IMPERIALISMO NA ERA DIGITAL E TRANSIÇÃO ENERGÉTICA: MECANISMOS RENOVADOS DE TRANSFERÊNCIA DE VALOR DO SUL GLOBAL

Daniela Doms – Doutoranda em Economia Política, UFABC

“O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?” 

Eduardo Galeano

INTRODUÇÃO

No século XXI, as narrativas hegemônicas da Quarta Revolução Industrial e da transição energética apresentam-se como vetores do progresso técnico e universalmente benéfico. No entanto, estes projetos estão profundamente entrelaçados com dinâmicas geopolíticas de poder e acumulação que reconfiguram os padrões seculares de dominação. Diante dessa contradição, este artigo pretende refletir de que modo os pilares materiais deste paradigma tecno-ecológico: a extração de minerais críticos e a operação da infraestrutura digital, intensificam os mecanismos históricos de transferência de valor e dependência do Sul Global, reeditando, sob o véu ideológico da neutralidade tecnológica e da urgência climática, as estruturas clássicas do imperialismo no século XXI. A hipótese central que orienta esta análise é a de que a extração de minerais críticos e a operação da infraestrutura digital atuam como os principais vetores materiais e discursivos da reconfiguração dos padrões históricos do imperialismo no século XXI. Esta renovação opera através da institucionalização de um duplo circuito extrativo, material e imaterial, que intensifica e sofistica os mecanismos de transferência de valor e dependência do Sul Global. A extração mineral contemporânea reativa e moderniza o extrativismo colonial, criando uma dependência estratégica renovada. A demanda por minerais críticos, definidos pelas necessidades securitárias e industriais do centro do sistema, converte territórios do Sul Global em novas fronteiras essenciais de recursos. Este processo não apenas reproduz os danos socioambientais históricos, mas, cristaliza uma divisão internacional do trabalho que captura valor nas etapas de maior complexidade tecnológica (refino, fabricação de componentes, produção de bens finais), situadas no Norte Global e em polos industriais asiáticos. O Sul, por sua vez, permanece fornecedor de commodities de baixo valor agregado, preso a uma vulnerabilidade cíclica e impedido de construir cadeias industriais autônomas. A retórica da “transição verde” serve aqui para legitimar essa pressão extrativa como um imperativo planetário, obscurecendo seus fundamentos geopolíticos. Paralelamente, o controle sobre a infraestrutura concede poder de vigilância, estrangulamento e governança sobre as economias periféricas, criando uma dependência profunda que mina a soberania nacional. A infraestrutura digital, portanto, racionaliza, acelera e protege juridicamente todo o complexo extrativo global. A narrativa dupla, “verde” e “digital”, fornece a camada de legitimação ideológica. Dessa forma, o imperialismo contemporâneo aprisiona o Sul Global em uma função renovada de fornecedor de commodities, perpetuando sua condição periférica e financiando a acumulação no centro do sistema.

  1. IMPERIALISMO E A RELAÇÃO CENTRO-PERIFERIA 

A análise da mineração no Brasil colonial escravista, na obra de Jacob Gorender (2016), constitui a genealogia histórica concreta dos processos estruturais que conformaram a sociedade brasileira: a especialização primário-exportadora, a superexploração do trabalho, a transferência de valor para o centro e a constituição de um Estado funcional à espoliação. Movidos pela lógica predatória, essa dinâmica estabeleceu uma relação puramente instrumental, de esgotamento, tanto da Natureza, como do trabalho. O escravo minerador, submetido a condições brutais em galerias e bateias, era tratado como um recurso descartável para a extração de um recurso finito. A análise evidencia tanto a noção de superexploração ampliada, quanto o desgaste ecossistêmico produzido pela mineração, demonstrando que a atividade operou como um mecanismo eficientíssimo de transferência de valor. Gorender demonstra o elo direto entre a superexploração colonial e a acumulação de capital no centro dinâmico do capitalismo nascente. O processo descrito pelo autor subsidia o que Ruy Mauro Marini (1979) definiu como o padrão de reprodução do capital dependente, fundado na superexploração do trabalho como mecanismo compensatório da transferência sistemática de valor, e o que Samir Amin (2011) chamou de mundialização do mais-valor: a periferia fornecendo commodities sob relações de produção arcaicas e superexploradoras para financiar o desenvolvimento industrial alheio. Neste sentido, Amin (2005) afirma que o capitalismo nasce imperialista. Para o autor, o imperialismo não é um estágio, tão pouco um estágio superior, está inseparavelmente contido na natureza do capitalismo desde sua origem. E é no saque às Américas que ele desenvolve seu primeiro momento devastador. O segundo momento de sua devastação se expressa na Revolução Industrial e na submissão colonial da Ásia e da África, novamente motivado pela apropriação dos recursos naturais dessas regiões, mas também na busca de novos mercados para a sua expansão. Como observado por Marx e Engels no Manifesto Comunista, em  1848, a necessidade de um mercado em constante expansão persegue a burguesia por toda a superfície do globo e ela deve criar conexões em toda parte.  No entanto, até o início do século XIX criar essas conexões levava tempo, a velocidade da comunicação estava intrinsecamente limitada pela distância física. O capital necessitava de informações em tempo hábil para circular com eficiência, e essa circulação era estruturalmente impedida pela desconexão entre a velocidade da produção industrial e a lentidão das comunicações intercontinentais. Isso impedia a integração plena dos mercados globais e também constituía-se num desafio para a dominação imperial. Foi precisamente este gargalo tecnológico que tornou o telégrafo elétrico não apenas uma inovação, mas uma condição para a consolidação do capitalismo industrial em escala verdadeiramente global. Neste sentido, muito antes da internet, a invenção do telégrafo no século XIX revolucionou a comunicação mundial, “um salto quântico que colocou a metrópole em comunicação quase direta e em “tempo real” com os confins do império” (Tully, 2009, p. 560). A invenção do telégrafo contribuiu enormemente para conectar e expandir mercados como para o controle imperial das colônias. A nova tecnologia atrelava-se profundamente ao colonialismo, tanto no uso que lhe foi dado quanto na própria matéria prima que a tornou possível: a guta-percha (Tully, 2009). 

