Além da Fábrica: A Exploração Reprodutiva como Alicerce Oculto do Capitalismo




Quando analisado exclusivamente pela lógica da troca mercantil, o trabalho parece estabelecer uma relação de igualdade entre capitalistas e trabalhadores: o primeiro compra a força de trabalho mediante um salário, enquanto o segundo a vende em troca desse pagamento. No entanto, essa perspectiva de mercado, oferece uma compreensão superficial da dinâmica econômica, pois reduz a complexidade das relações sociais a uma suposta harmonia de interesses. Ao fazer isso, mascara a divisão estrutural entre o político e o econômico, apresentando a exploração como um fenômeno natural e inevitável, dissimulado sob a aparência de reciprocidade.

O que essa visão economicista oculta, porém, é que, no âmbito invisível da produção, o econômico se revela como uma relação social intrinsecamente assimétrica. Mesmo que o direito e as instituições políticas tentem encobrir essa realidade com discursos sobre liberdade contratual e igualdade jurídica, o processo produtivo capitalista está fundado em mecanismos de dominação e coerção. Esses mecanismos, embora frequentemente naturalizados, constituem uma forma de poder político: seu objetivo é extrair do trabalhador mais valor do que aquele correspondente ao custo de sua força de trabalho, perpetuando assim a acumulação de capital. Dessa forma, a economia capitalista, longe de ser um sistema neutro de trocas, organiza-se como uma relação social hierárquica, na qual a subordinação do trabalho ao capital não é acidental, mas estrutural — uma dinâmica que transforma a exploração em motor oculto do próprio progresso produtivo.

A Teoria do Valor-Trabalho, elaborada por Marx, oferece uma base sólida para desvendar essa contradição intrínseca ao capitalismo. Ao afirmar que o valor de uma mercadoria deriva do tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, a teoria expõe o cerne da relação exploradora: o trabalhador, ao vender sua força de trabalho, recebe um salário equivalente ao valor necessário para sua subsistência, mas, no processo produtivo, gera um valor superior ao que lhe é remunerado. Essa diferença — o mais-valor — é apropriada pelo capitalista como lucro, sustentando a acumulação de capital.

A força explicativa dessa teoria reside justamente em transcender a aparência igualitária das trocas mercantis. Enquanto o mercado celebra a “liberdade” de vender e comprar força de trabalho, a análise marxista revela que a igualdade formal esconde uma desigualdade material: o trabalhador, desprovido de meios de produção, é obrigado a se submeter a uma relação em que sua atividade criadora é convertida em fonte de riqueza alheia. Assim, a Teoria do Valor-Trabalho não apenas desmonta a naturalização da exploração, mas também demonstra que a coerção não é um acidente do sistema — é seu alicerce. Ao vincular valor, trabalho e exploração, Marx desloca o foco do equilíbrio de trocas (ilusório) para o desequilíbrio de poder (real), evidenciando que a economia capitalista é, em última instância, um sistema de dominação social disfarçado sob a objetividade dos números e contratos. Por isso, a teoria mantém relevância: ela descreve não apenas como o capitalismo funciona, mas para quem ele funciona.

Embora a Teoria do Valor-Trabalho marxista ilumine a exploração no âmbito da produção direta de mercadorias, ela não incorpora plenamente o trabalho reprodutivo e não mercantilizado – como o cuidado doméstico, a educação informal, o trabalho comunitário ou a manutenção da vida cotidiana -, que, embora invisível aos olhos do mercado, é estrutural para a reprodução do sistema capitalista. Esse trabalho, majoritariamente desempenhado por mulheres, populações racializadas e grupos marginalizados, não gera mais-valor diretamente, mas sustenta a força de trabalho disponível para a exploração, reduzindo os custos sociais de reprodução da mão de obra.

A acumulação capitalista depende dessa dualidade: enquanto a produção de mercadorias extrai valor explícito (mediante a exploração no local de trabalho), o trabalho não remunerado ou precarizado fora dela garante a subsistência barata da classe trabalhadora, liberando o capitalista do ônus de custear integralmente a reprodução social. Por exemplo, o cuidado com crianças, idosos ou doentes – frequentemente não remunerado – permite que trabalhadores retornem ao mercado diariamente, prontos para serem explorados novamente. Essa dinâmica revela que a exploração não se restringe à fábrica: ela se estende à esfera privada, onde relações de gênero, raça e classe operam para naturalizar tarefas essenciais como “não trabalho”.

