos de digitalização já em curso, tais como compras online, ensino à distância, consultas médicas virtuais e home office. Além disso, estimulou operações produtivas via nuvem e o uso de robôs nos setores de serviço e distribuição. Para os autores, o esgotamento da “produção flexível” pós-fordista tornou-se evidente ao longo dos anos 2000, processo agravado pelos efeitos da crise de 2008 e, posteriormente, pela pandemia, com impactos nos ganhos financeiros, nos investimentos e na demanda agregada global. Os efeitos acumulados dessas transformações constituíram os mecanismos básicos para desencadear uma nova onda de inovações tecnológicas, a Indústria 4.0, capaz de “poupar trabalho”, incrementar processos de gestão e ampliar a capacidade exportadora. Neste sentido, vale destacar o documento publicado pelo governo dos EUA, no dia 05 de dezembro de 2025, National Security Strategy of the United States of America (NSS), no qual reatualiza a Doutrina Monroe, de 1823, para a América Latina. Que agora inclui um “Corolário Trump” e determina expandir o acesso dos EUA em locais de importância estratégica para a economia norte-americana e impedir o controle estrangeiro sobre ativos-chaves e cadeias de suprimentos críticas (NSS, 2025), num claro recado à China, a fim de enfraquecer sua presença na região, evidenciando, de modo explícito, a sua política imperialista, reafirmada sem qualquer pudor. 

Poucos dias antes da publicação da Casa Branca, o Banco JP Morgan publicou em seu site um artigo intitulado “América Latina: fonte-chave de minerais para o futuro da Inteligência Artificial”, afirmando que – conforme já destacado em seu relatório Perspectivas 2026; “a região concentra muitos dos insumos dos quais a economia global depende cada vez mais”. Assim, o artigo do JP Morgan diz que “a incomparável base de recursos da América Latina tornou-se indispensável para o futuro”. Segundo o banco, a Agência Internacional de Energia (AIE) aponta que até 2035, o déficit na oferta de cobre pode ser de 20% a 40%, e de 30% a 60% na oferta do lítio. Ressalta, então, “a urgência de desenvolver novos projetos quanto à importância estratégica das reservas latino-americanas, em um cenário onde a demanda global continua superando amplamente a oferta”. No contexto atual da disputa sino-americana por influência global, os países do Sul reemergem como fontes vitais de recursos naturais imprescindíveis para materializar as possibilidades de crescimento econômico e as relações de poder de ambas as potências, assim, intensificam-se os mecanismos de extração da renda imperialista que flui da periferia para subsidiar a manutenção do poder no centro do sistema.

CONCLUSÃO

O futuro “tecno-ecológico” que, concretamente se torna cada vez mais hegemônico, é a mais recente e sofisticada camada sedimentada sobre as estruturas seculares do imperialismo. O duplo circuito extrativo – material, dos minerais; imaterial, dos dados – consolida-se como o mecanismo estruturante do imperialismo no século XXI, operando uma reengenharia do poder que intensifica a pilhagem sob o véu ideológico da neutralidade tecnológica e da urgência climática. A periferia global foi e continua a ser moldada como uma zona de sacrifício, especializada na provisão de matéria-prima e trabalho superexplorados. O que a era digital e da transição energética introduz é uma aceleração exponencial, uma racionalização algorítmica e uma capa discursiva verde para este antigo padrão. A infraestrutura digital otimiza a extração mineral, facilita a financeirização dos recursos e, simultaneamente, institui um novo regime de acumulação por vigilância e extração de dados. O Sul Global fornece, assim, os minerais para os chips e as baterias, e os dados para alimentar os algoritmos, recebendo em troca externalidades socioambientais, dependência tecnológica e a perpetuação de seu lugar na divisão internacional do trabalho. Este complexo tecno-extrativo contemporâneo realiza, em escala ampliada e com meios inéditos, a dinâmica teorizada por Samir Amin: a mundialização do mais-valor e a renda imperialista do século XXI, composta por este duplo fluxo: o fluxo material, da riqueza natural extraída como commodity de baixo valor; e o fluxo imaterial, da riqueza informacional e comportamental extraída como dado. Ambos convergem para subsidiar a acumulação, a inovação e o poder político-militar das potências hegemônicas. O “Corolário Trump” reatualizado na estratégia de segurança nacional dos EUA e a cobiça financeira explicitada pelo JP Morgan são a expressão franca desta lógica permanente. Respondendo à interrogação de Galeano, que abre este trabalho, digo que o passado não é mudo, ele grita hoje pelos fios de cobre que carregam dados, nas crateras abertas pela mineração, através das comunidades espoliadas e expropriadas pelo progresso tecnológico, na exaustão dos novos “lenhadores” da era digital. Somente o movimento da história é capaz de responder essa questão. O fato é que os desafios do Sul Global no século XXI se intensificam, romper com os mecanismos de espoliação e com a estrutura cognitiva que os apresenta como progresso inevitável passa, inevitavelmente, por forjar soberania sobre recursos estratégicos e sobre seu espaço digital, para construir um paradigma alternativo, descolonizado e pós-extrativista. O futuro anunciado será apenas a repetição do passado, renovado e intensificado, sob a continuidade da degradação das condições de vida? O movimento da história não admite determinismos. Cabe aos povos do Sul, cientes da armadilha renovada, escrever um capítulo diferente.