Uma árvore específica do Sudeste Asiático ocupou lugar central na infraestrutura essencial da expansão da telegrafia através de cabos submarinos transatlânticos. Encontrada principalmente na Malásia e em Singapura, a Palaquium Gutta produz um látex natural denominado como gutta-percha, que revelou-se a solução para o isolamento dos cabos subaquáticos. Através do Canal da Mancha, em 1850, os cabos revestidos com gutta-percha começaram a conectar a Inglaterra à França e, em 1865, Karachi, na Índia, já estava ligada em comunicação quase instantânea com Londres “com os sinais de código Morse voando pelos fios (…). Malta foi conectada a Alexandria em 1868; a França à Terra Nova em 1869; Índia, Hong Kong, China e Japão até 1870; a Austrália em 1871; e a América do Sul até 1874” (Tully, 2009, p. 568). Inicialmente, a tecnologia passou a operar com investimentos provenientes de capital privado, com montantes astronômicos que, hoje, equivaleriam a 10 bilhões de libras esterlinas. Não tardou, porém, para que os governos passassem a subsidiar os investimentos, especialmente por seu valor estratégico e militar. Em 1879, após a Guerra Anglo-Zulu, o governo britânico passou a subsidiar a Eastern and Southern Africa Telegraph Company (Tully, 2009). 

Tully (2009, p. 560) afirma que: “se Londres era o cérebro do Império, os cabos telegráficos eram seus nervos. Os “nervos” foram um triunfo da engenharia vitoriana”. Para o autor, esse foi um grande passo para o que hoje chama-se de globalização e a gutta-percha foi a condição indispensável para o sucesso do telégrafo submarino. Para os padrões da época, a telegrafia elétrica tratava-se de uma indústria de alta tecnologia.  No entanto, enquanto o cobre para os fios e o revestimento externo de ferro era produzido industrialmente, em empreendimentos de grande escala com trabalho organizado de mineradores e operários nas fábricas, a gutta-percha provinha de uma indústria extrativa primitiva que dependia do trabalho duro e insalubre de lenhadores que arriscavam suas vidas através de métodos rudimentares e ineficientes, devastando as florestas pela pressão implacável do mercado. A exportação de gutta-percha para a Europa começou em 1844 e, entre 1845 e 1847, quase 70 mil árvores foram derrubadas em Singapura, aumentando cada vez mais. Em Bornéu, entre 1875 e 1885, cerca de 3 milhões de árvores foram exterminadas. Em aproximadamente 50 anos a árvore estava praticamente extinta da natureza, a indústria telegráfica destruiu as árvores das quais dependia sua existência. Tully (2009, p. 576) argumenta que: 

“(…) foi o colonialismo que remodelou a face do Sudeste Asiático, removendo as florestas e erguendo novas cidades como Singapura no processo. A cor das mãos que empunhavam o machado e o parang era irrelevante neste aspecto. Podemos ao menos ser gratos, no entanto, que não foi considerado necessário submeter os malaios ao tipo de escravidão e violência que acompanhou a exploração das árvores e cipós de borracha silvestres no chamado Estado Livre do Congo sob Leopoldo II dos Belgas e no rio Putumayo, no Peru”. 

Se o telégrafo foi o “sistema nervoso” do imperialismo vitoriano, a extração mineral nos primeiros ciclos de exploração colonial forneceu o sangue vital, o fluxo de metais preciosos que irrigou e alimentou o imperialismo nascente. A destruição material das fontes de riqueza é a expressão concreta da contradição fundamental do capitalismo desde sua origem, que se manifesta historicamente de forma contínua e escalonada, e tende a canibalizar sua própria base, levando a degradação ecológica, política e social (Fraser, 2024). Em O Capital (Livro I), Marx demonstra que o desenvolvimento histórico do capitalismo está intrinsecamente ligado ao aumento contínuo da produtividade, impulsionado, sobretudo, pelo avanço tecnológico. Contudo, não deixa de reconhecer que as fontes originais de toda a riqueza são o trabalho e a Natureza. Neste sentido, citando William Petty, Marx diz: “se o trabalho é o pai da riqueza material, a terra é a mãe” (Marx, 2013, p. 167). Ao submeter o trabalho a relações de exploração e alienação, esgota a vitalidade e a capacidade criativa dos trabalhadores. Paralelamente, ao tratar a Natureza como mero recurso a ser explorado, degrada os ecossistemas e rompe o metabolismo entre sociedade e meio ambiente. Dessa forma, o capital, movido pela lógica da valorização, acaba por corroer as bases que o originam: o trabalho vivo e a terra. Para Fanon (2022) o colonialismo é violência em Estado puro, violência estrutural que desumaniza, aliena, confisca e reduz a existência  do colonizado à coisificação. Mas, mesmo após os processos de descolonização política no século XX, isso não representou o fim da dominação imperial, e sim a sua transformação em um mecanismo mais sofisticado e eficaz: o neocolonialismo (N’Krumah, 1967). Se no modelo colonial, descrito por Gorender, o controle era direto (administração metropolitana, monopólios comerciais, escravidão), no neocolonialismo ele se torna indireto, porém mais abrangente. A economia e a política da ex-colônia são dirigidas de fora. A dominação não é mais imposta por um governo colonial, mas pela ação combinada de corporações transnacionais que controlam setores-chave (mineração, petróleo, plantações), por instituições financeiras internacionais (FMI, Banco Mundial) que condicionam políticas através da dívida e dos ajustes estruturais, pelo aparato de “assistência” técnica e militar que vincula as elites locais aos interesses do centro (N’Krumah, 1967). 