Autoras feministas, como Silvia Federici, ampliaram essa crítica ao destacar que a “caixa preta” do trabalho reprodutivo foi intencionalmente excluída da análise clássica de Marx, não por acaso, mas porque sua invisibilização é funcional ao capital. Afinal, se o valor fosse calculado incluindo o trabalho doméstico e afetivo, a taxa de exploração revelada seria ainda mais brutal. Assim, embora a teoria marxista original seja poderosa para desvendar a lógica da produção, é preciso expandi-la para abarcar as hierarquias sociais que permitem ao capitalismo externalizar custos e ocultar sua dependência de formas de trabalho não pagas — um silêncio teórico que, longe de ser neutro, reflete e reforça opressões estruturais.

O capitalismo não sobrevive apenas pela extração de mais-valor na produção, mas também pela apropriação gratuita ou precarizada de trabalho fora dela, que atua como alicerce oculto de sua acumulação. Reconhecer isso não invalida a Teoria do Valor-Trabalho, mas exige que a complementemos com análises interseccionais, capazes de revelar como raça, gênero e colonialidade moldam as fronteiras entre o que é considerado “trabalho” e o que é relegado ao âmbito do “natural” ou “invisível”.

A família constitui o território histórico mais estável para a reprodução da força de trabalho, funcionando como uma unidade de manutenção não remunerada que subsidia o capitalismo. Enquanto a produção ocorre na fábrica ou no escritório, é no espaço doméstico que se regeneram os corpos, as subjetividades e as relações necessárias para sustentar o trabalhador diariamente. Cozinhar, limpar, cuidar de crianças, idosos ou doentes – atividades majoritariamente realizadas por mulheres – não são apenas “tarefas privadas”, mas trabalho reprodutivo essencial para que a mão de obra esteja disponível, saudável e socializada para o mercado.

Marx, em sua análise clássica, reconheceu que o salário pago ao trabalhador deve cobrir o custo de sua subsistência, mas não explorou em profundidade como e quem garante esse processo de subsistência. A família, nesse sentido, opera como uma instituição naturalizada que absorve os custos da reprodução social, permitindo que o capital transfira para a esfera privada (e, portanto, não remunerada) o peso de manter viva e funcional a classe trabalhadora. Essa dinâmica é historicamente atravessada por relações de gênero: a divisão sexual do trabalho atribui às mulheres a responsabilidade pelo cuidado, consolidando uma hierarquia que as coloca como trabalhadoras invisíveis do sistema.

Feministas materialistas, como Lise Vogel e Nancy Fraser, argumentam que a exploração capitalista depende dessa dupla jornada: a exploração direta (no local de trabalho assalariado) só é possível porque há uma exploração indireta (no espaço doméstico), onde o trabalho reprodutivo não é contabilizado como produtivo, embora seja vital. A família, assim, não é um refúgio apolítico, mas uma arena de opressão estrutural que converte afeto e obrigação social em mecanismos de extração de valor.

Além disso, a família não é um espaço neutro: sua organização reflete e reforça divisões de classe, raça e nacionalidade. Por exemplo, em contextos coloniais e neocoloniais, mulheres racializadas – tanto no Sul Global quanto nas periferias dos países centrais – são frequentemente recrutadas como trabalhadoras domésticas, permitindo que mulheres brancas de classes médias se integrem ao mercado de trabalho formal. Essa terceirização do cuidado expõe como a reprodução da força de trabalho é atravessada por cadeias globais de exploração.

A durabilidade da família como núcleo reprodutivo também se relaciona com a flexibilidade do capitalismo em externalizar crises. Em períodos de austeridade, quando o Estado reduz serviços públicos (saúde, educação, previdência), é a família — e, dentro dela, principalmente as mulheres – que assume o papel de amortecedor social, intensificando jornadas não pagas para compensar a precarização. Reconhecer a família como lócus central da reprodução da força de trabalho não significa romantizá-la, mas desvelar seu papel político: ela é uma engrenagem oculta do capitalismo, que transforma laços afetivos em instrumentos de dominação. Para superar essa contradição, é preciso desafiar não apenas a exploração no local de trabalho, mas também a naturalização do trabalho doméstico como “destino feminino” –  uma luta que exige aliar a crítica da economia política às pautas feministas, antirracistas e decoloniais.

