
Daniela Doms – Doutoranda em Economia Política, UFABC
“O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?”
Eduardo Galeano
INTRODUÇÃO
No século XXI, as narrativas hegemônicas da Quarta Revolução Industrial e da transição energética apresentam-se como vetores do progresso técnico e universalmente benéfico. No entanto, estes projetos estão profundamente entrelaçados com dinâmicas geopolíticas de poder e acumulação que reconfiguram os padrões seculares de dominação. Diante dessa contradição, este artigo pretende refletir de que modo os pilares materiais deste paradigma tecno-ecológico: a extração de minerais críticos e a operação da infraestrutura digital, intensificam os mecanismos históricos de transferência de valor e dependência do Sul Global, reeditando, sob o véu ideológico da neutralidade tecnológica e da urgência climática, as estruturas clássicas do imperialismo no século XXI. A hipótese central que orienta esta análise é a de que a extração de minerais críticos e a operação da infraestrutura digital atuam como os principais vetores materiais e discursivos da reconfiguração dos padrões históricos do imperialismo no século XXI. Esta renovação opera através da institucionalização de um duplo circuito extrativo, material e imaterial, que intensifica e sofistica os mecanismos de transferência de valor e dependência do Sul Global. A extração mineral contemporânea reativa e moderniza o extrativismo colonial, criando uma dependência estratégica renovada. A demanda por minerais críticos, definidos pelas necessidades securitárias e industriais do centro do sistema, converte territórios do Sul Global em novas fronteiras essenciais de recursos. Este processo não apenas reproduz os danos socioambientais históricos, mas, cristaliza uma divisão internacional do trabalho que captura valor nas etapas de maior complexidade tecnológica (refino, fabricação de componentes, produção de bens finais), situadas no Norte Global e em polos industriais asiáticos. O Sul, por sua vez, permanece fornecedor de commodities de baixo valor agregado, preso a uma vulnerabilidade cíclica e impedido de construir cadeias industriais autônomas. A retórica da “transição verde” serve aqui para legitimar essa pressão extrativa como um imperativo planetário, obscurecendo seus fundamentos geopolíticos. Paralelamente, o controle sobre a infraestrutura concede poder de vigilância, estrangulamento e governança sobre as economias periféricas, criando uma dependência profunda que mina a soberania nacional. A infraestrutura digital, portanto, racionaliza, acelera e protege juridicamente todo o complexo extrativo global. A narrativa dupla, “verde” e “digital”, fornece a camada de legitimação ideológica. Dessa forma, o imperialismo contemporâneo aprisiona o Sul Global em uma função renovada de fornecedor de commodities, perpetuando sua condição periférica e financiando a acumulação no centro do sistema.
- IMPERIALISMO E A RELAÇÃO CENTRO-PERIFERIA
A análise da mineração no Brasil colonial escravista, na obra de Jacob Gorender (2016), constitui a genealogia histórica concreta dos processos estruturais que conformaram a sociedade brasileira: a especialização primário-exportadora, a superexploração do trabalho, a transferência de valor para o centro e a constituição de um Estado funcional à espoliação. Movidos pela lógica predatória, essa dinâmica estabeleceu uma relação puramente instrumental, de esgotamento, tanto da Natureza, como do trabalho. O escravo minerador, submetido a condições brutais em galerias e bateias, era tratado como um recurso descartável para a extração de um recurso finito. A análise evidencia tanto a noção de superexploração ampliada, quanto o desgaste ecossistêmico produzido pela mineração, demonstrando que a atividade operou como um mecanismo eficientíssimo de transferência de valor. Gorender demonstra o elo direto entre a superexploração colonial e a acumulação de capital no centro dinâmico do capitalismo nascente. O processo descrito pelo autor subsidia o que Ruy Mauro Marini (1979) definiu como o padrão de reprodução do capital dependente, fundado na superexploração do trabalho como mecanismo compensatório da transferência sistemática de valor, e o que Samir Amin (2011) chamou de mundialização do mais-valor: a periferia fornecendo commodities sob relações de produção arcaicas e superexploradoras para financiar o desenvolvimento industrial alheio. Neste sentido, Amin (2005) afirma que o capitalismo nasce imperialista. Para o autor, o imperialismo não é um estágio, tão pouco um estágio superior, está inseparavelmente contido na natureza do capitalismo desde sua origem. E é no saque às Américas que ele desenvolve seu primeiro momento devastador. O segundo momento de sua devastação se