O capitalismo imperialista, em si, é violência em estado puro. O colonialismo ou o neocolonialismo são fases dessa violência que se manifesta ora direta, ora indiretamente, mas coexistem de forma permanente. O sistema centro-periferia é, portanto, estrutura perene do imperialismo. A periferia é moldada para se especializar na produção primária (commodities) e fornecer recursos a baixo custo, enquanto o centro monopoliza a tecnologia, a indústria de alto valor e o poder financeiro (Amin, 1976; Patnaik&Patnaik, 2024). Assim, na era do capitalismo monopolista globalizado, a lei do valor de Marx só pode ser plenamente compreendida em sua escala efetiva de operação: a escala mundial. A articulação entre a superexploração do trabalho e a gestão predatória dos recursos naturais da periferia são mecanismos que, combinados, permitem a extração sistemática de uma renda imperialista para o centro do sistema (Amin, 2011). A lei do valor mundializada constitui, portanto, uma forma de regulação do sistema capitalista, evidenciando as assimetrias estruturais da economia-mundo. A transferência de valor da periferia para o centro é um mecanismo constitutivo da reprodução do capital.

  1.  TECNO-OTIMISMO: O VÉU DA DEGRADAÇÃO

O avanço tecnológico transformou a vida cotidiana no século XXI sob o mesmo princípio predatório que estrutura o capitalismo desde sua origem, que persiste e se sofistica, agora de maneira ainda mais parasita, tal qual a Vespa de Darwin, capaz de manipular o comportamento de seu hospedeiro enquanto o consome até a morte. A dominação imperialista segue operando em um espectro que alterna entre o controle direto e indireto. E o horizonte temporal crítico aponta para um dos desafios mais complexos e existenciais da história humana, a crise ecológica e a degradação acelerada das condições sistêmicas que sustentam a vida, resultado direto do acúmulo histórico do padrão de exploração e esgotamento. Paradoxalmente, o mesmo setor de tecnologia que promoveu uma onda de inovações provocando transformações no mundo do trabalho (Figueiras e Cavalcante, 2020; Antunes, 2018), na produção e no padrão de acumulação no século XXI (Schincariol et al., 2024), propagandeia planos para o enfrentamento da crise climática através do uso das tecnologias como ferramentas de resolução de problemas (Crawford, 2025), ao mesmo tempo em que transforma também a experiência humana em matéria-prima gratuita, manipulada pelas Big Techs (Google, Meta, Amazon, Microsoft, Nvidia, Tesla, Apple). Essas empresas, majoritariamente localizadas em território norte-americano, personificam hoje o núcleo de comando de monopólios que controlam os fluxos globais de dados, a arquitetura das redes de comunicação, os sistemas operacionais da experiência social e os algoritmos que moldam a percepção da realidade (Zuboff, 2021). O valor de mercado dessas empresas supera o PIB de toda a América Latina (Feldmann, 2024). 

O tecno-otimismo tornou-se o evangelho do Vale do Silício, assim como exposto no Manifesto de Marc Andreesen (2023), bilionário que fez fortuna na década de 1990 no setor de tecnologia: “Acreditamos que não há nenhum problema material, seja ele criado pela natureza ou pela tecnologia, que não possa ser resolvido com mais tecnologia”, encapsulando, assim, o desejo público de um futuro melhor. Do mesmo modo, a narrativa da transição energética é vendida como uma evolução na maneira de gerenciar o futuro, substituindo o alarme do colapso ecológico iminente pela narrativa confortante da obtenção de energia renovável, proveniente do sol e do vento. Essa narrativa, no entanto, esconde mais do que revela. Mesmo após a descoberta do petróleo e da energia nuclear, a humanidade nunca abandonou completamente a lenha ou o carvão. Historicamente, o que observa-se, é uma sobreposição de fontes energéticas e não uma substituição pura e simples (Fressoz, 2024). O mesmo ocorre com a “desmaterialização” na Era Digital; a ideia de que progressos como a nuvem, o streaming, as inovações das Big Techs, nos libertam dos limites do mundo físico e nossa existência tecnológica flutua livre de lastro material. Para Crawford (2024) “tudo isso é parte da imagem pública cuidadosamente produzida de uma indústria de tecnologia sustentável e zero emissão de carbono”. Na realidade, segundo a autora, estima-se que até 2040 o setor de tecnologia contribuirá com 14% das emissões de gases do efeito estufa, e até 2030, a demanda de energia dos data centers aumentará até 15 vezes.  A pesquisa de Emma Strubell et. al. (2019) revelou que o treinamento de um único modelo de processamento de linguagem natural (PLN) de IA produz mais de 300 toneladas de emissões de dióxido de carbono, que Crawford (2025, p. 56) compara ao “equivalente a toda a vida útil de 5 carros movidos a gasolina, ou 125 voos ida e volta de Nova York a Pequim”. Na China, 73% da energia dos data centers é proveniente da queima de carvão que, apenas em 2018, emitiu 99 milhões de toneladas de CO². A estimativa é que haja um aumento de ⅔ dessas emissões até 2030 (Crawford, 2025). Além da demanda colossal de energia, a água é outro recurso indispensável para a indústria de data centers. Nos EUA, um dos maiores data centers pertence à NSA (National Security Agency), localizado no Estado de Utah, a estimativa de consumo diário de água é de 6,4 milhões de litros, a NSA não apenas não confirmou os dados públicos, como os censurou, alegando ser uma questão de segurança nacional (Crawford, 2025). 