Embora central, a família não opera isoladamente. A reprodução da força de trabalho é um processo histórico e multifacetado, moldado por arranjos institucionais, políticas públicas, relações de poder e contextos culturais específicos. Sistemas públicos de educação, saúde, previdência e lazer, por exemplo, são mediadores que regulam como a classe trabalhadora é formada, mantida e renovada em cada sociedade. Essas estruturas não são neutras – refletem lutas de classe, pactos sociais e heranças coloniais, definindo quais custos da reprodução social são assumidos pelo Estado, pelo capital ou jogados de volta para as famílias e comunidades.

Na Europa do século XIX, por exemplo, o surgimento de direitos trabalhistas e sistemas de seguridade social foi uma resposta às pressões do movimento operário, que forçou o capital e o Estado a assumirem parte dos custos da reprodução da força de trabalho (como pensões e saúde pública). Já em contextos neoliberais, o desmonte desses sistemas – via privatizações e austeridade – transfere novamente esses custos para a esfera doméstica, intensificando a exploração do trabalho não remunerado, majoritariamente feminino. Isso revela que a fronteira entre “público” e “privado” é dinâmica e disputada politicamente.

Além disso, o capitalismo sempre recorreu a mecanismos extra-familiares e extra-mercado para repor e expandir a força de trabalho. A escravidão foi um pilar da acumulação primitiva, convertendo seres humanos em mercadorias descartáveis, cuja reprodução (quando permitida) era controlada violentamente pelos senhores. Já a imigração – forçada ou “voluntária” – permite ao capital substituir trabalhadores esgotados ou rebeldes por outros mais vulneráveis, muitas vezes racializados, explorando diferenças salariais e status jurídico precário. Esses mecanismos coexistem com a reprodução biológica (parto), mas também a tensionam. Por exemplo, em economias dependentes de imigrantes, o Estado pode restringir direitos reprodutivos desses grupos (como políticas antinatalistas) ou, ao contrário, incentivar o parto em certas classes (eugenia social). A própria ideia de “família trabalhadora” é atravessada por hierarquias: enquanto famílias brancas e abastadas são incentivadas a se reproduzir, famílias negras, indígenas ou pobres frequentemente sofrem esterilizações forçadas ou separações – como no histórico welfare queen, um estereótipo racista nos EUA que criminaliza mães negras.

Portanto, a reprodução da força de trabalho é um campo de batalha onde se cruzam:

  1. Instituições públicas: Educação forma trabalhadores adaptados às demandas do mercado; saúde mantém corpos produtivos; lazer e cultura moldam subjetividades conformistas.
  2. Coerção extra-econômica: Escravidão, colonialismo e imigração controlada revelam que o capital não depende apenas do “livre contrato” — usa violência direta para garantir mão de obra barata.
  3. Dinâmicas demográficas: Taxas de natalidade, mortalidade e migração são reguladas por Estados e empresas para equilibrar oferta de trabalho e demanda por lucros.
  4. Lutas sociais: Conquistas como licença-maternidade, creches públicas ou direitos migratórios resultam de embates entre capital, trabalhadores e movimentos feministas/antirracistas.

Assim, a família é uma peça — crucial, mas não única — em um quebra-cabeças maior. O capitalismo é um sistema plasticamente predatório: em alguns momentos, ele se apoia na família nuclear patriarcal; em outros, na destruição de laços comunitários (como o êxodo rural); e, em outros ainda, na importação massiva de corpos racializados. Para compreender como uma classe trabalhadora específica é “produzida”, é necessário analisar como esses elementos se articulam em cada formação social. A reprodução da força de trabalho é um processo geograficamente desigual e historicamente híbrido, que não se reduz à família, mas também não existe sem ela. Desvendar essa complexidade exige uma análise materialista que dialogue com a economia política, os estudos de gênero, a teoria racial e a crítica do colonialismo — porque o capitalismo nunca foi um sistema puramente “econômico”, mas uma máquina de gestão violenta da vida e da morte.