expressa na Revolução Industrial e na submissão colonial da Ásia e da África, novamente motivado pela apropriação dos recursos naturais dessas regiões, mas também na busca de novos mercados para a sua expansão. Como observado por Marx e Engels no Manifesto Comunista, em 1848, a necessidade de um mercado em constante expansão persegue a burguesia por toda a superfície do globo e ela deve criar conexões em toda parte. No entanto, até o início do século XIX criar essas conexões levava tempo, a velocidade da comunicação estava intrinsecamente limitada pela distância física. O capital necessitava de informações em tempo hábil para circular com eficiência, e essa circulação era estruturalmente impedida pela desconexão entre a velocidade da produção industrial e a lentidão das comunicações intercontinentais. Isso impedia a integração plena dos mercados globais e também constituía-se num desafio para a dominação imperial. Foi precisamente este gargalo tecnológico que tornou o telégrafo elétrico não apenas uma inovação, mas uma condição para a consolidação do capitalismo industrial em escala verdadeiramente global. Neste sentido, muito antes da internet, a invenção do telégrafo no século XIX revolucionou a comunicação mundial, “um salto quântico que colocou a metrópole em comunicação quase direta e em “tempo real” com os confins do império” (Tully, 2009, p. 560). A invenção do telégrafo contribuiu enormemente para conectar e expandir mercados como para o controle imperial das colônias. A nova tecnologia atrelava-se profundamente ao colonialismo, tanto no uso que lhe foi dado quanto na própria matéria prima que a tornou possível: a guta-percha (Tully, 2009).
Uma árvore específica do Sudeste Asiático ocupou lugar central na infraestrutura essencial da expansão da telegrafia através de cabos submarinos transatlânticos. Encontrada principalmente na Malásia e em Singapura, a Palaquium Gutta produz um látex natural denominado como gutta-percha, que revelou-se a solução para o isolamento dos cabos subaquáticos. Através do Canal da Mancha, em 1850, os cabos revestidos com gutta-percha começaram a conectar a Inglaterra à França e, em 1865, Karachi, na Índia, já estava ligada em comunicação quase instantânea com Londres “com os sinais de código Morse voando pelos fios (…). Malta foi conectada a Alexandria em 1868; a França à Terra Nova em 1869; Índia, Hong Kong, China e Japão até 1870; a Austrália em 1871; e a América do Sul até 1874” (Tully, 2009, p. 568). Inicialmente, a tecnologia passou a operar com investimentos provenientes de capital privado, com montantes astronômicos que, hoje, equivaleriam a 10 bilhões de libras esterlinas. Não tardou, porém, para que os governos passassem a subsidiar os investimentos, especialmente por seu valor estratégico e militar. Em 1879, após a Guerra Anglo-Zulu, o governo britânico passou a subsidiar a Eastern and Southern Africa Telegraph Company (Tully, 2009).
Tully (2009, p. 560) afirma que: “se Londres era o cérebro do Império, os cabos telegráficos eram seus nervos. Os “nervos” foram um triunfo da engenharia vitoriana”. Para o autor, esse foi um grande passo para o que hoje chama-se de globalização e a gutta-percha foi a condição indispensável para o sucesso do telégrafo submarino. Para os padrões da época, a telegrafia elétrica tratava-se de uma indústria de alta tecnologia. No entanto, enquanto o cobre para os fios e o revestimento externo de ferro era produzido industrialmente, em empreendimentos de grande escala com trabalho organizado de mineradores e operários nas fábricas, a gutta-percha provinha de uma indústria extrativa primitiva que dependia do trabalho duro e insalubre de lenhadores que arriscavam suas vidas através de métodos rudimentares e ineficientes, devastando as florestas pela pressão implacável do mercado. A exportação de gutta-percha para a Europa começou em 1844 e, entre 1845 e 1847, quase 70 mil árvores foram derrubadas em Singapura, aumentando cada vez mais. Em Bornéu, entre 1875 e 1885, cerca de 3 milhões de árvores foram exterminadas. Em aproximadamente 50 anos a árvore estava praticamente extinta da natureza, a indústria telegráfica destruiu as árvores das quais dependia sua existência. Tully (2009, p. 576) argumenta que:
“(…) foi o colonialismo que remodelou a face do Sudeste Asiático, removendo as florestas e erguendo novas cidades como Singapura no processo. A cor das mãos que empunhavam o machado e o parang era irrelevante neste aspecto. Podemos ao menos ser gratos, no entanto, que não foi considerado necessário submeter os malaios ao tipo de escravidão e violência que acompanhou a exploração das árvores e cipós de borracha silvestres no chamado Estado Livre do Congo sob Leopoldo II dos Belgas e no rio Putumayo, no Peru”.