O que se vende como imaterial e renovável é, na verdade, a manifestação do extrativismo que repete os mesmos padrões de exploração da natureza, mas agora “vestido de verde”. De 2013 a 2022, foram investidos, aproximadamente, 3,4 trilhões de dólares em energia renovável. Solar e eólica, fundamentais para a transição energética, representaram quase 90% do total dos investimentos, essas tecnologias renováveis dependem, de modo essencial, dos minerais críticos e estratégicos. Uma única turbina eólica terrestre demanda até 9 vezes mais recursos minerais que uma usina de gás natural de capacidade equivalente e os veículos elétricos até 6 vezes mais minerais que os convencionais (Stacciarini;Gonçalves, 2025). De 2015 até 2050, Watari et al. (2019) estimam que, no setor energético, o fluxo de minerais críticos aumente de 200-900%, e no setor de transportes de 350-700%. Segundo Stacciarini e Gonçalves (2025), a grande maioria da exploração desses minerais ocorre no Sul Global. Os autores reforçam que:

“Esses países, caracterizados por baixos níveis de renda, desenvolvimento limitado e condições de vida precárias, frequentemente flexibilizam suas regulamentações ambientais e sociais em troca de benefícios mínimos, como royalties e investimentos diretos. As corporações, por sua vez, aproveitam-se desse cenário para maximizar seus lucros, sem esforços significativos para mudar a realidade local. Além disso, grande parte da infraestrutura tecnológica e das principais empresas envolvidas em toda a cadeia de produção é originária de países ricos, que se beneficiam dos maiores lucros gerados pelo processamento mineral, pela manufatura de tecnologias de ponta e por sua comercialização. Enquanto isso, os trabalhadores e as comunidades nas áreas de extração enfrentam as consequências mais severas dessas atividade” (Stacciarini; Gonçalves, 2025, p. 2). 

A demanda por minerais críticos e estratégicos não se limita à transição energética, mas se estende para a Inteligência Artificial, a indústria militar, a indústria 4.0, entre outras que constituem a base tecnológica do nosso tempo, eles são a coluna vertebral que sustenta o novo padrão de acumulação; a energia, é o coração que mantém o sistema; e os dados, o sistema nervoso central que comanda e coordena a dominação social em escala global. Nas palavras de Amin (2005, p. 85), “os objetivos do capital dominante permanecem os mesmos, o controle da expansão dos mercados, a pilhagem dos recursos naturais do planeta, a superexploração das reservas de mão-de-obra da periferia, ainda que operando em novas condições e, em certos aspectos, muito diferentes daquelas que caracterizaram a fase precedente do imperialismo”. O contraste centro/periferia, agora, não aparece mais apenas no monopólio da indústria, como no século XX, mas sob outras formas, fundado em outros monopólios (tecnologia, acesso aos recursos naturais, comunicações e informação, controle do sistema financeiro mundial, armas de destruição em massa) articulados dos centros do sistema (Amin, 2005).   

Schincariol et al. (2024) argumentam que a economia norte-americana parece estar ingressando em um novo regime de acumulação e regulação, que conceituam provisoriamente como “Capitalismo 4.0”. Esse movimento seria uma reação à queda dos níveis de produtividade, especialmente após 2001. A partir de mutações no capitalismo pós-fordista, emerge no centro da economia mundial um modelo de organização global ainda mais flexível, que ganhou força com a pandemia de COVID-19. A crise sanitária acelerou processos de digitalização já em curso, tais como compras online, ensino à distância, consultas médicas virtuais e home office. Além disso, estimulou operações produtivas via nuvem e o uso de robôs nos setores de serviço e distribuição. Para os autores, o esgotamento da “produção flexível” pós-fordista tornou-se evidente ao longo dos anos 2000, processo agravado pelos efeitos da crise de 2008 e, posteriormente, pela pandemia, com impactos nos ganhos financeiros, nos investimentos e na demanda agregada global. Os efeitos acumulados dessas transformações constituíram os mecanismos básicos para desencadear uma nova onda de inovações tecnológicas, a Indústria 4.0, capaz de “poupar trabalho”, incrementar processos de gestão e ampliar a capacidade exportadora. Neste sentido, vale destacar o documento publicado pelo governo dos EUA, no dia 05 de dezembro de 2025, National Security Strategy of the United States of America (NSS), no qual reatualiza a Doutrina Monroe, de 1823, para a América Latina. Que agora inclui um “Corolário Trump” e determina expandir o acesso dos EUA em locais de importância estratégica para a economia norte-americana e impedir o controle estrangeiro sobre ativos-chaves e cadeias de suprimentos críticas (NSS, 2025), num claro recado à China, a fim de enfraquecer sua presença na região, evidenciando, de modo explícito, a sua política imperialista, reafirmada sem qualquer pudor. 

Poucos dias antes da publicação da Casa Branca, o Banco JP Morgan publicou em seu site um artigo intitulado “América Latina: fonte-chave de minerais para o futuro da Inteligência Artificial”, afirmando que – conforme já destacado em seu relatório Perspectivas 2026; “a região concentra muitos dos insumos dos quais a economia global depende cada vez mais”. Assim, o artigo do JP Morgan diz que “a incomparável base de recursos da América Latina tornou-se indispensável para o futuro”. Segundo o banco, a Agência Internacional de Energia (AIE) aponta que até 2035, o déficit na oferta de cobre pode ser de 20% a 40%, e de 30% a 60% na oferta do lítio. Ressalta, então, “a urgência de desenvolver novos projetos quanto à importância estratégica das reservas latino-americanas, em um cenário onde a demanda global continua superando amplamente a oferta”. No contexto atual da disputa sino-americana por influência global, os países do Sul reemergem como fontes vitais de recursos naturais imprescindíveis para materializar as possibilidades de crescimento econômico e as relações de poder de ambas as potências, assim, intensificam-se os mecanismos de extração da renda imperialista que flui da periferia para subsidiar a manutenção do poder no centro do sistema.