FOME ESTRUTURAL E SUBORDINAÇÃO DA VIDA: 

COMO MEGACORPORAÇÕES E MERCADOS FINANCEIROS TRANSFORMAM ALIMENTOS EM ARMAS DE CONTROLE SOCIAL

A escassez alimentar é frequentemente atribuída a fatores como conflitos armados, crises econômicas e desastres climáticos. Contudo, embora esses elementos sejam relevantes, eles não a explicam em sua totalidade, pois não podem ser entendidos como meros desvios circunstanciais, quando na verdade são manifestações estruturais do capitalismo (Ribeiro Júnior, 2021). A escassez alimentar cumpre um papel funcional nesse sistema: atua como mecanismo de controle que subjuga a classe trabalhadora às exigências do mercado, materializando o que Marx chamou de “coerção muda das condições econômicas” – a imposição indireta da exploração através da privação material (Marx, 2013).

A desigualdade na distribuição de alimentos, embora central, também é insuficiente para decifrar a fome, pois a produção precede a distribuição e o consumo, assim, é a distribuição dos meios de produção que define quem acessa recursos e como eles circulam. A produção capitalista não se limita a gerar mercadorias: reproduz relações sociais desiguais. A concentração de terras, tecnologias e capital nas mãos de uma minoria – em detrimento da maioria despossuída – ilustra como a fome é inerente à lógica de acumulação, não um fracasso pontual do sistema (Ribeiro Júnior, 2022).

Desta maneira, para compreender a fome em sua magnitude, é preciso analisar os processos de exploração, expropriação e espoliação que reduzem os trabalhadores à condição de mera mão de obra, pois são esses processos, em suas diferentes formas, que respondem pela produção social da fome. Altas taxas de informalidade, subutilização e desocupação da força de trabalho influenciam, sobremaneira, na insegurança alimentar. Privados dos meios de produção e subsistência, os trabalhadores são impedidos de acessar os bens essenciais para suprir suas necessidades e forçados a vender continuamente a sua força de trabalho para fugir da fome. Todavia, aqueles que são impossibilitados de empregar sua força de trabalho, estão condenados ao risco de fome e à fome” (Ribeiro Júnior, 2021, p.31).  

A colonização foi um elemento crucial na disseminação das relações capitalistas de produção, alicerçada na violência da exploração e da expropriação de povos racializados. Nesse processo, o racismo atua como um mecanismo de dominação social, legitimando desigualdades estruturais ao naturalizar a precarização laboral e a remuneração desproporcional de grupos historicamente subjugados. Essa lógica é evidente, por exemplo, na disparidade salarial persistente entre indivíduos brancos e negros, assim como na segmentação racial do mercado de trabalho, onde raça e cor definem condições de emprego e acesso a direitos (Almeida, 2020). Em uma sociedade estruturada pelo patriarcado e pela divisão sexual do trabalho, as desigualdades de gênero também marcam brutalmente a exploração das mulheres (Fraser, 2024).

Em cada 10 domicílios com responsáveis mulheres, mais de 6 estavam em algum nível de insegurança alimentar, e destes 18% em situação de fome. Situação semelhante ocorreu nos domicílios cujos responsáveis se identificaram como pretos ou pardos, 6 em cada 10 domicílios viviam algum grau de insegurança alimentar (Rede Penssam, 2022). A fome, portanto, é um fenômeno intrinsecamente racializado e generificado: a precarização do trabalho formal empurra mulheres – em especial negras, indígenas e periféricas – para ocupações informais e desprotegidas, enquanto a naturalização social do cuidado as obriga a administrar a escassez com o próprio corpo. Não é uma “escolha”, mas um mecanismo de opressão que vincula a sobrevivência das famílias à auto exploração feminina. Analisar a insegurança alimentar demanda, assim, desnaturalizar as estruturas que transformam corpos de mulheres em amortecedores das crises sistêmicas: sob o patriarcado capitalista, são elas – majoritariamente racializadas e pobres – quem absorvem o impacto da fome, amplificando-a em seus próprios corpos como custo silencioso da reprodução social (Bhattacharya, 2023; Cavallero e Gago, 2024; Federici, Cavallero e Gago, 2023; Fraser, 2024).