Se o telégrafo foi o “sistema nervoso” do imperialismo vitoriano, a extração mineral nos primeiros ciclos de exploração colonial forneceu o sangue vital, o fluxo de metais preciosos que irrigou e alimentou o imperialismo nascente. A destruição material das fontes de riqueza é a expressão concreta da contradição fundamental do capitalismo desde sua origem, que se manifesta historicamente de forma contínua e escalonada, e tende a canibalizar sua própria base, levando a degradação ecológica, política e social (Fraser, 2024). Em O Capital (Livro I), Marx demonstra que o desenvolvimento histórico do capitalismo está intrinsecamente ligado ao aumento contínuo da produtividade, impulsionado, sobretudo, pelo avanço tecnológico. Contudo, não deixa de reconhecer que as fontes originais de toda a riqueza são o trabalho e a Natureza. Neste sentido, citando William Petty, Marx diz: “se o trabalho é o pai da riqueza material, a terra é a mãe” (Marx, 2013, p. 167). Ao submeter o trabalho a relações de exploração e alienação, esgota a vitalidade e a capacidade criativa dos trabalhadores. Paralelamente, ao tratar a Natureza como mero recurso a ser explorado, degrada os ecossistemas e rompe o metabolismo entre sociedade e meio ambiente. Dessa forma, o capital, movido pela lógica da valorização, acaba por corroer as bases que o originam: o trabalho vivo e a terra. Para Fanon (2022) o colonialismo é violência em Estado puro, violência estrutural que desumaniza, aliena, confisca e reduz a existência do colonizado à coisificação. Mas, mesmo após os processos de descolonização política no século XX, isso não representou o fim da dominação imperial, e sim a sua transformação em um mecanismo mais sofisticado e eficaz: o neocolonialismo (N’Krumah, 1967). Se no modelo colonial, descrito por Gorender, o controle era direto (administração metropolitana, monopólios comerciais, escravidão), no neocolonialismo ele se torna indireto, porém mais abrangente. A economia e a política da ex-colônia são dirigidas de fora. A dominação não é mais imposta por um governo colonial, mas pela ação combinada de corporações transnacionais que controlam setores-chave (mineração, petróleo, plantações), por instituições financeiras internacionais (FMI, Banco Mundial) que condicionam políticas através da dívida e dos ajustes estruturais, pelo aparato de “assistência” técnica e militar que vincula as elites locais aos interesses do centro (N’Krumah, 1967).
O capitalismo imperialista, em si, é violência em estado puro. O colonialismo ou o neocolonialismo são fases dessa violência que se manifesta ora direta, ora indiretamente, mas coexistem de forma permanente. O sistema centro-periferia é, portanto, estrutura perene do imperialismo. A periferia é moldada para se especializar na produção primária (commodities) e fornecer recursos a baixo custo, enquanto o centro monopoliza a tecnologia, a indústria de alto valor e o poder financeiro (Amin, 1976; Patnaik&Patnaik, 2024). Assim, na era do capitalismo monopolista globalizado, a lei do valor de Marx só pode ser plenamente compreendida em sua escala efetiva de operação: a escala mundial. A articulação entre a superexploração do trabalho e a gestão predatória dos recursos naturais da periferia são mecanismos que, combinados, permitem a extração sistemática de uma renda imperialista para o centro do sistema (Amin, 2011). A lei do valor mundializada constitui, portanto, uma forma de regulação do sistema capitalista, evidenciando as assimetrias estruturais da economia-mundo. A transferência de valor da periferia para o centro é um mecanismo constitutivo da reprodução do capital.