CONCLUSÃO

O futuro “tecno-ecológico” que, concretamente se torna cada vez mais hegemônico, é a mais recente e sofisticada camada sedimentada sobre as estruturas seculares do imperialismo. O duplo circuito extrativo – material, dos minerais; imaterial, dos dados – consolida-se como o mecanismo estruturante do imperialismo no século XXI, operando uma reengenharia do poder que intensifica a pilhagem sob o véu ideológico da neutralidade tecnológica e da urgência climática. A periferia global foi e continua a ser moldada como uma zona de sacrifício, especializada na provisão de matéria-prima e trabalho superexplorados. O que a era digital e da transição energética introduz é uma aceleração exponencial, uma racionalização algorítmica e uma capa discursiva verde para este antigo padrão. A infraestrutura digital otimiza a extração mineral, facilita a financeirização dos recursos e, simultaneamente, institui um novo regime de acumulação por vigilância e extração de dados. O Sul Global fornece, assim, os minerais para os chips e as baterias, e os dados para alimentar os algoritmos, recebendo em troca externalidades socioambientais, dependência tecnológica e a perpetuação de seu lugar na divisão internacional do trabalho. Este complexo tecno-extrativo contemporâneo realiza, em escala ampliada e com meios inéditos, a dinâmica teorizada por Samir Amin: a mundialização do mais-valor e a renda imperialista do século XXI, composta por este duplo fluxo: o fluxo material, da riqueza natural extraída como commodity de baixo valor; e o fluxo imaterial, da riqueza informacional e comportamental extraída como dado. Ambos convergem para subsidiar a acumulação, a inovação e o poder político-militar das potências hegemônicas. O “Corolário Trump” reatualizado na estratégia de segurança nacional dos EUA e a cobiça financeira explicitada pelo JP Morgan são a expressão franca desta lógica permanente. Respondendo à interrogação de Galeano, que abre este trabalho, digo que o passado não é mudo, ele grita hoje pelos fios de cobre que carregam dados, nas crateras abertas pela mineração, através das comunidades espoliadas e expropriadas pelo progresso tecnológico, na exaustão dos novos “lenhadores” da era digital. Somente o movimento da história é capaz de responder essa questão. O fato é que os desafios do Sul Global no século XXI se intensificam, romper com os mecanismos de espoliação e com a estrutura cognitiva que os apresenta como progresso inevitável passa, inevitavelmente, por forjar soberania sobre recursos estratégicos e sobre seu espaço digital, para construir um paradigma alternativo, descolonizado e pós-extrativista. O futuro anunciado será apenas a repetição do passado, renovado e intensificado, sob a continuidade da degradação das condições de vida? O movimento da história não admite determinismos. Cabe aos povos do Sul, cientes da armadilha renovada, escrever um capítulo diferente.

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FOME ESTRUTURAL E SUBORDINAÇÃO DA VIDA: 

COMO MEGACORPORAÇÕES E MERCADOS FINANCEIROS TRANSFORMAM ALIMENTOS EM ARMAS DE CONTROLE SOCIAL

A escassez alimentar é frequentemente atribuída a fatores como conflitos armados, crises econômicas e desastres climáticos. Contudo, embora esses elementos sejam relevantes, eles não a explicam em sua totalidade, pois não podem ser entendidos como meros desvios circunstanciais, quando na verdade são manifestações estruturais do capitalismo (Ribeiro Júnior, 2021). A escassez alimentar cumpre um papel funcional nesse sistema: atua como mecanismo de controle que subjuga a classe trabalhadora às exigências do mercado, materializando o que Marx chamou de “coerção muda das condições econômicas” – a imposição indireta da exploração através da privação material (Marx, 2013).

A desigualdade na distribuição de alimentos, embora central, também é insuficiente para decifrar a fome, pois a produção precede a distribuição e o consumo, assim, é a distribuição dos meios de produção que define quem acessa recursos e como eles circulam. A produção capitalista não se limita a gerar mercadorias: reproduz relações sociais desiguais. A concentração de terras, tecnologias e capital nas mãos de uma minoria – em detrimento da maioria despossuída – ilustra como a fome é inerente à lógica de acumulação, não um fracasso pontual do sistema (Ribeiro Júnior, 2022).

Desta maneira, para compreender a fome em sua magnitude, é preciso analisar os processos de exploração, expropriação e espoliação que reduzem os trabalhadores à condição de mera mão de obra, pois são esses processos, em suas diferentes formas, que respondem pela produção social da fome. Altas taxas de informalidade, subutilização e desocupação da força de trabalho influenciam, sobremaneira, na insegurança alimentar. Privados dos meios de produção e subsistência, os trabalhadores são impedidos de acessar os bens essenciais para suprir suas necessidades e forçados a vender continuamente a sua força de trabalho para fugir da fome. Todavia, aqueles que são impossibilitados de empregar sua força de trabalho, estão condenados ao risco de fome e à fome” (Ribeiro Júnior, 2021, p.31).  

A colonização foi um elemento crucial na disseminação das relações capitalistas de produção, alicerçada na violência da exploração e da expropriação de povos racializados. Nesse processo, o racismo atua como um mecanismo de dominação social, legitimando desigualdades estruturais ao naturalizar a precarização laboral e a remuneração desproporcional de grupos historicamente subjugados. Essa lógica é evidente, por exemplo, na disparidade salarial persistente entre indivíduos brancos e negros, assim como na segmentação racial do mercado de trabalho, onde raça e cor definem condições de emprego e acesso a direitos (Almeida, 2020). Em uma sociedade estruturada pelo patriarcado e pela divisão sexual do trabalho, as desigualdades de gênero também marcam brutalmente a exploração das mulheres (Fraser, 2024).