A desvalorização dos capitais em circulação intensifica a informalidade, o subemprego e o desemprego, comprimindo o orçamento familiar e impondo restrições tanto quantitativas quanto qualitativas no acesso aos alimentos – sobretudo nos domicílios mais pobres. Esse fenômeno não é novo: durante a crise de 2008, por exemplo, milhões de pessoas nos Estados Unidos foram impactadas (Ribeiro Júnior, 2021). No entanto, em um contexto de economia globalizada, os efeitos da crise se expandiram para além das fronteiras nacionais, atingindo com maior gravidade os países mais vulneráveis (Ribeiro Júnior, 2021, p. 34). Mais recentemente, a pandemia de COVID-19 também exacerbou a fome, evidenciando como crises econômicas e sanitárias se entrelaçam e aprofundam a insegurança alimentar global.

Apesar dos desafios impostos pela pandemia à produção e distribuição de alimentos, não houve, no Brasil, uma crise de desabastecimento. A fome que se alastrou durante esse período resultou na incapacidade de milhões de pessoas – sem trabalho e renda – de acessar os alimentos disponíveis no mercado. Como destaca Ribeiro Júnior (2021, p. 35), “a pandemia simplesmente exacerbou um dilema anterior, pois, despojados continuamente das condições necessárias para garantir seu próprio sustento, os trabalhadores são obrigados a aceitar as condições de trabalho que lhes são impostas ou sofrer com a fome”. Nesse cenário, pessoas empregadas em supermercados e as trabalhadoras domésticas foram particularmente afetadas, expostas sistematicamente ao risco de contaminação sem a possibilidade de isolamento. Um caso emblemático foi o de Cleonice Gonçalves, de 63 anos, primeira vítima fatal da COVID-19 no estado do Rio de Janeiro, uma empregada doméstica infectada por seus patrões, que haviam retornado da Itália (Instituto Walter Leser, s/d).

Ribeiro Júnior (2021, p. 36), afirma que: “Sob a pressão crescente da fome os trabalhadores (…) aceitam condições de trabalho cada vez mais precárias, por vezes análogas à escravidão”. Neste sentido, é indispensável compreender que, se por um lado, estão os que sofrem com a fome, por outro, também há os que se beneficiam com ela. Rangasami (1985) argumenta que as crises de fome também representam novas e ampliadas oportunidades para a acumulação. E, não por acaso, foi na pandemia que os supermercados brasileiros bateram recorde de lucro (ABRAS, 2020). Em 2020 houve um aumento de 9,36% nas vendas em comparação com o ano anterior, o maior aumento anual da categoria em 20 anos. O Grupo Pão de Açúcar obteve lucro de R$1,59 bilhão no último trimestre de 2020, um aumento de 58,5% em relação ao mesmo período de 2019. Já o Carrefour registrou lucro de R$935 milhões, aumento de 47% em relação ao último trimestre do ano anterior (ABRAS, 2020). Os supermercados são a ponta de um enorme complexo que redefiniu a maneira como produzimos, distribuímos e comemos nas últimas décadas: o sistema agroalimentar global.

O neoliberalismo econômico reconfigurou o sistema alimentar, organizações como FMI e Banco Mundial impuseram ajustes estruturais que liberalizaram mercados agrícolas, subordinando países periféricos a corporações transnacionais. O estabelecimento da Organização Mundial do Comércio (WTO) e do Acordo sobre Agricultura (AoA), institucionaliza a liberalização dos mercados nacionais e restringe os direitos dos estados regularem a agricultura e a alimentação (Schneider, 2016). A Revolução Verde, inicialmente promovida sob o pretexto de uma solução tecnológica para acabar com a fome, consolidou um modelo industrial de agricultura baseado em monocultivos, reduzindo a diversidade alimentar: hoje 90% das calorias consumidas globalmente derivam de apenas 15 culturas, com soja, trigo, milho e arroz dominando a dieta mundial (Abramovay, 2021; McMichael, 2016). Esse regime mercantil-industrial, liderado pelos EUA, pavimentou o caminho para o regime corporativo pós-2000, marcado pelo controle de megacorporações como Bayer e Cargill sobre sementes, agrotóxicos e cadeias produtivas, mas também de corporações transnacionais de alimentos como Nestlé, Coca Cola, Pepsico, Unilever, McDonald’s, Burguer King, Starbucks, entre outras (Friedmann, 2005; Wilkinson, 2008). 