- TECNO-OTIMISMO: O VÉU DA DEGRADAÇÃO
O avanço tecnológico transformou a vida cotidiana no século XXI sob o mesmo princípio predatório que estrutura o capitalismo desde sua origem, que persiste e se sofistica, agora de maneira ainda mais parasita, tal qual a Vespa de Darwin, capaz de manipular o comportamento de seu hospedeiro enquanto o consome até a morte. A dominação imperialista segue operando em um espectro que alterna entre o controle direto e indireto. E o horizonte temporal crítico aponta para um dos desafios mais complexos e existenciais da história humana, a crise ecológica e a degradação acelerada das condições sistêmicas que sustentam a vida, resultado direto do acúmulo histórico do padrão de exploração e esgotamento. Paradoxalmente, o mesmo setor de tecnologia que promoveu uma onda de inovações provocando transformações no mundo do trabalho (Figueiras e Cavalcante, 2020; Antunes, 2018), na produção e no padrão de acumulação no século XXI (Schincariol et al., 2024), propagandeia planos para o enfrentamento da crise climática através do uso das tecnologias como ferramentas de resolução de problemas (Crawford, 2025), ao mesmo tempo em que transforma também a experiência humana em matéria-prima gratuita, manipulada pelas Big Techs (Google, Meta, Amazon, Microsoft, Nvidia, Tesla, Apple). Essas empresas, majoritariamente localizadas em território norte-americano, personificam hoje o núcleo de comando de monopólios que controlam os fluxos globais de dados, a arquitetura das redes de comunicação, os sistemas operacionais da experiência social e os algoritmos que moldam a percepção da realidade (Zuboff, 2021). O valor de mercado dessas empresas supera o PIB de toda a América Latina (Feldmann, 2024).
O tecno-otimismo tornou-se o evangelho do Vale do Silício, assim como exposto no Manifesto de Marc Andreesen (2023), bilionário que fez fortuna na década de 1990 no setor de tecnologia: “Acreditamos que não há nenhum problema material, seja ele criado pela natureza ou pela tecnologia, que não possa ser resolvido com mais tecnologia”, encapsulando, assim, o desejo público de um futuro melhor. Do mesmo modo, a narrativa da transição energética é vendida como uma evolução na maneira de gerenciar o futuro, substituindo o alarme do colapso ecológico iminente pela narrativa confortante da obtenção de energia renovável, proveniente do sol e do vento. Essa narrativa, no entanto, esconde mais do que revela. Mesmo após a descoberta do petróleo e da energia nuclear, a humanidade nunca abandonou completamente a lenha ou o carvão. Historicamente, o que observa-se, é uma sobreposição de fontes energéticas e não uma substituição pura e simples (Fressoz, 2024). O mesmo ocorre com a “desmaterialização” na Era Digital; a ideia de que progressos como a nuvem, o streaming, as inovações das Big Techs, nos libertam dos limites do mundo físico e nossa existência tecnológica flutua livre de lastro material. Para Crawford (2024) “tudo isso é parte da imagem pública cuidadosamente produzida de uma indústria de tecnologia sustentável e zero emissão de carbono”. Na realidade, segundo a autora, estima-se que até 2040 o setor de tecnologia contribuirá com 14% das emissões de gases do efeito estufa, e até 2030, a demanda de energia dos data centers aumentará até 15 vezes. A pesquisa de Emma Strubell et. al. (2019) revelou que o treinamento de um único modelo de processamento de linguagem natural (PLN) de IA produz mais de 300 toneladas de emissões de dióxido de carbono, que Crawford (2025, p. 56) compara ao “equivalente a toda a vida útil de 5 carros movidos a gasolina, ou 125 voos ida e volta de Nova York a Pequim”. Na China, 73% da energia dos data centers é proveniente da queima de carvão que, apenas em 2018, emitiu 99 milhões de toneladas de CO². A estimativa é que haja um aumento de ⅔ dessas emissões até 2030 (Crawford, 2025). Além da demanda colossal de energia, a água é outro recurso indispensável para a indústria de data centers. Nos EUA, um dos maiores data centers pertence à NSA (National Security Agency), localizado no Estado de Utah, a estimativa de consumo diário de água é de 6,4 milhões de litros, a NSA não apenas não confirmou os dados públicos, como os censurou, alegando ser uma questão de segurança nacional (Crawford, 2025).