Em cada 10 domicílios com responsáveis mulheres, mais de 6 estavam em algum nível de insegurança alimentar, e destes 18% em situação de fome. Situação semelhante ocorreu nos domicílios cujos responsáveis se identificaram como pretos ou pardos, 6 em cada 10 domicílios viviam algum grau de insegurança alimentar (Rede Penssam, 2022). A fome, portanto, é um fenômeno intrinsecamente racializado e generificado: a precarização do trabalho formal empurra mulheres – em especial negras, indígenas e periféricas – para ocupações informais e desprotegidas, enquanto a naturalização social do cuidado as obriga a administrar a escassez com o próprio corpo. Não é uma “escolha”, mas um mecanismo de opressão que vincula a sobrevivência das famílias à auto exploração feminina. Analisar a insegurança alimentar demanda, assim, desnaturalizar as estruturas que transformam corpos de mulheres em amortecedores das crises sistêmicas: sob o patriarcado capitalista, são elas – majoritariamente racializadas e pobres – quem absorvem o impacto da fome, amplificando-a em seus próprios corpos como custo silencioso da reprodução social (Bhattacharya, 2023; Cavallero e Gago, 2024; Federici, Cavallero e Gago, 2023; Fraser, 2024).

A desvalorização dos capitais em circulação intensifica a informalidade, o subemprego e o desemprego, comprimindo o orçamento familiar e impondo restrições tanto quantitativas quanto qualitativas no acesso aos alimentos – sobretudo nos domicílios mais pobres. Esse fenômeno não é novo: durante a crise de 2008, por exemplo, milhões de pessoas nos Estados Unidos foram impactadas (Ribeiro Júnior, 2021). No entanto, em um contexto de economia globalizada, os efeitos da crise se expandiram para além das fronteiras nacionais, atingindo com maior gravidade os países mais vulneráveis (Ribeiro Júnior, 2021, p. 34). Mais recentemente, a pandemia de COVID-19 também exacerbou a fome, evidenciando como crises econômicas e sanitárias se entrelaçam e aprofundam a insegurança alimentar global.

Apesar dos desafios impostos pela pandemia à produção e distribuição de alimentos, não houve, no Brasil, uma crise de desabastecimento. A fome que se alastrou durante esse período resultou na incapacidade de milhões de pessoas – sem trabalho e renda – de acessar os alimentos disponíveis no mercado. Como destaca Ribeiro Júnior (2021, p. 35), “a pandemia simplesmente exacerbou um dilema anterior, pois, despojados continuamente das condições necessárias para garantir seu próprio sustento, os trabalhadores são obrigados a aceitar as condições de trabalho que lhes são impostas ou sofrer com a fome”. Nesse cenário, pessoas empregadas em supermercados e as trabalhadoras domésticas foram particularmente afetadas, expostas sistematicamente ao risco de contaminação sem a possibilidade de isolamento. Um caso emblemático foi o de Cleonice Gonçalves, de 63 anos, primeira vítima fatal da COVID-19 no estado do Rio de Janeiro, uma empregada doméstica infectada por seus patrões, que haviam retornado da Itália (Instituto Walter Leser, s/d).

Ribeiro Júnior (2021, p. 36), afirma que: “Sob a pressão crescente da fome os trabalhadores (…) aceitam condições de trabalho cada vez mais precárias, por vezes análogas à escravidão”. Neste sentido, é indispensável compreender que, se por um lado, estão os que sofrem com a fome, por outro, também há os que se beneficiam com ela. Rangasami (1985) argumenta que as crises de fome também representam novas e ampliadas oportunidades para a acumulação. E, não por acaso, foi na pandemia que os supermercados brasileiros bateram recorde de lucro (ABRAS, 2020). Em 2020 houve um aumento de 9,36% nas vendas em comparação com o ano anterior, o maior aumento anual da categoria em 20 anos. O Grupo Pão de Açúcar obteve lucro de R$1,59 bilhão no último trimestre de 2020, um aumento de 58,5% em relação ao mesmo período de 2019. Já o Carrefour registrou lucro de R$935 milhões, aumento de 47% em relação ao último trimestre do ano anterior (ABRAS, 2020). Os supermercados são a ponta de um enorme complexo que redefiniu a maneira como produzimos, distribuímos e comemos nas últimas décadas: o sistema agroalimentar global.

O neoliberalismo econômico reconfigurou o sistema alimentar, organizações como FMI e Banco Mundial impuseram ajustes estruturais que liberalizaram mercados agrícolas, subordinando países periféricos a corporações transnacionais. O estabelecimento da Organização Mundial do Comércio (WTO) e do Acordo sobre Agricultura (AoA), institucionaliza a liberalização dos mercados nacionais e restringe os direitos dos estados regularem a agricultura e a alimentação (Schneider, 2016). A Revolução Verde, inicialmente promovida sob o pretexto de uma solução tecnológica para acabar com a fome, consolidou um modelo industrial de agricultura baseado em monocultivos, reduzindo a diversidade alimentar: hoje 90% das calorias consumidas globalmente derivam de apenas 15 culturas, com soja, trigo, milho e arroz dominando a dieta mundial (Abramovay, 2021; McMichael, 2016). Esse regime mercantil-industrial, liderado pelos EUA, pavimentou o caminho para o regime corporativo pós-2000, marcado pelo controle de megacorporações como Bayer e Cargill sobre sementes, agrotóxicos e cadeias produtivas, mas também de corporações transnacionais de alimentos como Nestlé, Coca Cola, Pepsico, Unilever, McDonald’s, Burguer King, Starbucks, entre outras (Friedmann, 2005; Wilkinson, 2008). 

Essas corporações são beneficiadas de inúmeras formas no Brasil. Por exemplo, ao longo de quase uma década, o país deixou de arrecadar aproximadamente mais de 13 bilhões de reais com renúncias fiscais somente de dez empresas de alimentos ultraprocessados. Estão no topo das corporações mais beneficiadas, empresas como Coca Cola, Ambev, M. Dias Branco (Piraquê) e Nestlé. Mas a lista é longa; Unilever, Mondelez, Chocolates Garoto, Piracanjuba, Nissin, Heinz, Vigor, etc (Peres, 2025). Esse esquema econômico, que vem desde a década de 1990, permite que essas corporações se beneficiem com isenções de todos os tipos, enquanto a população sofre para pagar pelos alimentos e os pequenos produtores rurais estão desalentados sem saber o que esperar do amanhã (Matioli; Peres, 2020).     