Essas corporações são beneficiadas de inúmeras formas no Brasil. Por exemplo, ao longo de quase uma década, o país deixou de arrecadar aproximadamente mais de 13 bilhões de reais com renúncias fiscais somente de dez empresas de alimentos ultraprocessados. Estão no topo das corporações mais beneficiadas, empresas como Coca Cola, Ambev, M. Dias Branco (Piraquê) e Nestlé. Mas a lista é longa; Unilever, Mondelez, Chocolates Garoto, Piracanjuba, Nissin, Heinz, Vigor, etc (Peres, 2025). Esse esquema econômico, que vem desde a década de 1990, permite que essas corporações se beneficiem com isenções de todos os tipos, enquanto a população sofre para pagar pelos alimentos e os pequenos produtores rurais estão desalentados sem saber o que esperar do amanhã (Matioli; Peres, 2020).     

A monocultura em larga escala homogeneizou e reduziu a alimentação humana à basicamente soja e milho, produtos que a indústria de alimentos transforma em diversos tipos de substâncias com aparência de comida (Teixeira, 2022; Pollan, 2010). Assim, no regime alimentar corporativo, os supermercados adquirem o poder de determinar a produção, o consumo e os preços dos alimentos, prejudicando pequenos agricultores, contribuindo para a diminuição do consumo de frutas, legumes e verduras e aumentando o consumo de bolachas, comidas congeladas, e todo tipo de alimento ultraprocessado (Matioli; Peres, 2020). 

A lógica do lucro que permeia toda a cadeia produtiva de alimentos – da produção à distribuição e consumo – consolida um sistema de abastecimento centrado em produtos ultraprocessados. Em contextos de crise econômica, esse cenário se intensifica: populações vulneráveis são pressionadas a optar por alimentos mais baratos e menos nutritivos, enquanto produtos de maior qualidade, como frutas e vegetais orgânicos ou itens artesanais, tornam-se inacessíveis para a maioria. Esse mecanismo não apenas aprofunda as desigualdades nutricionais, mas também exclui uma parcela significativa da população do acesso mínimo a alimentos, deixando-a dependente de políticas públicas de segurança alimentar – muitas vezes insuficientes ou executadas de forma ineficiente (Grilo, et.al, 2022). 

Na última década, o consumo de ultraprocessados aumentou em 5,5%, 20% das calorias consumidas pelos brasileiros são provenientes de ultraprocessados (Monteiro; 2019). Os alimentos ultraprocessados resultam de processos que incluem o uso de substâncias obtidas do fracionamento de alimentos inteiros, como açúcares, óleos e gorduras, proteínas, amidos e fibras. Todas essas substâncias podem passar por processos industriais, como a pré-fritura e a adição de corantes, aromatizantes, emulsificantes, entre outros. São muito atrativos para o paladar e altamente lucrativos para a indústria alimentícia (Van Tulleken, 2024).

Trata-se, portanto, não somente de um problema grave de saúde pública, mas que envolve a família, o bem-estar geral, a comensalidade, a amizade, a cultura, os meios sustentáveis de sobrevivência, a identidade e a soberania nacional (Monteiro; 2019).  Em um contexto de austeridade fiscal, precarização do trabalho, erosão de políticas públicas e crise climática, cabe-nos a pergunta: como a financeirização da reprodução social e a estrutura do regime alimentar corporativo se articulam e aprofundam as desigualdades e vulnerabilidades socioeconômicas e a degradação ambiental no Brasil, sobretudo entre mulheres, pequenos agricultores, populações periféricas e trabalhadores informais?