O que se vende como imaterial e renovável é, na verdade, a manifestação do extrativismo que repete os mesmos padrões de exploração da natureza, mas agora “vestido de verde”. De 2013 a 2022, foram investidos, aproximadamente, 3,4 trilhões de dólares em energia renovável. Solar e eólica, fundamentais para a transição energética, representaram quase 90% do total dos investimentos, essas tecnologias renováveis dependem, de modo essencial, dos minerais críticos e estratégicos. Uma única turbina eólica terrestre demanda até 9 vezes mais recursos minerais que uma usina de gás natural de capacidade equivalente e os veículos elétricos até 6 vezes mais minerais que os convencionais (Stacciarini;Gonçalves, 2025). De 2015 até 2050, Watari et al. (2019) estimam que, no setor energético, o fluxo de minerais críticos aumente de 200-900%, e no setor de transportes de 350-700%. Segundo Stacciarini e Gonçalves (2025), a grande maioria da exploração desses minerais ocorre no Sul Global. Os autores reforçam que:
“Esses países, caracterizados por baixos níveis de renda, desenvolvimento limitado e condições de vida precárias, frequentemente flexibilizam suas regulamentações ambientais e sociais em troca de benefícios mínimos, como royalties e investimentos diretos. As corporações, por sua vez, aproveitam-se desse cenário para maximizar seus lucros, sem esforços significativos para mudar a realidade local. Além disso, grande parte da infraestrutura tecnológica e das principais empresas envolvidas em toda a cadeia de produção é originária de países ricos, que se beneficiam dos maiores lucros gerados pelo processamento mineral, pela manufatura de tecnologias de ponta e por sua comercialização. Enquanto isso, os trabalhadores e as comunidades nas áreas de extração enfrentam as consequências mais severas dessas atividade” (Stacciarini; Gonçalves, 2025, p. 2).
A demanda por minerais críticos e estratégicos não se limita à transição energética, mas se estende para a Inteligência Artificial, a indústria militar, a indústria 4.0, entre outras que constituem a base tecnológica do nosso tempo, eles são a coluna vertebral que sustenta o novo padrão de acumulação; a energia, é o coração que mantém o sistema; e os dados, o sistema nervoso central que comanda e coordena a dominação social em escala global. Nas palavras de Amin (2005, p. 85), “os objetivos do capital dominante permanecem os mesmos, o controle da expansão dos mercados, a pilhagem dos recursos naturais do planeta, a superexploração das reservas de mão-de-obra da periferia, ainda que operando em novas condições e, em certos aspectos, muito diferentes daquelas que caracterizaram a fase precedente do imperialismo”. O contraste centro/periferia, agora, não aparece mais apenas no monopólio da indústria, como no século XX, mas sob outras formas, fundado em outros monopólios (tecnologia, acesso aos recursos naturais, comunicações e informação, controle do sistema financeiro mundial, armas de destruição em massa) articulados dos centros do sistema (Amin, 2005).
Schincariol et al. (2024) argumentam que a economia norte-americana parece estar ingressando em um novo regime de acumulação e regulação, que conceituam provisoriamente como “Capitalismo 4.0”. Esse movimento seria uma reação à queda dos níveis de produtividade, especialmente após 2001. A partir de mutações no capitalismo pós-fordista, emerge no centro da economia mundial um modelo de organização global ainda mais flexível, que ganhou força com a pandemia de COVID-19. A crise sanitária acelerou processos de digitalização já em curso, tais como compras online, ensino à distância, consultas médicas virtuais e home office. Além disso, estimulou operações produtivas via nuvem e o uso de robôs nos setores de serviço e distribuição. Para os autores, o esgotamento da “produção flexível” pós-fordista tornou-se evidente ao longo dos anos 2000, processo agravado pelos efeitos da crise de 2008 e, posteriormente, pela pandemia, com impactos nos ganhos financeiros, nos investimentos e na demanda agregada global. Os efeitos acumulados dessas transformações constituíram os mecanismos básicos para desencadear uma nova onda de inovações tecnológicas, a Indústria 4.0, capaz de “poupar trabalho”, incrementar processos de gestão e ampliar a capacidade exportadora. Neste sentido, vale destacar o documento publicado pelo governo dos EUA, no dia 05 de dezembro de 2025, National Security Strategy of the United States of America (NSS), no qual reatualiza a Doutrina Monroe, de 1823, para a América Latina. Que agora inclui um “Corolário Trump” e determina expandir o acesso dos EUA em locais de importância estratégica para a economia norte-americana e impedir o controle estrangeiro sobre ativos-chaves e cadeias de suprimentos críticas (NSS, 2025), num claro recado à China, a fim de enfraquecer sua presença na região, evidenciando, de modo explícito, a sua política imperialista, reafirmada sem qualquer pudor.