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Além da Fábrica: A Exploração Reprodutiva como Alicerce Oculto do Capitalismo




Quando analisado exclusivamente pela lógica da troca mercantil, o trabalho parece estabelecer uma relação de igualdade entre capitalistas e trabalhadores: o primeiro compra a força de trabalho mediante um salário, enquanto o segundo a vende em troca desse pagamento. No entanto, essa perspectiva de mercado, oferece uma compreensão superficial da dinâmica econômica, pois reduz a complexidade das relações sociais a uma suposta harmonia de interesses. Ao fazer isso, mascara a divisão estrutural entre o político e o econômico, apresentando a exploração como um fenômeno natural e inevitável, dissimulado sob a aparência de reciprocidade.

O que essa visão economicista oculta, porém, é que, no âmbito invisível da produção, o econômico se revela como uma relação social intrinsecamente assimétrica. Mesmo que o direito e as instituições políticas tentem encobrir essa realidade com discursos sobre liberdade contratual e igualdade jurídica, o processo produtivo capitalista está fundado em mecanismos de dominação e coerção. Esses mecanismos, embora frequentemente naturalizados, constituem uma forma de poder político: seu objetivo é extrair do trabalhador mais valor do que aquele correspondente ao custo de sua força de trabalho, perpetuando assim a acumulação de capital. Dessa forma, a economia capitalista, longe de ser um sistema neutro de trocas, organiza-se como uma relação social hierárquica, na qual a subordinação do trabalho ao capital não é acidental, mas estrutural — uma dinâmica que transforma a exploração em motor oculto do próprio progresso produtivo.

A Teoria do Valor-Trabalho, elaborada por Marx, oferece uma base sólida para desvendar essa contradição intrínseca ao capitalismo. Ao afirmar que o valor de uma mercadoria deriva do tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, a teoria expõe o cerne da relação exploradora: o trabalhador, ao vender sua força de trabalho, recebe um salário equivalente ao valor necessário para sua subsistência, mas, no processo produtivo, gera um valor superior ao que lhe é remunerado. Essa diferença — o mais-valor — é apropriada pelo capitalista como lucro, sustentando a acumulação de capital.

A força explicativa dessa teoria reside justamente em transcender a aparência igualitária das trocas mercantis. Enquanto o mercado celebra a “liberdade” de vender e comprar força de trabalho, a análise marxista revela que a igualdade formal esconde uma desigualdade material: o trabalhador, desprovido de meios de produção, é obrigado a se submeter a uma relação em que sua atividade criadora é convertida em fonte de riqueza alheia. Assim, a Teoria do Valor-Trabalho não apenas desmonta a naturalização da exploração, mas também demonstra que a coerção não é um acidente do sistema — é seu alicerce. Ao vincular valor, trabalho e exploração, Marx desloca o foco do equilíbrio de trocas (ilusório) para o desequilíbrio de poder (real), evidenciando que a economia capitalista é, em última instância, um sistema de dominação social disfarçado sob a objetividade dos números e contratos. Por isso, a teoria mantém relevância: ela descreve não apenas como o capitalismo funciona, mas para quem ele funciona.

Embora a Teoria do Valor-Trabalho marxista ilumine a exploração no âmbito da produção direta de mercadorias, ela não incorpora plenamente o trabalho reprodutivo e não mercantilizado – como o cuidado doméstico, a educação informal, o trabalho comunitário ou a manutenção da vida cotidiana -, que, embora invisível aos olhos do mercado, é estrutural para a reprodução do sistema capitalista. Esse trabalho, majoritariamente desempenhado por mulheres, populações racializadas e grupos marginalizados, não gera mais-valor diretamente, mas sustenta a força de trabalho disponível para a exploração, reduzindo os custos sociais de reprodução da mão de obra.