A hipótese central é que o regime alimentar corporativo se articula com a financeirização da reprodução social a partir das políticas de austeridade e da concentração de terra e renda no Brasil, precarização das condições de trabalho no campo e na cidade, da mercantilização da comida nas mãos de corporações transnacionais que recebem inúmeros incentivos financeiros do Estado, e promovem o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e intensificam a insegurança alimentar e nutricional, especialmente em um contexto de mudanças climáticas, submetendo trabalhadores a relações de exploração, expropriação e espoliação que inviabilizam a sua autonomia econômica, forçando-os a recorrer ao endividamento para garantir as condições básicas de vida. Essa dinâmica não apenas compromete a saúde pública, mas também desestrutura práticas culturais e comunitárias relacionadas à alimentação, fragilizando laços sociais e identitários. A intersecção entre racismo, patriarcado e precarização do trabalho coloca mulheres negras, indígenas, periféricas e pequenos agricultores em posições de extrema vulnerabilidade, tornando-os as principais vítimas da insegurança alimentar e da financeirização da reprodução social no contexto da crise climática. Enquanto o sistema financeiro lucra com a volatilidade dos preços dos alimentos, famílias são obrigadas a escolher entre comer ou pagar contas – um dilema que expõe a falência de um modelo que subordina a vida aos interesses do capital (Gago, Cavallero, 2024). 

A crise climática, a escalada das desigualdades socioeconômicas e a financeirização da reprodução social representam desafios estruturais do século XXI, interligados por uma lógica comum: a subordinação da vida aos imperativos de acumulação capitalista (Ruas, 2021; Bhattacharya, 2023, Fraser, 2024). No contexto atual, a crise de reprodução social – aprofundada pelo neoliberalismo e pelo domínio corporativo sobre os sistemas alimentares – revela-se como um eixo central da degradação socioambiental. 

O sistema alimentar global é hoje o principal vetor de destruição da biodiversidade e o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas, atrás apenas dos combustíveis fósseis (Abramovay, 2021). A liberalização comercial, justificada sob o pretexto de combate à fome, consolidou um regime em que o acesso a alimentos saudáveis tornou-se privilégio, não direito (Friedmann, 2005). Se, no passado, a agricultura estava ancorada em relações locais e ciclos ecológicos, hoje ela opera sob a lógica de um mercado globalizado, dominado por corporações que controlam desde sementes até as prateleiras de supermercados (Schneider, 2016). Esse processo carrega contradições profundas entre a busca por eficiência econômica e a crise socioambiental que ameaça ecossistemas, culturas alimentares e a própria segurança nutricional de populações inteiras.

A globalização redefiniu radicalmente os sistemas agroalimentares ao longo do último século, transformando alimentos em commodities circulantes em redes transnacionais de produção, comércio e consumo (Abramovay, 2021).  Desde a década de 1990, com a defesa do livre mercado aliado à financeirização e à globalização, a própria produção de alimentos vem se tornando cada vez mais um meio de acumulação e de poder, se deslocando de sua função básica que é suprir as necessidades alimentares da população mundial. Para Martins (2023, p. 146): “(…) as crises alimentares são [encaradas como] “pequenos” desvios que podem ser corrigidos por meio de soluções tecnológicas e baseadas no mercado”. Capital e tecnologia são, portanto, entendidos como solução para o aumento da produtividade. 

A nova fronteira tecnológica e de inovação (Liao et al., 2017) que envolve; Digitalização, Big Data, Learning Machine, Inteligência Artificial, Robótica, avanços em Engenharia Genética e Nanotecnologia, tem provocado transformações significativas no sistema agroalimentar. Conforme Wilkinson (2023, p. 35): “Um dos principais indicadores do caráter disruptivo dessas tecnologias é a entrada de gigantes do setor digital nos mercados agroalimentares, desafiando a hegemonia das corporações tradicionais do setor. Empresas como IBM, Google, Microsoft e Amazon disputam espaço com líderes históricos, como Monsanto/Bayer e Deere na produção agrícola, e Walmart na distribuição”.

O avanço da tecnologia na produção de alimentos tem permitido que empresas que fabricam sorvetes passem a produzir também carnes e demais produtos a partir dos mesmos processos tecnológicos. Algo que os produtores de soja e a pecuária não conseguem. Dado o aumento da competitividade com esses novos setores, e a mudança no regime alimentar impulsionada pela China, podem recorrer ao aumento da eficiência através de recursos digitais, agravando ainda mais as questões relacionadas ao meio ambiente e ao clima (Wilkinson, 2023).