Poucos dias antes da publicação da Casa Branca, o Banco JP Morgan publicou em seu site um artigo intitulado “América Latina: fonte-chave de minerais para o futuro da Inteligência Artificial”, afirmando que – conforme já destacado em seu relatório Perspectivas 2026; “a região concentra muitos dos insumos dos quais a economia global depende cada vez mais”. Assim, o artigo do JP Morgan diz que “a incomparável base de recursos da América Latina tornou-se indispensável para o futuro”. Segundo o banco, a Agência Internacional de Energia (AIE) aponta que até 2035, o déficit na oferta de cobre pode ser de 20% a 40%, e de 30% a 60% na oferta do lítio. Ressalta, então, “a urgência de desenvolver novos projetos quanto à importância estratégica das reservas latino-americanas, em um cenário onde a demanda global continua superando amplamente a oferta”. No contexto atual da disputa sino-americana por influência global, os países do Sul reemergem como fontes vitais de recursos naturais imprescindíveis para materializar as possibilidades de crescimento econômico e as relações de poder de ambas as potências, assim, intensificam-se os mecanismos de extração da renda imperialista que flui da periferia para subsidiar a manutenção do poder no centro do sistema.
CONCLUSÃO
O futuro “tecno-ecológico” que, concretamente se torna cada vez mais hegemônico, é a mais recente e sofisticada camada sedimentada sobre as estruturas seculares do imperialismo. O duplo circuito extrativo – material, dos minerais; imaterial, dos dados – consolida-se como o mecanismo estruturante do imperialismo no século XXI, operando uma reengenharia do poder que intensifica a pilhagem sob o véu ideológico da neutralidade tecnológica e da urgência climática. A periferia global foi e continua a ser moldada como uma zona de sacrifício, especializada na provisão de matéria-prima e trabalho superexplorados. O que a era digital e da transição energética introduz é uma aceleração exponencial, uma racionalização algorítmica e uma capa discursiva verde para este antigo padrão. A infraestrutura digital otimiza a extração mineral, facilita a financeirização dos recursos e, simultaneamente, institui um novo regime de acumulação por vigilância e extração de dados. O Sul Global fornece, assim, os minerais para os chips e as baterias, e os dados para alimentar os algoritmos, recebendo em troca externalidades socioambientais, dependência tecnológica e a perpetuação de seu lugar na divisão internacional do trabalho. Este complexo tecno-extrativo contemporâneo realiza, em escala ampliada e com meios inéditos, a dinâmica teorizada por Samir Amin: a mundialização do mais-valor e a renda imperialista do século XXI, composta por este duplo fluxo: o fluxo material, da riqueza natural extraída como commodity de baixo valor; e o fluxo imaterial, da riqueza informacional e comportamental extraída como dado. Ambos convergem para subsidiar a acumulação, a inovação e o poder político-militar das potências hegemônicas. O “Corolário Trump” reatualizado na estratégia de segurança nacional dos EUA e a cobiça financeira explicitada pelo JP Morgan são a expressão franca desta lógica permanente. Respondendo à interrogação de Galeano, que abre este trabalho, digo que o passado não é mudo, ele grita hoje pelos fios de cobre que carregam dados, nas crateras abertas pela mineração, através das comunidades espoliadas e expropriadas pelo progresso tecnológico, na exaustão dos novos “lenhadores” da era digital. Somente o movimento da história é capaz de responder essa questão. O fato é que os desafios do Sul Global no século XXI se intensificam, romper com os mecanismos de espoliação e com a estrutura cognitiva que os apresenta como progresso inevitável passa, inevitavelmente, por forjar soberania sobre recursos estratégicos e sobre seu espaço digital, para construir um paradigma alternativo, descolonizado e pós-extrativista. O futuro anunciado será apenas a repetição do passado, renovado e intensificado, sob a continuidade da degradação das condições de vida? O movimento da história não admite determinismos. Cabe aos povos do Sul, cientes da armadilha renovada, escrever um capítulo diferente.
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