A monocultura em larga escala homogeneizou e reduziu a alimentação humana à basicamente soja e milho, produtos que a indústria de alimentos transforma em diversos tipos de substâncias com aparência de comida (Teixeira, 2022; Pollan, 2010). Assim, no regime alimentar corporativo, os supermercados adquirem o poder de determinar a produção, o consumo e os preços dos alimentos, prejudicando pequenos agricultores, contribuindo para a diminuição do consumo de frutas, legumes e verduras e aumentando o consumo de bolachas, comidas congeladas, e todo tipo de alimento ultraprocessado (Matioli; Peres, 2020). 

A lógica do lucro que permeia toda a cadeia produtiva de alimentos – da produção à distribuição e consumo – consolida um sistema de abastecimento centrado em produtos ultraprocessados. Em contextos de crise econômica, esse cenário se intensifica: populações vulneráveis são pressionadas a optar por alimentos mais baratos e menos nutritivos, enquanto produtos de maior qualidade, como frutas e vegetais orgânicos ou itens artesanais, tornam-se inacessíveis para a maioria. Esse mecanismo não apenas aprofunda as desigualdades nutricionais, mas também exclui uma parcela significativa da população do acesso mínimo a alimentos, deixando-a dependente de políticas públicas de segurança alimentar – muitas vezes insuficientes ou executadas de forma ineficiente (Grilo, et.al, 2022). 

Na última década, o consumo de ultraprocessados aumentou em 5,5%, 20% das calorias consumidas pelos brasileiros são provenientes de ultraprocessados (Monteiro; 2019). Os alimentos ultraprocessados resultam de processos que incluem o uso de substâncias obtidas do fracionamento de alimentos inteiros, como açúcares, óleos e gorduras, proteínas, amidos e fibras. Todas essas substâncias podem passar por processos industriais, como a pré-fritura e a adição de corantes, aromatizantes, emulsificantes, entre outros. São muito atrativos para o paladar e altamente lucrativos para a indústria alimentícia (Van Tulleken, 2024).

Trata-se, portanto, não somente de um problema grave de saúde pública, mas que envolve a família, o bem-estar geral, a comensalidade, a amizade, a cultura, os meios sustentáveis de sobrevivência, a identidade e a soberania nacional (Monteiro; 2019).  Em um contexto de austeridade fiscal, precarização do trabalho, erosão de políticas públicas e crise climática, cabe-nos a pergunta: como a financeirização da reprodução social e a estrutura do regime alimentar corporativo se articulam e aprofundam as desigualdades e vulnerabilidades socioeconômicas e a degradação ambiental no Brasil, sobretudo entre mulheres, pequenos agricultores, populações periféricas e trabalhadores informais?

A hipótese central é que o regime alimentar corporativo se articula com a financeirização da reprodução social a partir das políticas de austeridade e da concentração de terra e renda no Brasil, precarização das condições de trabalho no campo e na cidade, da mercantilização da comida nas mãos de corporações transnacionais que recebem inúmeros incentivos financeiros do Estado, e promovem o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e intensificam a insegurança alimentar e nutricional, especialmente em um contexto de mudanças climáticas, submetendo trabalhadores a relações de exploração, expropriação e espoliação que inviabilizam a sua autonomia econômica, forçando-os a recorrer ao endividamento para garantir as condições básicas de vida. Essa dinâmica não apenas compromete a saúde pública, mas também desestrutura práticas culturais e comunitárias relacionadas à alimentação, fragilizando laços sociais e identitários. A intersecção entre racismo, patriarcado e precarização do trabalho coloca mulheres negras, indígenas, periféricas e pequenos agricultores em posições de extrema vulnerabilidade, tornando-os as principais vítimas da insegurança alimentar e da financeirização da reprodução social no contexto da crise climática. Enquanto o sistema financeiro lucra com a volatilidade dos preços dos alimentos, famílias são obrigadas a escolher entre comer ou pagar contas – um dilema que expõe a falência de um modelo que subordina a vida aos interesses do capital (Gago, Cavallero, 2024). 

A crise climática, a escalada das desigualdades socioeconômicas e a financeirização da reprodução social representam desafios estruturais do século XXI, interligados por uma lógica comum: a subordinação da vida aos imperativos de acumulação capitalista (Ruas, 2021; Bhattacharya, 2023, Fraser, 2024). No contexto atual, a crise de reprodução social – aprofundada pelo neoliberalismo e pelo domínio corporativo sobre os sistemas alimentares – revela-se como um eixo central da degradação socioambiental. 

O sistema alimentar global é hoje o principal vetor de destruição da biodiversidade e o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas, atrás apenas dos combustíveis fósseis (Abramovay, 2021). A liberalização comercial, justificada sob o pretexto de combate à fome, consolidou um regime em que o acesso a alimentos saudáveis tornou-se privilégio, não direito (Friedmann, 2005). Se, no passado, a agricultura estava ancorada em relações locais e ciclos ecológicos, hoje ela opera sob a lógica de um mercado globalizado, dominado por corporações que controlam desde sementes até as prateleiras de supermercados (Schneider, 2016). Esse processo carrega contradições profundas entre a busca por eficiência econômica e a crise socioambiental que ameaça ecossistemas, culturas alimentares e a própria segurança nutricional de populações inteiras.

A globalização redefiniu radicalmente os sistemas agroalimentares ao longo do último século, transformando alimentos em commodities circulantes em redes transnacionais de produção, comércio e consumo (Abramovay, 2021).  Desde a década de 1990, com a defesa do livre mercado aliado à financeirização e à globalização, a própria produção de alimentos vem se tornando cada vez mais um meio de acumulação e de poder, se deslocando de sua função básica que é suprir as necessidades alimentares da população mundial. Para Martins (2023, p. 146): “(…) as crises alimentares são [encaradas como] “pequenos” desvios que podem ser corrigidos por meio de soluções tecnológicas e baseadas no mercado”. Capital e tecnologia são, portanto, entendidos como solução para o aumento da produtividade. 