A fome, no entanto, continua a assombrar milhões de pessoas num mundo repleto de abundância e tecnologias. Em 2022, conforme o II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (Rede Penssan, 2022), 33 milhões de pessoas estavam passando fome no Brasil, patamar comparável ao período anterior a 2004, antes da adoção de políticas públicas voltadas ao combate à fome. Nas áreas rurais, 60% dos domicílios enfrentaram algum grau de insegurança alimentar: 16,9% em nível moderado e 18,6% em nível grave. As regiões Norte e Nordeste, que concentram a maior parcela da população de baixa renda do país, apresentaram os índices mais elevados de fome, evidenciando como as desigualdades estruturais continuam a impedir o acesso a uma alimentação adequada e digna.

A flexibilização das relações de trabalho, a desregulamentação de direitos sociais, as políticas de austeridade regidas pelo neoliberalismo, intensificaram a pressão por produtividade e a precarização laboral. Jornadas extensas, terceirizações e a necessidade de múltiplos empregos para garantir sustento tornaram o tempo um recurso escasso para a classe trabalhadora. Essa dinâmica forçou famílias a substituírem alimentos in natura por produtos prontos, cujo preparo demanda menos tempo, aumentando assim o consumo de alimentos ultraprocessados (Louzada et al., 2023). A carga desigual de trabalho reprodutivo agrava o cenário: a sobrecarga de trabalho reforça a dependência de alimentos industrializados e perpetua um ciclo de má nutrição. 

Em comunidades periféricas, a situação é ainda mais crítica: 40% das mães solo relatam substituir refeições por biscoitos ou salgadinhos devido à falta de tempo e recursos (Rede Penssan, 2022). Essa sobrecarga desproporcional, que recai prioritariamente sobre mulheres – sobretudo negras e pardas – limita sua autonomia econômica e as expõe a vulnerabilidades como a insegurança alimentar. Pesquisas, como as de Radimer et al. (1990, 1992), demonstram que, em contextos de escassez alimentar, mulheres frequentemente abdicam de sua própria nutrição para priorizar filhos e parceiros, tornando-se as principais vítimas silenciosas da privação. A financeirização da reprodução social transforma direitos básicos – como alimentação e moradia – em mercadorias sujeitas à especulação e aprofunda vulnerabilidades históricas. Compreender como o regime alimentar corporativo se articula com a dinâmica de financeirização da reprodução social é essencial para desvendar por que a fome persiste mesmo em períodos de alta produtividade agrícola.

O Brasil não é um caso isolado: países do Sul Global enfrentam pressões similares de corporações transnacionais, ajustes fiscais e dívidas externas. A financeirização da agricultura, por exemplo, transformou terras africanas e latino-americanas em ativos de fundos de investimento, expulsando comunidades e destruindo culturas alimentares locais. A fome e a insegurança alimentar são resultado da estrutura desigual do sistema agroalimentar, cada vez mais dominada por megacorporações transnacionais que impõem lógicas mercantilistas à produção, distribuição e consumo de alimentos. Ao mesmo tempo, as políticas neoliberais fragilizam as redes de proteção social, ampliando as desigualdades.

Diante desse cenário, reforça-se a necessidade de compreender as conexões entre o regime alimentar corporativo e a financeirização da reprodução social, investigando como esses processos impactam o acesso à alimentação, a precarização do trabalho e as desigualdades interseccionais (de gênero, raça e classe) no Brasil. Essa análise dialoga diretamente com um dos desafios estruturais contemporâneos: a subordinação da vida aos imperativos da acumulação capitalista (Fraser, 2024; Bhattacharya, 2023). Vivemos um momento histórico de múltiplas crises sobrepostas: climática, econômica, sanitária e civilizatória. Nesse contexto, a fome emerge não como um “problema a ser resolvido”, mas como sintoma de um sistema que prioriza lucros sobre vidas. Como declarou Betinho (1993); “a fome é exclusão — da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo o mais já lhe foi negado” (Brasil de Fato, 2021). Combater a fome demanda descolonizar o pensamento, confrontar o poder corporativo e reimaginar um mundo onde alimentar-se seja um ato de dignidade, não de sobrevivência.