A acumulação capitalista depende dessa dualidade: enquanto a produção de mercadorias extrai valor explícito (mediante a exploração no local de trabalho), o trabalho não remunerado ou precarizado fora dela garante a subsistência barata da classe trabalhadora, liberando o capitalista do ônus de custear integralmente a reprodução social. Por exemplo, o cuidado com crianças, idosos ou doentes – frequentemente não remunerado – permite que trabalhadores retornem ao mercado diariamente, prontos para serem explorados novamente. Essa dinâmica revela que a exploração não se restringe à fábrica: ela se estende à esfera privada, onde relações de gênero, raça e classe operam para naturalizar tarefas essenciais como “não trabalho”.

Autoras feministas, como Silvia Federici, ampliaram essa crítica ao destacar que a “caixa preta” do trabalho reprodutivo foi intencionalmente excluída da análise clássica de Marx, não por acaso, mas porque sua invisibilização é funcional ao capital. Afinal, se o valor fosse calculado incluindo o trabalho doméstico e afetivo, a taxa de exploração revelada seria ainda mais brutal. Assim, embora a teoria marxista original seja poderosa para desvendar a lógica da produção, é preciso expandi-la para abarcar as hierarquias sociais que permitem ao capitalismo externalizar custos e ocultar sua dependência de formas de trabalho não pagas — um silêncio teórico que, longe de ser neutro, reflete e reforça opressões estruturais.

O capitalismo não sobrevive apenas pela extração de mais-valor na produção, mas também pela apropriação gratuita ou precarizada de trabalho fora dela, que atua como alicerce oculto de sua acumulação. Reconhecer isso não invalida a Teoria do Valor-Trabalho, mas exige que a complementemos com análises interseccionais, capazes de revelar como raça, gênero e colonialidade moldam as fronteiras entre o que é considerado “trabalho” e o que é relegado ao âmbito do “natural” ou “invisível”.

A família constitui o território histórico mais estável para a reprodução da força de trabalho, funcionando como uma unidade de manutenção não remunerada que subsidia o capitalismo. Enquanto a produção ocorre na fábrica ou no escritório, é no espaço doméstico que se regeneram os corpos, as subjetividades e as relações necessárias para sustentar o trabalhador diariamente. Cozinhar, limpar, cuidar de crianças, idosos ou doentes – atividades majoritariamente realizadas por mulheres – não são apenas “tarefas privadas”, mas trabalho reprodutivo essencial para que a mão de obra esteja disponível, saudável e socializada para o mercado.

Marx, em sua análise clássica, reconheceu que o salário pago ao trabalhador deve cobrir o custo de sua subsistência, mas não explorou em profundidade como e quem garante esse processo de subsistência. A família, nesse sentido, opera como uma instituição naturalizada que absorve os custos da reprodução social, permitindo que o capital transfira para a esfera privada (e, portanto, não remunerada) o peso de manter viva e funcional a classe trabalhadora. Essa dinâmica é historicamente atravessada por relações de gênero: a divisão sexual do trabalho atribui às mulheres a responsabilidade pelo cuidado, consolidando uma hierarquia que as coloca como trabalhadoras invisíveis do sistema.

Feministas materialistas, como Lise Vogel e Nancy Fraser, argumentam que a exploração capitalista depende dessa dupla jornada: a exploração direta (no local de trabalho assalariado) só é possível porque há uma exploração indireta (no espaço doméstico), onde o trabalho reprodutivo não é contabilizado como produtivo, embora seja vital. A família, assim, não é um refúgio apolítico, mas uma arena de opressão estrutural que converte afeto e obrigação social em mecanismos de extração de valor.

Além disso, a família não é um espaço neutro: sua organização reflete e reforça divisões de classe, raça e nacionalidade. Por exemplo, em contextos coloniais e neocoloniais, mulheres racializadas – tanto no Sul Global quanto nas periferias dos países centrais – são frequentemente recrutadas como trabalhadoras domésticas, permitindo que mulheres brancas de classes médias se integrem ao mercado de trabalho formal. Essa terceirização do cuidado expõe como a reprodução da força de trabalho é atravessada por cadeias globais de exploração.