A nova fronteira tecnológica e de inovação (Liao et al., 2017) que envolve; Digitalização, Big Data, Learning Machine, Inteligência Artificial, Robótica, avanços em Engenharia Genética e Nanotecnologia, tem provocado transformações significativas no sistema agroalimentar. Conforme Wilkinson (2023, p. 35): “Um dos principais indicadores do caráter disruptivo dessas tecnologias é a entrada de gigantes do setor digital nos mercados agroalimentares, desafiando a hegemonia das corporações tradicionais do setor. Empresas como IBM, Google, Microsoft e Amazon disputam espaço com líderes históricos, como Monsanto/Bayer e Deere na produção agrícola, e Walmart na distribuição”.

O avanço da tecnologia na produção de alimentos tem permitido que empresas que fabricam sorvetes passem a produzir também carnes e demais produtos a partir dos mesmos processos tecnológicos. Algo que os produtores de soja e a pecuária não conseguem. Dado o aumento da competitividade com esses novos setores, e a mudança no regime alimentar impulsionada pela China, podem recorrer ao aumento da eficiência através de recursos digitais, agravando ainda mais as questões relacionadas ao meio ambiente e ao clima (Wilkinson, 2023).

A fome, no entanto, continua a assombrar milhões de pessoas num mundo repleto de abundância e tecnologias. Em 2022, conforme o II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (Rede Penssan, 2022), 33 milhões de pessoas estavam passando fome no Brasil, patamar comparável ao período anterior a 2004, antes da adoção de políticas públicas voltadas ao combate à fome. Nas áreas rurais, 60% dos domicílios enfrentaram algum grau de insegurança alimentar: 16,9% em nível moderado e 18,6% em nível grave. As regiões Norte e Nordeste, que concentram a maior parcela da população de baixa renda do país, apresentaram os índices mais elevados de fome, evidenciando como as desigualdades estruturais continuam a impedir o acesso a uma alimentação adequada e digna.

A flexibilização das relações de trabalho, a desregulamentação de direitos sociais, as políticas de austeridade regidas pelo neoliberalismo, intensificaram a pressão por produtividade e a precarização laboral. Jornadas extensas, terceirizações e a necessidade de múltiplos empregos para garantir sustento tornaram o tempo um recurso escasso para a classe trabalhadora. Essa dinâmica forçou famílias a substituírem alimentos in natura por produtos prontos, cujo preparo demanda menos tempo, aumentando assim o consumo de alimentos ultraprocessados (Louzada et al., 2023). A carga desigual de trabalho reprodutivo agrava o cenário: a sobrecarga de trabalho reforça a dependência de alimentos industrializados e perpetua um ciclo de má nutrição. 

Em comunidades periféricas, a situação é ainda mais crítica: 40% das mães solo relatam substituir refeições por biscoitos ou salgadinhos devido à falta de tempo e recursos (Rede Penssan, 2022). Essa sobrecarga desproporcional, que recai prioritariamente sobre mulheres – sobretudo negras e pardas – limita sua autonomia econômica e as expõe a vulnerabilidades como a insegurança alimentar. Pesquisas, como as de Radimer et al. (1990, 1992), demonstram que, em contextos de escassez alimentar, mulheres frequentemente abdicam de sua própria nutrição para priorizar filhos e parceiros, tornando-se as principais vítimas silenciosas da privação. A financeirização da reprodução social transforma direitos básicos – como alimentação e moradia – em mercadorias sujeitas à especulação e aprofunda vulnerabilidades históricas. Compreender como o regime alimentar corporativo se articula com a dinâmica de financeirização da reprodução social é essencial para desvendar por que a fome persiste mesmo em períodos de alta produtividade agrícola.

O Brasil não é um caso isolado: países do Sul Global enfrentam pressões similares de corporações transnacionais, ajustes fiscais e dívidas externas. A financeirização da agricultura, por exemplo, transformou terras africanas e latino-americanas em ativos de fundos de investimento, expulsando comunidades e destruindo culturas alimentares locais. A fome e a insegurança alimentar são resultado da estrutura desigual do sistema agroalimentar, cada vez mais dominada por megacorporações transnacionais que impõem lógicas mercantilistas à produção, distribuição e consumo de alimentos. Ao mesmo tempo, as políticas neoliberais fragilizam as redes de proteção social, ampliando as desigualdades.

Diante desse cenário, reforça-se a necessidade de compreender as conexões entre o regime alimentar corporativo e a financeirização da reprodução social, investigando como esses processos impactam o acesso à alimentação, a precarização do trabalho e as desigualdades interseccionais (de gênero, raça e classe) no Brasil. Essa análise dialoga diretamente com um dos desafios estruturais contemporâneos: a subordinação da vida aos imperativos da acumulação capitalista (Fraser, 2024; Bhattacharya, 2023). Vivemos um momento histórico de múltiplas crises sobrepostas: climática, econômica, sanitária e civilizatória. Nesse contexto, a fome emerge não como um “problema a ser resolvido”, mas como sintoma de um sistema que prioriza lucros sobre vidas. Como declarou Betinho (1993); “a fome é exclusão — da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo o mais já lhe foi negado” (Brasil de Fato, 2021). Combater a fome demanda descolonizar o pensamento, confrontar o poder corporativo e reimaginar um mundo onde alimentar-se seja um ato de dignidade, não de sobrevivência.

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As “bruxas” históricas, em sua rebeldia, nos lembram que a liberdade está na coletividade, na defesa dos comuns e na recusa à domesticação. Queimar bruxas foi uma tentativa de apagar alternativas; lembrar delas é reacender a chama da luta pela sustentabilidade da vida.

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