A durabilidade da família como núcleo reprodutivo também se relaciona com a flexibilidade do capitalismo em externalizar crises. Em períodos de austeridade, quando o Estado reduz serviços públicos (saúde, educação, previdência), é a família — e, dentro dela, principalmente as mulheres – que assume o papel de amortecedor social, intensificando jornadas não pagas para compensar a precarização. Reconhecer a família como lócus central da reprodução da força de trabalho não significa romantizá-la, mas desvelar seu papel político: ela é uma engrenagem oculta do capitalismo, que transforma laços afetivos em instrumentos de dominação. Para superar essa contradição, é preciso desafiar não apenas a exploração no local de trabalho, mas também a naturalização do trabalho doméstico como “destino feminino” –  uma luta que exige aliar a crítica da economia política às pautas feministas, antirracistas e decoloniais.

Embora central, a família não opera isoladamente. A reprodução da força de trabalho é um processo histórico e multifacetado, moldado por arranjos institucionais, políticas públicas, relações de poder e contextos culturais específicos. Sistemas públicos de educação, saúde, previdência e lazer, por exemplo, são mediadores que regulam como a classe trabalhadora é formada, mantida e renovada em cada sociedade. Essas estruturas não são neutras – refletem lutas de classe, pactos sociais e heranças coloniais, definindo quais custos da reprodução social são assumidos pelo Estado, pelo capital ou jogados de volta para as famílias e comunidades.

Na Europa do século XIX, por exemplo, o surgimento de direitos trabalhistas e sistemas de seguridade social foi uma resposta às pressões do movimento operário, que forçou o capital e o Estado a assumirem parte dos custos da reprodução da força de trabalho (como pensões e saúde pública). Já em contextos neoliberais, o desmonte desses sistemas – via privatizações e austeridade – transfere novamente esses custos para a esfera doméstica, intensificando a exploração do trabalho não remunerado, majoritariamente feminino. Isso revela que a fronteira entre “público” e “privado” é dinâmica e disputada politicamente.

Além disso, o capitalismo sempre recorreu a mecanismos extra-familiares e extra-mercado para repor e expandir a força de trabalho. A escravidão foi um pilar da acumulação primitiva, convertendo seres humanos em mercadorias descartáveis, cuja reprodução (quando permitida) era controlada violentamente pelos senhores. Já a imigração – forçada ou “voluntária” – permite ao capital substituir trabalhadores esgotados ou rebeldes por outros mais vulneráveis, muitas vezes racializados, explorando diferenças salariais e status jurídico precário. Esses mecanismos coexistem com a reprodução biológica (parto), mas também a tensionam. Por exemplo, em economias dependentes de imigrantes, o Estado pode restringir direitos reprodutivos desses grupos (como políticas antinatalistas) ou, ao contrário, incentivar o parto em certas classes (eugenia social). A própria ideia de “família trabalhadora” é atravessada por hierarquias: enquanto famílias brancas e abastadas são incentivadas a se reproduzir, famílias negras, indígenas ou pobres frequentemente sofrem esterilizações forçadas ou separações – como no histórico welfare queen, um estereótipo racista nos EUA que criminaliza mães negras.

Portanto, a reprodução da força de trabalho é um campo de batalha onde se cruzam:

  1. Instituições públicas: Educação forma trabalhadores adaptados às demandas do mercado; saúde mantém corpos produtivos; lazer e cultura moldam subjetividades conformistas.
  2. Coerção extra-econômica: Escravidão, colonialismo e imigração controlada revelam que o capital não depende apenas do “livre contrato” — usa violência direta para garantir mão de obra barata.
  3. Dinâmicas demográficas: Taxas de natalidade, mortalidade e migração são reguladas por Estados e empresas para equilibrar oferta de trabalho e demanda por lucros.
  4. Lutas sociais: Conquistas como licença-maternidade, creches públicas ou direitos migratórios resultam de embates entre capital, trabalhadores e movimentos feministas/antirracistas.

Assim, a família é uma peça — crucial, mas não única — em um quebra-cabeças maior. O capitalismo é um sistema plasticamente predatório: em alguns momentos, ele se apoia na família nuclear patriarcal; em outros, na destruição de laços comunitários (como o êxodo rural); e, em outros ainda, na importação massiva de corpos racializados. Para compreender como uma classe trabalhadora específica é “produzida”, é necessário analisar como esses elementos se articulam em cada formação social. A reprodução da força de trabalho é um processo geograficamente desigual e historicamente híbrido, que não se reduz à família, mas também não existe sem ela. Desvendar essa complexidade exige uma análise materialista que dialogue com a economia política, os estudos de gênero, a teoria racial e a crítica do colonialismo — porque o capitalismo nunca foi um sistema puramente “econômico”, mas uma máquina de gestão violenta da vida e da morte.